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terça-feira, 29 de julho de 2014

"Apois" eu não gostei

autorretrato ou #emmomentoegocêntrica.


Pergunto sobre como está minha acuidade visual e ela, à maneira simpática de sempre diz: "Seu cristalino não é mais transparente como o de uma criança, mas está muito bem". Saio do consultório da oftalmologista clinicamente aliviada, mas pensando sobre minhas transparências. E entre uma esquina e outra, das buzinas dos carros no bairro de Petrópolis, a fumaça preta dos ônibus de Natal e o zig zag de gente que passa para nunca mais, concluo que tenho uma alma mais transparente que meu cristalino. A alma ainda é de criança. 

Minha amiga vem aqui em casa depois de um dia longo de trabalho, quer desabafar, contar como foi seu dia. Gosto da ideia de ter com quem dividir os pedaços de vida, diluídos nas horas. É sempre bom ter por perto gente que se confia, que troca, aconselha, pede conselho, que defende a gente. Gente que gosta de ouvir e de ser ouvida. Mesmo cansada. Mesmo sabendo que há uma grande pilha de coisas a fazer na pilha de coisas a fazer eu paro um pouquinho e tomamos um café. Mas aí, ela já mais empolgada, sugere: "Vamos ali, no posto comprar cigarro?". Eu nem penso duas vezes e vou logo dizendo: "Vou não. Quero não". E ela ri da minha falta de jeito de dizer: "Adoraria amiga, mas não posso, porque ainda tenho uns 15 mil textos para escrever e se sair de casa, nesse frio e nessa hora da noite me atrasarei ainda mais".
Pois é, eu sei que existem outros jeitos de dizer as coisas. Eu até posso compreender que essa forma direta pode ser rude. De um jeito que só quando criança faz é que tem graça. Lembro de um episódio de uma sobrinha de uma amiga. Bia era daquelas crianças que adorava ser vestida como criança e não como adulta. No elevador, ao lado da mãe, pronta para descer e ir a um aniversário ali mesmo no prédio, com seu vestido cheio de babados, uma outra menininha entra com a mãe, aos prantos, por causa da roupa, diga-se bem diferente do modelito da Bia. A mãe da primeira resolve perguntar o motivo do chororô e a outra genitora explica que a menina não estava gostando da roupa. Enquanto isso, Bia olhava a coleguinha de cima abaixo, sem dar um pio. Sua mãe sai em socorro da outra e diz que o vestido está lindo e pergunta à Bia o que ela acha. Ela, com a mesma cara da reprovação silenciosa de antes dispara: "Apois eu não gostei não".

Talvez não devesse ser tanto assim, mas a verdade é fiadora das minhas palavras. Claro que existem alguns filtros. Jamais levantaria asas para falar de coisas que magoam os outros, nem que fosse para concordar com o que já pensam ou sabem sobre si. Se estou triste, não consigo fingir satisfação. Se alegre, preservo a ingenuidade de que o mundo poderia estar sorrindo. Tenho resistências profundas ao comedimento e à bajulação. Digo o que penso. Mas penso no que digo.

Texto publicado, originalmente, hoje no Novo Jornal

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