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terça-feira, 29 de julho de 2014

"Anabela", por Renato Braz

Zé Renato & Renato Braz - Um Novo Amor Chegou - 2010





Axé!

Renato Braz - Lamento sertanejo





Para um amigo.

"Apois" eu não gostei

autorretrato ou #emmomentoegocêntrica.


Pergunto sobre como está minha acuidade visual e ela, à maneira simpática de sempre diz: "Seu cristalino não é mais transparente como o de uma criança, mas está muito bem". Saio do consultório da oftalmologista clinicamente aliviada, mas pensando sobre minhas transparências. E entre uma esquina e outra, das buzinas dos carros no bairro de Petrópolis, a fumaça preta dos ônibus de Natal e o zig zag de gente que passa para nunca mais, concluo que tenho uma alma mais transparente que meu cristalino. A alma ainda é de criança. 

Minha amiga vem aqui em casa depois de um dia longo de trabalho, quer desabafar, contar como foi seu dia. Gosto da ideia de ter com quem dividir os pedaços de vida, diluídos nas horas. É sempre bom ter por perto gente que se confia, que troca, aconselha, pede conselho, que defende a gente. Gente que gosta de ouvir e de ser ouvida. Mesmo cansada. Mesmo sabendo que há uma grande pilha de coisas a fazer na pilha de coisas a fazer eu paro um pouquinho e tomamos um café. Mas aí, ela já mais empolgada, sugere: "Vamos ali, no posto comprar cigarro?". Eu nem penso duas vezes e vou logo dizendo: "Vou não. Quero não". E ela ri da minha falta de jeito de dizer: "Adoraria amiga, mas não posso, porque ainda tenho uns 15 mil textos para escrever e se sair de casa, nesse frio e nessa hora da noite me atrasarei ainda mais".
Pois é, eu sei que existem outros jeitos de dizer as coisas. Eu até posso compreender que essa forma direta pode ser rude. De um jeito que só quando criança faz é que tem graça. Lembro de um episódio de uma sobrinha de uma amiga. Bia era daquelas crianças que adorava ser vestida como criança e não como adulta. No elevador, ao lado da mãe, pronta para descer e ir a um aniversário ali mesmo no prédio, com seu vestido cheio de babados, uma outra menininha entra com a mãe, aos prantos, por causa da roupa, diga-se bem diferente do modelito da Bia. A mãe da primeira resolve perguntar o motivo do chororô e a outra genitora explica que a menina não estava gostando da roupa. Enquanto isso, Bia olhava a coleguinha de cima abaixo, sem dar um pio. Sua mãe sai em socorro da outra e diz que o vestido está lindo e pergunta à Bia o que ela acha. Ela, com a mesma cara da reprovação silenciosa de antes dispara: "Apois eu não gostei não".

Talvez não devesse ser tanto assim, mas a verdade é fiadora das minhas palavras. Claro que existem alguns filtros. Jamais levantaria asas para falar de coisas que magoam os outros, nem que fosse para concordar com o que já pensam ou sabem sobre si. Se estou triste, não consigo fingir satisfação. Se alegre, preservo a ingenuidade de que o mundo poderia estar sorrindo. Tenho resistências profundas ao comedimento e à bajulação. Digo o que penso. Mas penso no que digo.

Texto publicado, originalmente, hoje no Novo Jornal

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pelas esquinas

Foto: Aisha de Gaia

Hoje eu visitei aquele lugar onde você costuma ficar. Tenho evitado fazer isso com mais frequência. As coisas estão mais lentas agora. Mas não menos intensas. Quando eu te visito, acabo demorando um pouco mais pelos cantos da memória. O olhar passeia pelo banco onde conversávamos; sorrio com alguma coisas que você ou eu dissemos num momento qualquer; ouço uma canção do Djavan; cato as estrelas - esses olhos de Deus - e faço uma prece sem esperar respostas; busco a nova fase da lua como quem busca um caminho. Sentir saudades é tarefa humana. Difícil é viver pelo caminho a catar lembranças para não esquecer quem se é. 

E eu fico pensando se essa evocação não seria uma forma de permanecer longe, distante, dentro de outros mundos, viajando sem sair do lugar, cuidando para que as raízes não se aprofundem no núcleo da terra e não entrem em ebulição no caldeirão da triste realidade. Triste porém sincera. Triste porém palpável. Triste porém todavia contudo concreta. É difícil esquecer, admito. Mas também é difícil permanecer.

Tem algumas partes suas que já estão rarefeitas, mas isso ainda não me trouxe nenhum alívio. Permaneço líquida, sorvendo as linhas comedidas de uma conversa que não tem início nem fim, mas que reverbera nos ouvidos muito mais pela ausência de som que pela nitidez de sentido. Se eu fosse uma moça do século XVII eu diria, "sai de mim, vento cruel da indiferença!". Mas acho que isso soaria tão ridículo até mesmo naquele século.

Hoje eu visitei aquele lugar onde você costuma ficar, porque sou eu que me encontro por lá.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

poema sem título



nem mais os cigarros têm o fogo que antes me aquecia
nunca fui de guardar lenços em caixas, 
o dorso da mão cumpre o papel de enxugar
o refugo dos dias sem ti
esse silêncio que dorme na garganta todas as vezes em que tento
falar teu nome
e não há ninguém para ouvir

talvez você seja só uma sombra,
no melhor das hipóteses, um rastro de sol depois de dias de chuva
talvez, para não me esquecer, eu sonhe contigo
ou com um amigo que se parece contigo
ou com o planeta do Pequeno Príncipe e seus precipícios
talvez

***



A janela da namoradeira

A Janela da Namoradeira: http://vimeo.com/72187126

terça-feira, 22 de julho de 2014

Sobre vida, morte e beleza



Embora reserve alguns pudores sobre o tema, não chego a pensar que é mórbido falar em morte. Algumas pessoas, quando eu comento que a morte é a grande certeza, se inquietam e exigem mudar de assunto. Não tenho medo da morte. Nem da minha nem das dos outros. Digo, não tenho medo de morrer. Mas, de como morrer, tenho sim, muito. Daí talvez parta meu pavor de turbulência em avião, de parapeitos de janelas acima de três andares, de morrer de câncer, de ficar inválida em cima de uma cama, etecétera.

Eu penso que a morte é a grande mestra. Se é a partir da consciência de sua inexorável passagem que tentamos dar e encontrar sentido para a vida, para o percurso e o que fazemos conosco e pelos outros. E, primordialmente, o que nos diferencia dos outros animais já que estes passam a vida instintivamente sem saber que ela é finita, então a morte é, no fim das contas, uma coisa boa. Desde, é claro, que tenhamos vivido uma boa vida. E uma boa vida não significa desfrutar de sombra e água fresca, de ganharmos na loteria e não nos preocuparmos com contas a pagar, de viajarmos pelo mundo ou encontrarmos um grande amor. Isso pode até compor o conceito de boa vida para muitos. Mas o sertanejozinho que vive lá na casinha de taipa, que planta e colhe o que come, que lê a natureza como se ela fosse um compêndio de informações mais amplas e sensoriais que qualquer coisa que possa ser encontrada no mundo virtual, é perfeitamente capaz de ter uma boa vida, logo...

Perdemos recentemente dois homens que me parecem ter vivido uma boa vida. Os escritores João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Ao menos no quesito criatividade, produtividade e sabedoria eles ofereceram fartamente aos outros a chance de perceber sentidos para a vida. No livro "Ostra feliz não faz pérola", Alves, nos presenteia com essa pérola: “Platão, quando não conseguia dar respostas racionais, inventava mitos. Ele contou que, antes de nascer, a alma contempla todas as coisas belas do universo. Esta experiência é tão forte que todas as infinitas formas de beleza do universo ficam eternamente gravadas em nós. Ao nascer, esquecemo-nos delas. Mas não as perdemos. A beleza fica em nós adormecida como um feto. Assim, todos nós estamos grávidos de beleza, beleza que quer nascer para o mundo qual uma criança. Quando a beleza nasce, reencontramo-nos com nós mesmos e experimentamos a alegria". 

Então, se Platão e Rubem Alves estavam certos, que estejamos ao menos abertos para a beleza. Que ela, em suas várias formas - e aí eu me lembro daquele sempre sorriso farto de João Ubaldo Ribeiro – nunca nos seja negada, até o fim.


Texto publicado originalmente hoje no Novo Jornal

domingo, 20 de julho de 2014

Her: Love In The Modern Age







Falar de amor também é uma forma de amar.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Jeff Buckley - Everybody Here Wants You (Documentary)





Caraca! Um documentário da BBC sobre Jeff Buckley! Uaaaau!

terça-feira, 8 de julho de 2014

Cat Power - Wonderwall

Madeleine Peyroux Dance me to the end of love

sobre insônia


Não tenho sono. Isso é fato. Um pensamento tonitruante ocupa o espaço dos outros nessa fase do dia/noite. Se estou cansada, se passei o dia inteiro andando de um lado para o outro, entrevistas, conversas, pausa para o almoço, conversa com a amiga, entrevista de novo, café no shopping, chocolates no supermercado, amêndoas, mais trabalho, pausas para o cigarro, conversa com os vizinhos e mais trabalho, então porque não tenho sono? A pressa de viver às vezes cansa. É fato.

Não consigo e nem quero fugir da minha própria  natureza. Corro, penso, ando, como, sonho, pergunto, observo, brinco, espero, amo. Todos os meus verbos se conjugam em escrever. Escrever no cotidiano mais prosaico, escrever cartas, escrever e-mails, escrever pautas, editar textos, escrever matérias, inscrever sonhos. Escrevo linhas tortas sob a expectativa da cura em linhas brancas. Escrevo até no vazio das páginas, frases invisíveis, notas fantasmas sobre coisas que não sei o nome.

Continuo sem sono.

A insônia é lilás. As pálpebras fechadas, essa cortina que tenta fechar a noite e seus botões de estrelas, são meio vermelhas, meio amarelas. Quando sonho, é sempre um filme noir.  

Acho que vou ler um pouco. Esse exercício magnífico de reverenciar a escrita. 


segunda-feira, 7 de julho de 2014

um poema antes da terça



o moço ferido afia as garras
morde com palavras
grunhe queixas

paraliso emudeço sigo

cato as pétalas no caminho
o fio da navalha corta menos
que o espinho alheio
e concluo:

essa dor
não é minha

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Cartola - Full Album (1976)

Cara a cara com Bertrand Russell (BBC, 1959) [1 de 3]

hoje eu estou


um barquinho à deriva
no meio da calçada


Quando eu crescer...




... quero ser cínica


Zeca BaleIro - Eu não sei dizer... LENHA

Ventos de julho


Adoro julho. Há pouco era 1º. Hoje já são dois dias de um mês que prenuncia os ventos e que o clima fica ameno. Dá para dormir de pijama. Até boto jaqueta para ir lá fora, conversar com amigo. Fellini fica mais sonolento e ainda mais fiel aos meus chamegos. Como amo o amor macio e quente dos felinos. Fellini é meu mais fiel companheiro até hoje. Oito anos de muita cumplicidade. Ele dorme com meus sonhos todas as noites desess anos todos. Ninguém mais teve tanta disposição para suportar o peso das minhas pálpebras.

Penso num lugar distante. Num lugar onde nunca estive e, mesmo assim, tenho uma sensação de pertencimento. Penso também no quanto o amor é uma fantasia. Uma adrenalina necessária para acreditarmos que o mundo é melhor, que dá para mudar o mundo (ao menos o nosso) e seguir adiante, levantando a bandeira da felicidade constante. 

Minha casa tem janelas e portas sempre abertas para o vento do amor entrar. Sê bem-vindo julho.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Tempo que passa



Como a senhora deseja a pizza?". Oi? Eu olhei bem para o garçom e vi que ele estava realmente falando comigo. Mas alguma coisa destoava. Era eu a senhora? Eu que queria enfiar o pé na jaca, comer pizza de camarão com borda de catupiri ali naquela hora da noite, sob total anuência da minha médica que me considera "magra de ruim"? Era eu sim. Sou uma senhora aos olhos do garçom. Quiçá do mundo! Lembro-me muito bem da passagem da adolescência para a vida adulta quando ela me saltou aos olhos - nesse caso aos ouvidos. Eu passava pela rua e uns três meninos jogavam bola. Um deles parou a bola com o pé e soltou a pérola: "Vamos deixar a mulher passar". Era eu a mulher! Eu que me encaixava naquela época, no máximo, na categoria "moça passar", de repente fui alçada à vida adulta por aquele moleque.

Não sei qual será minha reação quando me chamarem de "dona". Mas sei que esse dia vai chegar. Não é o surgimento dos primeiros fios de cabelo branco ou das rugas no canto dos olhos que me assustam. Preocupa-me mais perceber que algumas pessoas insistem em não acreditar que eu tenho 40 anos. Mas eu tenho! E isso não tem que ser a glória para ninguém, mas também não é um demérito. Eu não quero aparentar mais ou menos. Quero ter a cara de 40 e ser tão bonita ou tão feia quanto me couber o direito de ser quem eu sou. Com ou sem retoques. De preferência, por enquanto, sem agulhas e bisturis.

Dia desses, depois de um dia bastante movimentado, caminhando, subindo e descendo escadas, passei um bom pedaço da noite dançando. Muito mesmo. Como há muito tempo não fazia. Em alguns momentos percebia claramente que o cérebro mandava e o corpo não obedecia aos movimentos. Voltei para casa moída e com dor nas costas. O que me levou à conclusão de que estou na adolescência da velhice: muito nova para me sentir velha e muito velha para me sentir jovem. 

Nunca quis ser jovem a vida toda. As pessoas mais maduras sempre me pareceram mais interessantes, tolerantes, generosas, pacientes, gentis. Mas agora, me deparando com o fato de que a juventude passou, ao menos em algumas partes e sensações do corpo, vou percebendo que a crueldade não está no tempo e sim no que nos é permitido a cada fase. Se na juventude nos sobra força e coragem e falta discernimento; na fase madura, nos sobra este último, mas sentimos dores nas costas e mais vergonha e medo. Medo de sermos ridículos aos olhos dos outros, vergonha porque o corpo vai cedendo à bigorna da gravidade, medo de a labirintite não permitir o próximo passo no samba, medo de que não dê tempo para abrigar todas as coisas que somos capazes de ser e de acumular na alma e que só dependem do tempo que passa e que passa e que passa.

Texto publicado hoje no Novo Jornal