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terça-feira, 3 de junho de 2014

O lado bom do mal



Parei de fumar há 17 dias. Não é um grande feito, dado ao fato de que eu já fiz outras tentativas e sucumbi. Noto agora, com mais experiência, que cada tentativa é diferente da outra. Nessa, a vontade de fumar é menos desesperada e mais profunda. Quando ela surge, ao invés de eu querer criar asas e sair por aí voando à procura de um cigarro novinho, meus dedos dos pés fincam raízes no chão e sinto todo o peso da decisão. Fico triste. Parada. Estática. Dentro de um buraco escuro. O desejo de fumar flutuando no vácuo da consciência de que sucumbir seria uma grande covardia

Nos primeiros dias, quando se começa a reacostumar com os verdadeiros cheiros das coisas, até de si mesmo é possível descobrir um cheiro esquecido. Meu cabelo agora tem cheiro de xampu ou da falta de xampu. Meus dedos têm cheiro de creme, de alho, de manjericão, de poeira, de café, de gatos, de dedos.

Tem outra coisa diferente também dessa vez, nesses primeiros dias, tive a sensação de que eu não era mais eu mesma. Como se a perda do hábito, a ausência da companhia diária do cigarro, do despertar ao deitar, tirasse de mim um grande pedaço da minha identidade. "Fuma feito uma caipora" já foi meu sobrenome. Já ouvi isso tantas vezes que até cheguei a não sentir mais vergonha. Nos primeiros dias eu me olhava e não me reconhecia. Como se ao sol, eu não tivesse sombra.

Por coincidência, para quem acredita em coincidências, comecei a ler nesse mesmo período um escritor peruano maravilhoso, Julio Ramón Ribeyro. O título do livro é o mesmo que dá nome ao primeiro conto: "Só para fumantes". Nesse conto, o autor faz uma verdadeira declaração de amor e de dependência ao cigarro. Segue um trecho: "Essa reflexão levou-me a considerar que o cigarro, além de ser uma droga, era para mim um hábito e um ritual. Como todo hábito, tinha se somado à minha natureza até fazer parte dela, de modo que tirá-lo de mim equivalia a uma mutilação (...)". A identificação com o texto dele foi imediata e sem precedentes.

Mas, ao contrário do narrador e sua caminhada inseparável ao lado do seu objeto cativo até a morte, tenho lutado bravamente para voltar a ser dona dos meus domínios. Sentir o cheiro das coisas, sem interferências de uma fumaça que se impregna até na alma, é uma das recompensas. Mas não sou contra quem fuma. Confesso que adoro o cheiro do cigarro e não suporto aqueles ex-fumantes chatos que ficam mais intolerantes do que os que nunca experimentaram o doce vício de fumar. Da outra vez, fui arrogante o suficiente para achar que jamais voltaria a fumar. Hoje não penso mais assim. As pessoas são livres para fazerem o que quiserem. Fumar é muito bom. Mas faz mal. É simples. Tem gente que só tem olhos para o lado bom; tem gente que olha para o lado mau e tenta se convencer de que bom mesmo teria sido não acender jamais o primeiro.



6 comentários:

Cacau disse...

Sou sua fãaaaa!!!! Sempre te digo isso né? Mais saiba é de coração...

Muitos xêros(de tudo) :)

Mme. S. disse...

Então empatou, porque eu também sou sua fã!
Bjs meu bem!

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

"...não suporto aqueles ex-fumantes chatos que ficam mais intolerantes do que os que nunca experimentaram o doce vício de fumar": eu também não, minha doce Dama de Xangai. Eu os chamo de "putas arrependidas". Nada contra nada as putas, que fique bem claro. Mas é o ar pudibundo de quem esqueceu que já foi.
"Meus dedos têm cheiro ... de dedos." E existe coisa melhor que isso, sentir o cheiro dos cheiros em si, assim como a natureza os fez?
No tabagismo, o cigarro passa a ser a extensão dos lábios e quando se dorme, sente-se aquele cilindro fumegante na ponta dos dedos.
Tentar, tentar sempre, mesmo que haja recaídas mil.

Mme. S. disse...

Minha Nika, minha parceirona de letras, de convergência de ideias, de metáforas da vida e do asfalto, como é bom entrar no Bicho e ver que você comentou meu texto. Tem alguns leitores que vêm aqui e é como se completassem o ciclo da escrita. Muito muito obrigada minha doce Nika. Venha sempre, mi casa es su casa. Te amo.

Mme. S. disse...

Minha Nika, minha parceirona de letras, de convergência de ideias, de metáforas da vida e do asfalto, como é bom entrar no Bicho e ver que você comentou meu texto. Tem alguns leitores que vêm aqui e é como se completassem o ciclo da escrita. Muito muito obrigada minha doce Nika. Venha sempre, mi casa es su casa. Te amo.

EmpregHabilidade disse...

Na realidade é isso mesmo: todo ex-fumante é xiita, muito mais do que quem nunca fumou! Eu juro que não sou assim! Espero que você, quando estiver no auge da sua "não fumância inveterada", lembre-se disso...Hehehe...Beijos do Doni, da Naná e do Pedro Lucas, daqui de Santa Catarina (frio prá kct!!!)