Google+ Followers

terça-feira, 22 de julho de 2014

Sobre vida, morte e beleza



Embora reserve alguns pudores sobre o tema, não chego a pensar que é mórbido falar em morte. Algumas pessoas, quando eu comento que a morte é a grande certeza, se inquietam e exigem mudar de assunto. Não tenho medo da morte. Nem da minha nem das dos outros. Digo, não tenho medo de morrer. Mas, de como morrer, tenho sim, muito. Daí talvez parta meu pavor de turbulência em avião, de parapeitos de janelas acima de três andares, de morrer de câncer, de ficar inválida em cima de uma cama, etecétera.

Eu penso que a morte é a grande mestra. Se é a partir da consciência de sua inexorável passagem que tentamos dar e encontrar sentido para a vida, para o percurso e o que fazemos conosco e pelos outros. E, primordialmente, o que nos diferencia dos outros animais já que estes passam a vida instintivamente sem saber que ela é finita, então a morte é, no fim das contas, uma coisa boa. Desde, é claro, que tenhamos vivido uma boa vida. E uma boa vida não significa desfrutar de sombra e água fresca, de ganharmos na loteria e não nos preocuparmos com contas a pagar, de viajarmos pelo mundo ou encontrarmos um grande amor. Isso pode até compor o conceito de boa vida para muitos. Mas o sertanejozinho que vive lá na casinha de taipa, que planta e colhe o que come, que lê a natureza como se ela fosse um compêndio de informações mais amplas e sensoriais que qualquer coisa que possa ser encontrada no mundo virtual, é perfeitamente capaz de ter uma boa vida, logo...

Perdemos recentemente dois homens que me parecem ter vivido uma boa vida. Os escritores João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves. Ao menos no quesito criatividade, produtividade e sabedoria eles ofereceram fartamente aos outros a chance de perceber sentidos para a vida. No livro "Ostra feliz não faz pérola", Alves, nos presenteia com essa pérola: “Platão, quando não conseguia dar respostas racionais, inventava mitos. Ele contou que, antes de nascer, a alma contempla todas as coisas belas do universo. Esta experiência é tão forte que todas as infinitas formas de beleza do universo ficam eternamente gravadas em nós. Ao nascer, esquecemo-nos delas. Mas não as perdemos. A beleza fica em nós adormecida como um feto. Assim, todos nós estamos grávidos de beleza, beleza que quer nascer para o mundo qual uma criança. Quando a beleza nasce, reencontramo-nos com nós mesmos e experimentamos a alegria". 

Então, se Platão e Rubem Alves estavam certos, que estejamos ao menos abertos para a beleza. Que ela, em suas várias formas - e aí eu me lembro daquele sempre sorriso farto de João Ubaldo Ribeiro – nunca nos seja negada, até o fim.


Texto publicado originalmente hoje no Novo Jornal

Um comentário:

Cacau disse...

Que lindoooo She...

Bjsss