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terça-feira, 1 de julho de 2014

Tempo que passa



Como a senhora deseja a pizza?". Oi? Eu olhei bem para o garçom e vi que ele estava realmente falando comigo. Mas alguma coisa destoava. Era eu a senhora? Eu que queria enfiar o pé na jaca, comer pizza de camarão com borda de catupiri ali naquela hora da noite, sob total anuência da minha médica que me considera "magra de ruim"? Era eu sim. Sou uma senhora aos olhos do garçom. Quiçá do mundo! Lembro-me muito bem da passagem da adolescência para a vida adulta quando ela me saltou aos olhos - nesse caso aos ouvidos. Eu passava pela rua e uns três meninos jogavam bola. Um deles parou a bola com o pé e soltou a pérola: "Vamos deixar a mulher passar". Era eu a mulher! Eu que me encaixava naquela época, no máximo, na categoria "moça passar", de repente fui alçada à vida adulta por aquele moleque.

Não sei qual será minha reação quando me chamarem de "dona". Mas sei que esse dia vai chegar. Não é o surgimento dos primeiros fios de cabelo branco ou das rugas no canto dos olhos que me assustam. Preocupa-me mais perceber que algumas pessoas insistem em não acreditar que eu tenho 40 anos. Mas eu tenho! E isso não tem que ser a glória para ninguém, mas também não é um demérito. Eu não quero aparentar mais ou menos. Quero ter a cara de 40 e ser tão bonita ou tão feia quanto me couber o direito de ser quem eu sou. Com ou sem retoques. De preferência, por enquanto, sem agulhas e bisturis.

Dia desses, depois de um dia bastante movimentado, caminhando, subindo e descendo escadas, passei um bom pedaço da noite dançando. Muito mesmo. Como há muito tempo não fazia. Em alguns momentos percebia claramente que o cérebro mandava e o corpo não obedecia aos movimentos. Voltei para casa moída e com dor nas costas. O que me levou à conclusão de que estou na adolescência da velhice: muito nova para me sentir velha e muito velha para me sentir jovem. 

Nunca quis ser jovem a vida toda. As pessoas mais maduras sempre me pareceram mais interessantes, tolerantes, generosas, pacientes, gentis. Mas agora, me deparando com o fato de que a juventude passou, ao menos em algumas partes e sensações do corpo, vou percebendo que a crueldade não está no tempo e sim no que nos é permitido a cada fase. Se na juventude nos sobra força e coragem e falta discernimento; na fase madura, nos sobra este último, mas sentimos dores nas costas e mais vergonha e medo. Medo de sermos ridículos aos olhos dos outros, vergonha porque o corpo vai cedendo à bigorna da gravidade, medo de a labirintite não permitir o próximo passo no samba, medo de que não dê tempo para abrigar todas as coisas que somos capazes de ser e de acumular na alma e que só dependem do tempo que passa e que passa e que passa.

Texto publicado hoje no Novo Jornal

3 comentários:

Eliade Pimentel disse...

Uia! As "velhescentes"... tb passo por isso, querida, e muitcho. No meu caso ainda mais grave e precoce pelo fato de ser mãe (nem ela, a pequena, eu permito esse tratamento: senhora), o que nos dá o direito de subir um degrau a mais na escada da "velhice", ou pelo meno, a refletida pela imagem. "Moça bonita do laço de fita", assim gostaria de ser vista para sempre!

Nivaldete disse...

Muito bom, Sheyla. Em tudo, o que salva é o estado de espírito. Há dias em que me sinto com 100; em outros, sem 100, só 10, e por aí vai e deixa ir... Bjs, iluminada.

Mme. S. disse...

"Lili", afora nossa "velhescência" natural, ainda tem da sua parte "coisas que só acontecem com Eliade", né, moça bonita do laço de fita"?


Nivaldete, minha sempre diva, me sinto assim também. Acho que desde os 15, tinha horas que me sentia com 60... E por aí vai. Vamos levando. Cheiro grande, minha estrela.