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sábado, 28 de junho de 2014

Uma carta de amor



Negro, 

Às vezes a gente sabe. Às vezes, o saber nasce com a gente. Só passamos um período, um pequeno intervalo, tentando ignorar o que já é, o que sempre foi e o que será. Subimos em um cavalo selvagem e desatamos a andar no deserto, tentando disfarçar a fome e, sobretudo a sede; até que aos poucos, sucumbimos ao calor e à sofreguidão da pele, cedendo à ausência de água; deitamos a cabeça na areia, fechamos os olhos e ouvimos as batidas do próprio coração. Desesperado. Gritando. Pulsando. Sucumbindo. Miserável.

Então, num lampejo simples e certeiro de sobrevivência, abrimos os olhos para avistar toda a sabedoria que escondíamos de nós mesmos. Porque às vezes, é necessário atravessar o deserto e despir-se do conhecimento prévio. Apagamos as luzes, abaixamos as bandeiras, ignoramos todos os conselhos paternos, esquecemos do nome da mãe e da saudade, jogamos fora as flores de outrora. Precisamos ser somente nós e o sol. Nós e a areia. Nós e o nada.

Negro, as nuvens estão passando e eu vejo melhor o clarão do céu. Com o passar das horas, eu vejo que a luta está perto do fim e, muito em breve, eu vou desistir de lutar. Eu vou acender uma vela para São José e não vou querer ouvir sermões. Vou assentar meu coração em qualquer sentimento, quiçá em um sentimento comum e ordinário e não vou mais querer sentir nenhum poder, nenhum tipo de torpor desses que brotam dos sentimentos elevados do amor, tão poderosos que são capazes de arrancar cabeças inteiras e deixar corpos soltos e à mercê da chuva, dos carros e do asfalto.

Você se enganou quando achou que eu traria algum tipo de resposta Negro. Eu não tenho respostas, eu não tenho certezas. Para ser sincera eu nem tenho certeza de mim mesma. Eu sou um amontoado de amor que se abisma desde meus primeiros passos. Eu sou um punhado de contentamento, de deslumbre, de dúvida, dor e fingimento, Negro. Eu sou a farsa mais verdadeira que você poderia ter conhecido. No meu grito, o que há de mais grave e profundo é meu silêncio. Deitei todas as minhas esperanças rio abaixo desde meus 21 anos. De lá para cá, sou toda deserto e um pouco de ilusão.


O Don´t touch... está lançando uma campanha para que mandemos cartas de amor para um novo projeto deles. Amo esse blog e também adoro fazer cartas de amor. Cartas de amor são ridículas e me humanizam. Cartas de amor me exercitam para continuar acreditando em mim e no amor. Escrevi uma série de cartas de amor há um tempo atrás que achava que jamais as mostraria para alguém (embora, é fato, tenha mostrado para alguns amigos queridos e confidentes). Pois bem, o amor passou, as cartas ficaram. E publico aqui no meu espaço uma da série. E sim, mandei também uma outra para o blog da queridíssima Daniela Arrais.





sexta-feira, 27 de junho de 2014

Tempo presente





eu acho que às vezes o chão sente vontade de abraçar o céu, então faz poeira. tem horas que sou chão, tem horas que sou céu. no meio disso um dia, uma noite, trilhões de respiradas que eu nem me lembro que dei. não posso vê-lo (o ar) mas sei que está aqui, ali, acolá. está sobretudo dentro. acho que a coisa mais parecida com o ar que eu conheço é o amor.

dormi muito pouco hoje. acho que faço isso porque tenho certa pressa de viver. no meio das horas apertadas de sono, visitei meus pensamentos mais livres. nunca me lembro muito bem e receio começar a contar coisas que não sei se são lembranças ou se são inventadas na hora que a fala salta da boca. minha tia quer me arrumar um namorado que gosta de gatos. e eu acho graça. então, eu penso que sonhei com alguns gatos. quando a gente cresce tem gente que acha ridículo sonhar acordado. eu acho tão bonito. se eu pudesse, gastaria mais meu tempo a sonhar com um mundo melhor, mais doce e mais abraçado. eu acho que sonhar faz eco nas paredes de dentro. e se há algo lá dentro não é necessário buscar fora, não acham?

eu poderia fazer um relatório enfadonho sobre a vida cotidiana e o meu dia. mas, a verdade é que eu me soltei nos vazios e nos silêncios que alguns segundos me deram de presente. e foi tão bom poder ficar atenta ao que passa despercebido aos olhos. eu íntima de mim mesma. e sem vontade alguma de reclamar do que fosse: do motorista mal educado? do pingo d´água que caiu das folhas da árvore exatamente entre as lentes e meu 12º cílio esquerdo? da tentativa daquele telefonema que não deu certo para Manaus? tsc. que nada. hoje eu escolhi ser ridícula, sonhadora e de quebra ainda sorri para estranhos na rua. cheia de atrasos para o futuro, atenta somente ao presente.



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Damien Rice - Hallelujah





conheço na voz de Jeff Buckley... na desse rapaz, também está linda!

Porque chove



Uma mulher tem chuva nos olhos em alguns
Ou em vários momentos de sua vida.
Chove porque nascemos para molhar o mundo
De saliva, de líquidos, fluidos, gozos

Uma mulher tem chuva nos olhos em momentos de tristeza
E de alegria
Especialmente quando há muita tristeza ou muita alegria

Uma mulher chove quando ela ama o homem que dorme do lado
Ou porque ela ama o homem que nunca teve
O homem que prende o choro, o homem que chove em outras paisagens
O homem que traz a chuva






terça-feira, 10 de junho de 2014

Falta de Assunto

Cena do filme Praia do Futuro.

Não tinha a menor ideia do que escrever ao me sentar para fazer esse texto. A verdade é que ainda me sinto assim, agora, enquanto digito. Parece estranho? Nada. É um clássico. O papel em branco: o terror dos escritores. Alguns defendem que é a falta de ideias. Eu acho que tem a ver com um monte de ideias que surgem e, se fossem contabilizadas em passos, não dobrariam a primeira esquina. Ideias podem até vir em saltos, mas precisam de uma boa caminhada para que se sustentem no papel. 

Aí em algum lugar eu li sobre detox. Eu não sabia o que era detox até então. E descobri que é uma espécie de dieta que procura desintoxicar o corpo por conta dos excessos que cometemos no dia a dia. Comidas industrializadas, embutidos, frutas e legumes com aditivos químicos, álcool, cigarros, et cétera. Eu acho que precisamos nos desintoxicar também, de vez em quando, dos excessos que praticamos não só no corpo, mas também na mente (e na alma). Essa coisa que não tem sombra, mas que nos inquieta e nos diferencia dos crótons e avencas. Será que não estamos nos envenenando com tanta tecnologia? Será que não é celular demais? Exposição demais? Notícias demais? Às vezes penso que sim e, óbvio, me ponho no centro da discussão. Estou viciada em checar e-mail, whatsapp e FB no iPhone (há seis meses achava que jamais precisaria de um iPhone) e já pensei duas vezes se não deveria fazer um twitter. Definitivamente, estou intoxicada.

Bom, em meio à profusão de ideias de pouco fôlego, me lembrei da - incompreensível - polêmica no Brasil sobre o novo filme do Karim Aïnouz, “Praia do Futuro”, estrelado pelo brilhante ator Wagner Moura e o alemão, Clemens Schick. Eu ainda não assisti, mas sei que é por causa de umas cenas de sexo entre os dois protagonistas. Talvez, o meu vizinho que foi assistir e saiu puto, tenha pensado: “Pera lá camarada, o ‘Capitão Nascimento’, o machão e espécie de herói nacional, interpretado por Wagner Moura, nos filmes Tropa de Elite 1 e 2, dirigido por José Padilha, não pode aparecer se esfregando com um homem em outro filme”. E eu que admiro o trabalho de Moura faz tempo, acho isso tudo tão atrasado, tão sem propósito, que não entendo realmente essa polêmica. E parto para o próximo e último parágrafo.

O preconceito é um dos grandes venenos que intoxicam a vida da gente. O preconceito está intimamente ligado à ignorância. Não falo da ignorância do não saber. Falo da ignorância que não quer compreender e respeitar o outro só porque ele é diferente. Ou por outras razões: porque é pobre; gordo; burro; preto; mulher; viado et cétera.. E preconceito, meus queridos, em alguns casos, é o salto para a intolerância e a violência. Venenos que intoxicam muito mais nossas vidas, que o tomate do supermercado.

Publicado hoje no Novo Jornal.


sábado, 7 de junho de 2014

Um texto sobre arte

O site da Casa da Ribeira não dá os créditos. essa foto fazia parte da exposição

Escrevi esse texto, atendendo a um pedido do artista plástico Mauro Piva. Gente boníssima, simpático, acessível e que foi convidado para expor uma série de auto-retratos, cuja inspiração ele disse que era de Van Gogh. Fiquei cheia de dedos porque naquela época - nem agora, é claro - não me achava crítica de arte, pra nada! Mas ele explicou que não seria exatamente uma crítica e que eu poderia simplesmente falar sobre minhas impressões e, se fosse o caso, ele daria uma mãozinha, caso eu desse alguma derrapada. É tanto que fiz questão que ele co-assinasse o texto, embora quase não tenha de fato interferido, o que eu acho muito bom, porque era a chancela dele sobre o que eu falava sobre sua arte, seu trabalho artístico. Achei que tinha perdido esse texto. Mas achei na grande rede. Nove anos se passaram. Dentro desses anos moram várias coisas, muitas coisas, tantas coisas em mim e nas outras pessoas, no meu trabalho, no trabalho do Mauro Piva, que eu não sei por onde anda, mas espero que continue o moço lindo, gentil e inspirado daquela época. Bom, sem mais churumelas, ei-lo:

Eu caminhava pela sala sem saber direito para onde me dirigir primeiro. Não sei se pela timidez ou pelo simples fato de não saber por onde começar. Foi quando eu senti aquele olhar, puxando-me. Chegando mais perto, pude perceber que o chamado era calado e tímido, como eu fico quando me encontro diante de tantas pessoas, circulando, conversando, debatendo. Mas, de repente o que era incerto ficou claro por alguns instantes. O olhar podia me entender, me perscrutar, me ignorar e até zombar de mim. Era eu mesma ali, muito embora não tivesse certeza de nada... Então me calei diante dele. Como ele fazia consigo mesmo, com uma boca fechada num fino traço. Ficamos ali parados diante de nós mesmos. O silêncio pairando nas paredes da enorme sala. Não era preciso muito para sentir o movimento das coisas inertes ou a cor da respiração tranqüila e a poesia solfejando em meu ouvido.

Fixar o olhar numa obra, num auto-retrato, transcende a simples visão. Quando se olha o olho, o nariz, a boca, orelha daquele outro, o espectador sai de seu estado de imaginação reprodutiva e passa a produzir sua própria e intrínseca leitura da obra. Essa é uma das funções da arte. E é o que acontece quando nos deparamos com a “experiência” de se auto-retratar do artista plástico Mauro Piva, 27, carioca, radicado em São Paulo.

A ação inerente do artista de - seja em que fase ele esteja na produção de sua obra - se auto-retratar poderia ter dois significados elementares: aquele de se mostrar e, em se expondo, entregar um pouco de si ao outro (este, ávido, muitas vezes, por observar, especular e sentir); ou se reconhecer, de algum modo transparente, imperfeito. Humano.

A exposição que trás dois óleos sobre tela  com atenção para o detalhe da orelha  e os oito desenhos em lápis de cor, que está exposta pela primeira vez na Casa da Ribeira, nasceu da inquietude da imagem de uma orelha, sendo esta o fator catalizador reflexivo motivacional que, adicionado a admiração pelo angustiado e conturbado e, sem dúvida, um dos mais expressivos artistas plásticos do século XIX, o holandês Vincent Van Gogh, culminaram nas “releituras” dos auto-retratos de Van Gogh.

Nas obras anteriores de Piva, a identidade de suas figuras não era revelada, não havia rostos nem nenhuma característica que pudesse identificar os personagens retratados embora procurasse sempre retratar o dia-a-dia das pessoas com as quais convive, suas vidas conturbadas e as angústias do homem contemporâneo. É a primeira vez que ele desenha rostos. Digo “rostos” porque a cada quadro, a cada olhar, talvez o espectador tenha um encontro, uma identificação subjetiva, mas nem por isso diáfana - consigo mesmo, com suas próprias angústias, e possa por alguns instantes, deparar-se com sua própria imagem, a partir do outro. E essa é uma outra função da arte.

Sheyla Azevedo (jornalista)
Colaboração: Mauro Piva

Aretha Franklin - (You Make Me Feel Like) A Natural Woman [1967]

terça-feira, 3 de junho de 2014

... fiz um poema





quase pego com as mãos o silêncio
guardado dentro dos dias
as palavras perdidas para todo o sempre
num olhar que, de tão triste, grita

enquanto isso
o piso a pia a toalha a escova de dentes
o pente o livro as cortinas o elefante de pedra sabão
o coração de plástico o porta-retrato o tênis sujo de areia a planta que precisa de água
ocupam as palavras sem serventia poética

se eu ficar bem quieta
é bem possível que 
eu quase sinta a passagem 
- ao menos a sombra - 
que seja, da ausência



epílogo: eu acho que fazer um poema é uma grandessíssima falta de utilização da palavra para coisas que façam algum sentido prático. por exemplo. a palavra madeira tem tudo a ver com cadeira. entretanto, para o poeta madeira é, antes de tudo, semente.

coisas que eu estou lendo...



uma mulher sóbria
é uma mulher limpa
uma mulher ébria
é uma mulher suja

dos animais deste mundo
com unhas ou sem unhas
é da mulher ébria e suja
que tudo se aproveita

as orelhas o focinho
a barriga os joelhos
até o rabo em parafuso
os mindinhos os artelhos


(Um útero é do tamanho de um punho - Angélica Freitas - CosacNaif)

O lado bom do mal



Parei de fumar há 17 dias. Não é um grande feito, dado ao fato de que eu já fiz outras tentativas e sucumbi. Noto agora, com mais experiência, que cada tentativa é diferente da outra. Nessa, a vontade de fumar é menos desesperada e mais profunda. Quando ela surge, ao invés de eu querer criar asas e sair por aí voando à procura de um cigarro novinho, meus dedos dos pés fincam raízes no chão e sinto todo o peso da decisão. Fico triste. Parada. Estática. Dentro de um buraco escuro. O desejo de fumar flutuando no vácuo da consciência de que sucumbir seria uma grande covardia

Nos primeiros dias, quando se começa a reacostumar com os verdadeiros cheiros das coisas, até de si mesmo é possível descobrir um cheiro esquecido. Meu cabelo agora tem cheiro de xampu ou da falta de xampu. Meus dedos têm cheiro de creme, de alho, de manjericão, de poeira, de café, de gatos, de dedos.

Tem outra coisa diferente também dessa vez, nesses primeiros dias, tive a sensação de que eu não era mais eu mesma. Como se a perda do hábito, a ausência da companhia diária do cigarro, do despertar ao deitar, tirasse de mim um grande pedaço da minha identidade. "Fuma feito uma caipora" já foi meu sobrenome. Já ouvi isso tantas vezes que até cheguei a não sentir mais vergonha. Nos primeiros dias eu me olhava e não me reconhecia. Como se ao sol, eu não tivesse sombra.

Por coincidência, para quem acredita em coincidências, comecei a ler nesse mesmo período um escritor peruano maravilhoso, Julio Ramón Ribeyro. O título do livro é o mesmo que dá nome ao primeiro conto: "Só para fumantes". Nesse conto, o autor faz uma verdadeira declaração de amor e de dependência ao cigarro. Segue um trecho: "Essa reflexão levou-me a considerar que o cigarro, além de ser uma droga, era para mim um hábito e um ritual. Como todo hábito, tinha se somado à minha natureza até fazer parte dela, de modo que tirá-lo de mim equivalia a uma mutilação (...)". A identificação com o texto dele foi imediata e sem precedentes.

Mas, ao contrário do narrador e sua caminhada inseparável ao lado do seu objeto cativo até a morte, tenho lutado bravamente para voltar a ser dona dos meus domínios. Sentir o cheiro das coisas, sem interferências de uma fumaça que se impregna até na alma, é uma das recompensas. Mas não sou contra quem fuma. Confesso que adoro o cheiro do cigarro e não suporto aqueles ex-fumantes chatos que ficam mais intolerantes do que os que nunca experimentaram o doce vício de fumar. Da outra vez, fui arrogante o suficiente para achar que jamais voltaria a fumar. Hoje não penso mais assim. As pessoas são livres para fazerem o que quiserem. Fumar é muito bom. Mas faz mal. É simples. Tem gente que só tem olhos para o lado bom; tem gente que olha para o lado mau e tenta se convencer de que bom mesmo teria sido não acender jamais o primeiro.