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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Fragmentos do devir




Uma desobediência toma conta de mim. O corpo está inquieto, tem ruídos, ondas, pancadas. Vivo intensamente dores e meus dedos quase não querem obedecer à dança dos teclados. Tenho tantas letras represadas. Em contraponto, a alma está em flor. Poderia estar em festa mas, passam das 10 e é melhor cultuar o silêncio. Cultivo um jardim de sonhos dentro. Assusto-me um pouco com a capacidade de nascer de novo, todos os dias. (Re)aprender a falar. (Re)aprender a andar. Cair, se for preciso, para descobrir onde dói. Ontem dancei no meio da rua. Uma dança lenta, macia e cheia de calor. Meus braços, pernas, abdômen, barriga, joelhos, ombros, meu peito e meu coração num só compasso. No compasso do outro corpo dentro do meu passo. Uma desobediência tomou conta de mim. Contrariou as estatísticas. Levou embora algumas certezas falidas. Bagunçou minhas frases. Invadiu minha boca com a língua, entrou em mim pela porta da febre e da saliva.




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Êxtase pagão 18

O presente


... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. (Clarice Lispector - Aprendendo a Viver - Rocco)




Minha cara Alice,

Finalmente reservo uma fatia do meu tempo para responder sua carta. Não será grande, admito. Mas prometo que vou me esforçar para que suas mãos sejam agarradas pelas lembranças do gosto levemente ácido e açucarado daquele bolo de laranja que você tanto gostava quando criança e pedia sempre para repetir e repetir e eu ía diminuindo cada vez mais a espessura das fatias, até ficarem tão finas que se esfarelavam no caminho entre os dedos e a boca.

Porra. Porra. Porra. Foi o que você cadenciou para mim, referindo-se a si mesma. Senão por completo, ao menos a uma parte de você que não está sabendo lidar com o que se descortina diante dos olhos. De cá penso que seus olhos ainda estão vendados. Mas sua alma, minha sempre menina, é que toma ares. Abre as janelas. Respira o ar que passa além daqueles que entram nos seus pulmões.

Alice, as escolhas não são definitivas, meu bem. Elas são, geralmente, um ponto de partida. o que você vai fazer depois delas é que darão o teor, o valor e o peso das coisas, dos outros e de você mesma. Mas, principalmente, isso não se teoriza, se sente e se vive, e você sabe muito bem. E sabe também que assim como você, eu não suporto muito frases prontas, os períodos copiados das enciclopédias e as páginas encharcadas de tédio e repetição. Sorry dear. Talvez não tenha muito a dizer. Você deve estar rindo agora. Quase triunfante. Pensando que estou balançando as mãos efusivamente enquanto falo essas coisas, quase bradando e com o cenho aparentemente severo. E repetindo, mais uma vez que, por mil olhos de gatos, prefiro muitas vezes pedras soltas a palavras vãs.

Pois bem, você se enganou dessa vez. E se enganou novamente se acreditar que me distraio de você. Muito embora ache que seu sonho é deveras incauto. Não a condeno por isso. Ao menos ele não está morto. Você não deve ter entendido. Isso é o que eu chamaria de uma piadinha coeva e infame.

Querida preciso ir agora me acorrentar a outros afazeres. Ou quem sabe me permitir a momentos de contemplação do inverno esquizóide dessa cidade. Mas antes queria lhe dizer que talvez fosse interessante que ao invés de querer adentrar pela porta da frente, você procure os porões das respostas. Livre-se também desse arsenal mercadológico que impõe uma máscara bifronte de carnaval na cara das pessoas, impedindo que elas respirem realidade, não se vanglorie dos clichês que determinam o que é felicidade e, outra coisa, se os dias passarem vagarosos, lembre-se que não é você que tem controle sobre o tempo. Definitivamente. Afora isso, nada mais é definitivo.

Não leia minha carta com os olhos sobre linhas cartesianas porque elas sequer existem para mim. Deixei-as na 8a série. Leia com o vagar e o distanciamento de quem já aprendeu a amar ao outro com a certeza de que o outro não é o que você quer que ele seja. Vou terminar com uma citação daquele nosso escritor preferido e que sempre lemos em voz alta quando estamos perto uma da outra. “Não há encanto em manipular conceitos, deixando o coração deserto”.

Com amor, S.

Mais um textinho de priscas eras que retomo aqui no blog

Yael Naim - Far Far - Official Video





Meu amigo Cristiano Félix me indicou e eu nunca mais deixei de ouvir essa moça!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Desculpe a bagunça







É uma frase recorrente. Geralmente, quando alguém chega em minha casa, peço desculpas pela bagunça. Às vezes, nem tem bagunça de fato. Talvez uma ou outra coisa fora do lugar porque as casas habitadas têm disso: uma blusa em cima da cama; uma revista jogada no lado; um livro descansando as páginas depois do exercício da leitura; um pingo de água no canto do chão próximo à geladeira. Eu acho que casa também tem alma. Se tudo está arrumado demais, no lugar demais, as cortinas não têm vincos, as almofadas não estão amassadas, um dos quadros não está ligeiramente inclinado para a esquerda; a torneira não respinga uma gota a cada 15 minutos, que seja; o relógio da cozinha não faz tic-tac, então tem alguma coisa errada.

Numa casa de verdade, as paredes suam no inverno e descascam no verão. Sempre tem uma planta precisando de um pouco de água e tapeamos o compromisso permanente de mobilizar o encanador, o eletricista ou o pintor com um pedaço de fita adesiva, que fica somente parte escondido em algum lugar. Particularmente não gosto de sujeira. Bagunça não é sujeira. A bagunça de que falo tem a ver em não saber onde está o pano de prato, que deveria estar pendurado no seu devido lugar, e sai para passear sem avisar a ninguém.

Se você chega numa casa, cuja sala – ou outro cômodo, que seja - está impecavelmente arrumada, é provável que alguém tenha acabado de organiza-la ou então que ela sirva apenas como local de passagem. Onde tem gente tem movimento, tem lixeiras com papeis descartados e outra sorte de pequenos pedaços do cotidiano. Onde tem tempo, tem histórias e às vezes até algumas teias de aranha atrás da porta ou penduradas no lustre. Onde tem vida tem pequenos defeitos circulando.

Então, na verdade, quando alguém chega à minha casa e eu digo a célere frase, tem uma outra que reverbera nos meus silêncios, e se faz notar na poeira no canto da estante, no pedaço quebrado pequeno elefante de pedra sabão com a bunda voltada para a porta de entrada, que já levou três quedas e eu finjo ignorar tal acidente; nos pelos soltos dos meus gatos que me fazem espirrar;  na frigideira que está com o cabo um pouco solto; na garrafa térmica que mantém o café aquecido por no máximo 20 minutos, dentre outros pequenos remendos de uma casa habitada: “pode entrar, eu permito que você perceba minhas imperfeições”.

Porque se alguém entra na minha casa, o meu segundo corpo, então é porque pode entrar na minha vida. Esse emaranhado de surpresas, intimidades e um pouco de bagunça.

Texto publicado hoje no Novo Jornal


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

À sombra da jabuticabeira (direto do túnel do tempo 2)



Marte está de rosto colado com a Terra. Agosto é mesmo um mês interessante. Mas, como em qualquer mês, há muito receio ligar a TV. Aproxima-me da violência que não quero ver, muito menos sentir. Desde a tarde em que fui assaltada, meu olhar ficou mais desconfiado e meus passos mais rápidos no caminho de volta pra casa. Mas nem mesmo lá me sinto à vontade. Porque tem o telefone que toca e é um amigo dizendo que foi assaltado. E além disso me diz que foi espancado pelos imbecis homofóbicos. Fico pensando naquilo tudo e a sensação é como se alguém tivesse envolvido minha cabeça num saco plástico. Então, ligo a TV para me distrair. Meio minuto depois já não quero mais ouvir aquela caixa preta. Prefiro usar a máquina do tempo da memória e me lembrar de quando era menina e depois do almoço ouvia ao lado de minha avó a Rádio AM. Era sagrado escutar a voz mansa de padre Zezinho cantando Um Jovem Galileu e lendo trechos da Bíblia. “Capítulo 15, versículo 4”. Demorei anos para decifrar, quando ía à missa com aquela mesma avó, o que aqueles números queriam dizer. Também não sabia quem era Deus ou Jesus. Pai e Filho sempre me confundiram. Hoje já sei que pais e filhos são para isso mesmo.

Teve uma época em que deixei mais de ir à missa aos domingos. Naquele tempo, comecei a passear pelos brejos da Paraíba. Creio de deveria ser uma fazenda pequena e aquela MONTANHA que costumávamos escalar não passar de um montinho meia-boca que deixava a casa com seus alpendres ventilados, numa escala bem menor aos nossos olhos. Foi numa dessas escaladas com um bando de primos e primas que senti pela primeira vez o comichão que esquenta as orelhas e desemboca frio na boca do estômago. E que os adultos costumam denominar de PAIXÃO. Rodolfo, o primo de cachinhos dourados e olhos que se confundiam com o céu da fazenda, chegara primeiro ao topo. E alguém mais embaixo esbaforidamente gritou: “Faz o Cristo”. Sem a menor cerimônia, peculiar aos infantes, ergueu os braços como se quisesse abraçar o horizonte e pendeu a cabeça prum lado. Foi um rebuliço total. A imagem fora tão magnífica que todos que lá chegavam queriam fazer igual. Naquele mesmo dia ainda brincamos de detetive, vítima e assassino. Comemos bolo quente, raspamos a panela da canjica e eu dancei pela primeira vez de rosto colado. Com meu primo Rodolfo, claro. Mas nem de rosto tão colado assim. Nossas mães se entreolhavam num misto de encantamento e cautela. Coisas da experiência.

Hoje, minha própria experiência sente falta dessas coisas. Daqueles momentos. Já não existem tantos rostos para colar embaixo da Terra. Tampouco aquele  encantamento. Então, voltando ao ponto inicial da crônica, num domingo como esse, quando tenho receio de ligar a TV e morrer, fecho os olhos e imagino o primo Rodolfo segurando minha mão. Ajudando a me equilibrar por entre as pedras escorregadias da vida. E sentados à sombra da jabuticabeira da fazenda, defronte o laguinho, com a ponta de uma varinha ele rabisca no chão de barro os castelos onde viveremos felizes para sempre.


mais um textinho que tem mais de dez anos e que jamais contribuirá para a derrubada de árvores. hashtag a natureza agradece!


Fragmentos de uma coisa anunciada (direto do túnel do tempo)






Verbo
No princípio eles se encontraram. E o paraíso se mostrou. A conversa fluía de uma métrica absoluta e clara. Ambos eram só ouvidos e bocas e olhos e pele e carne. E assim o verbo se fez mais uma vez. Como em outros bares, em outras esquinas, carros, quartos, jardins, continentes. A temperatura mantinha um nível febril de 37 graus. Quase delírio. Quase destino traçado. Quase tudo o que se esperava. Quase o que não era previsto. Quase o que fora ensaiado na frente do espelho. Quase tudo em quase nada. Era bom estar ali.

Eu
Ele arrotou alto e ela não lavou o rosto pela manhã. Ele foi ao jornaleiro e ela tomou café sem açúcar. Ele fez rapel. Equilibrou-se pelo pau e gritou do alto do penhasco: EU. EU. NÃO VOCÊ. EU! Duelou com o Morro do Careca. VOCÊ NÃO É NINGUÉM SEM MIM. Masturbação. Ela deu de ombros. Negou-o pela segunda vez quando alguém perguntou ao telefone: NÃO. ESTOY SOLA. ESTOY BIEN. O amigo só queria saber das novidades.

Rewind
Cada um do lado da cidade ouvia músicas já conhecidas umas 15 vezes e um pouco mais. A mesma melodia. O mesmo desenrolar de uma história. A canção falava de uma porta fechada, alguém que parte num metrô, uma carta encharcada de suor, um pouco de lágrimas, um TUDO BEM, TCHAU. Volta a fita.

Sacrifício
Finalmente o telefone tocou e não era engano. Mais uma vez o brilho no olho. Era só pelo álcool. Um pouco de música num bar. Dançar para esquecer. Esquecer para não ficar maluco. Ficar maluco porque não há outra saída. Comprar uma passagem para Ichi-Caca no Peru. Uma idéia. Passar uns dias descansando. Fugir do mundinho trabalho-casa-trabalho. Sem chances. Amanhã será o mesmo de outros mesmos dias. Senhor! Pedoai-os, pois eles não sabem o que fazem. Domingo é dia de ir à missa. Não de se fazer em pedaços.

Morte
Se há escombros é porque existiu dor. Se jaz um corpo é porque não sobrou mais alma. Se lábios se tocam é porque se cala a boca. Se os ponteiros correm é porque o tempo se deu por vencido e parou. Se há um jogo é porque a vida é dura mesmo. E o jogo sem regras. E, de repente, do princípio voltou-se ao caos.


Post-Scriptum
Amor
Não é bem
Maior que Tudo
Posto que cabe
Na palma da mão
No silêncio
No corpo
Na saliva
Na corda bamba
Na escuridão



Da série fundo do baú: esse texto fragmentado tem mais de dez anos e faz parte de um livro meu que jamais será publicado...


sábado, 2 de agosto de 2014

Três segundos



em modo comportada #sqn


Passei algumas horas sem telefone fixo. Motivo: Nico comeu um dos fios da bateria. Seu Roberto, meu faz-tudo daqui de casa, observou que se ela tivesse comido o mais grosso, poderia ter morrido de um choque. Foram apenas três segundos até chegar onde ela estava, brincando com o fio, mas o estrago já estava feito. Quando ela aprendeu a abrir o guarda-roupa, comeu a alça de um dos soutiens, com aquela fivelinha de ajuste e tudo. Foram oito longos dias para botar pra fora. Tenho fotos para provar. Brinquedos de borracha, cadarços de tênis, alça de biquini, dinheiro, tampa de caneta, a própria coleira, ela traça tudo. Veio onívora. Se não está dormindo, está aprontando. Se está tudo calmo, é prenúncio de alguma arte. Sobe nos lugares mais altos, quebra mais coisas dentro de casa que qualquer outro animal que já tive. Já me fez hiperventilar umas 500 vezes a mais que na convivência com os outros dois companheirinhos de quatro patas. Todavia, e talvez por esses sustos e arrebatamentos, eu sou completamente apaixonada por ela. 

Foram mais ou menos também três segundos para ela sair em disparada, pular o muro do jardim, levar um choque na cerca elétrica e cair do lado do morro que circunda nossa casa, o que me fez "caçá-la" aos gritos e prantos no meio do matagal, Quando a encontrei, parecia um coelho felpudo e assustado por conta do choque e da súbita retirada de seu passeio cotidiano, ela se agarrou no meu pescoço como se dissesse que estava segura. Ficou meio mole por cinco minutos e depois parecia pronta pra outra. Eu não tomei garapa de açúcar porque não sou muito chegada a doces, mas passei meia hora estatelada no sofá, achando que um calmante naquele momento me cairia muito bem.

Quando a encontrei a ideia era fazer da minha casa um lar temporário. Estávamos na prainha e aquela coisinha mirrada, cheia de pulgas, carrapichos, conjuntivite e uma baita de uma infecção intestinal me olhou com os olhinhos ainda cinzas e por conta de um único afago grudou em mim, eu pensei, lascou! Vou ter que levar para casa. Não teria muitas chances naquele lugar ermo, passando carro em alta velocidade a todo o tempo. Dez dias de isolamento e mais uma semana de convivência com o "irmão" mais velho foram o suficiente para ela conquistar seu espaço permanente na casa. O veterinário disse que é igual gente, quando o santo bate, bate mesmo. Vira amor. Fellini a adotou, não desgruda, é só carinho. Ela revirou e ainda vai revirar muitas vezes nossas vidas em menos de um ano. Até Dollores, que deveria se chamar "malu morada", se rendeu e quase nunca ameaça dar-lhe uns catiripapos, o que já é um grande progresso. 

Conviver com Fellini, Dolores e Nico é um presente e um aprendizado. São bichos. Não evoluírão, não vão tirar notas altas na escola, não vão me questionar nem contestar o tempo de passeio diário no jardim. Mas me ensinam tantas coisas em suas limitações, que me deslimito no gostar, no amar, no cuidar do outro sem que para isso tenha que existir uma contrapardita, uma troca igual. Eu cuido porque gosto, eu cuido porque me faz bem. Eles me devolvem simplesmente com sua existência. Eu acho que todo mundo deveria experimentar essa liberdade de amar sem esperar espelho no outro.