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sábado, 7 de junho de 2014

Um texto sobre arte

O site da Casa da Ribeira não dá os créditos. essa foto fazia parte da exposição

Escrevi esse texto, atendendo a um pedido do artista plástico Mauro Piva. Gente boníssima, simpático, acessível e que foi convidado para expor uma série de auto-retratos, cuja inspiração ele disse que era de Van Gogh. Fiquei cheia de dedos porque naquela época - nem agora, é claro - não me achava crítica de arte, pra nada! Mas ele explicou que não seria exatamente uma crítica e que eu poderia simplesmente falar sobre minhas impressões e, se fosse o caso, ele daria uma mãozinha, caso eu desse alguma derrapada. É tanto que fiz questão que ele co-assinasse o texto, embora quase não tenha de fato interferido, o que eu acho muito bom, porque era a chancela dele sobre o que eu falava sobre sua arte, seu trabalho artístico. Achei que tinha perdido esse texto. Mas achei na grande rede. Nove anos se passaram. Dentro desses anos moram várias coisas, muitas coisas, tantas coisas em mim e nas outras pessoas, no meu trabalho, no trabalho do Mauro Piva, que eu não sei por onde anda, mas espero que continue o moço lindo, gentil e inspirado daquela época. Bom, sem mais churumelas, ei-lo:

Eu caminhava pela sala sem saber direito para onde me dirigir primeiro. Não sei se pela timidez ou pelo simples fato de não saber por onde começar. Foi quando eu senti aquele olhar, puxando-me. Chegando mais perto, pude perceber que o chamado era calado e tímido, como eu fico quando me encontro diante de tantas pessoas, circulando, conversando, debatendo. Mas, de repente o que era incerto ficou claro por alguns instantes. O olhar podia me entender, me perscrutar, me ignorar e até zombar de mim. Era eu mesma ali, muito embora não tivesse certeza de nada... Então me calei diante dele. Como ele fazia consigo mesmo, com uma boca fechada num fino traço. Ficamos ali parados diante de nós mesmos. O silêncio pairando nas paredes da enorme sala. Não era preciso muito para sentir o movimento das coisas inertes ou a cor da respiração tranqüila e a poesia solfejando em meu ouvido.

Fixar o olhar numa obra, num auto-retrato, transcende a simples visão. Quando se olha o olho, o nariz, a boca, orelha daquele outro, o espectador sai de seu estado de imaginação reprodutiva e passa a produzir sua própria e intrínseca leitura da obra. Essa é uma das funções da arte. E é o que acontece quando nos deparamos com a “experiência” de se auto-retratar do artista plástico Mauro Piva, 27, carioca, radicado em São Paulo.

A ação inerente do artista de - seja em que fase ele esteja na produção de sua obra - se auto-retratar poderia ter dois significados elementares: aquele de se mostrar e, em se expondo, entregar um pouco de si ao outro (este, ávido, muitas vezes, por observar, especular e sentir); ou se reconhecer, de algum modo transparente, imperfeito. Humano.

A exposição que trás dois óleos sobre tela  com atenção para o detalhe da orelha  e os oito desenhos em lápis de cor, que está exposta pela primeira vez na Casa da Ribeira, nasceu da inquietude da imagem de uma orelha, sendo esta o fator catalizador reflexivo motivacional que, adicionado a admiração pelo angustiado e conturbado e, sem dúvida, um dos mais expressivos artistas plásticos do século XIX, o holandês Vincent Van Gogh, culminaram nas “releituras” dos auto-retratos de Van Gogh.

Nas obras anteriores de Piva, a identidade de suas figuras não era revelada, não havia rostos nem nenhuma característica que pudesse identificar os personagens retratados embora procurasse sempre retratar o dia-a-dia das pessoas com as quais convive, suas vidas conturbadas e as angústias do homem contemporâneo. É a primeira vez que ele desenha rostos. Digo “rostos” porque a cada quadro, a cada olhar, talvez o espectador tenha um encontro, uma identificação subjetiva, mas nem por isso diáfana - consigo mesmo, com suas próprias angústias, e possa por alguns instantes, deparar-se com sua própria imagem, a partir do outro. E essa é uma outra função da arte.

Sheyla Azevedo (jornalista)
Colaboração: Mauro Piva

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