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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Pelas esquinas

Foto: Aisha de Gaia

Hoje eu visitei aquele lugar onde você costuma ficar. Tenho evitado fazer isso com mais frequência. As coisas estão mais lentas agora. Mas não menos intensas. Quando eu te visito, acabo demorando um pouco mais pelos cantos da memória. O olhar passeia pelo banco onde conversávamos; sorrio com alguma coisas que você ou eu dissemos num momento qualquer; ouço uma canção do Djavan; cato as estrelas - esses olhos de Deus - e faço uma prece sem esperar respostas; busco a nova fase da lua como quem busca um caminho. Sentir saudades é tarefa humana. Difícil é viver pelo caminho a catar lembranças para não esquecer quem se é. 

E eu fico pensando se essa evocação não seria uma forma de permanecer longe, distante, dentro de outros mundos, viajando sem sair do lugar, cuidando para que as raízes não se aprofundem no núcleo da terra e não entrem em ebulição no caldeirão da triste realidade. Triste porém sincera. Triste porém palpável. Triste porém todavia contudo concreta. É difícil esquecer, admito. Mas também é difícil permanecer.

Tem algumas partes suas que já estão rarefeitas, mas isso ainda não me trouxe nenhum alívio. Permaneço líquida, sorvendo as linhas comedidas de uma conversa que não tem início nem fim, mas que reverbera nos ouvidos muito mais pela ausência de som que pela nitidez de sentido. Se eu fosse uma moça do século XVII eu diria, "sai de mim, vento cruel da indiferença!". Mas acho que isso soaria tão ridículo até mesmo naquele século.

Hoje eu visitei aquele lugar onde você costuma ficar, porque sou eu que me encontro por lá.

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