Google+ Followers

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

À sombra da jabuticabeira (direto do túnel do tempo 2)



Marte está de rosto colado com a Terra. Agosto é mesmo um mês interessante. Mas, como em qualquer mês, há muito receio ligar a TV. Aproxima-me da violência que não quero ver, muito menos sentir. Desde a tarde em que fui assaltada, meu olhar ficou mais desconfiado e meus passos mais rápidos no caminho de volta pra casa. Mas nem mesmo lá me sinto à vontade. Porque tem o telefone que toca e é um amigo dizendo que foi assaltado. E além disso me diz que foi espancado pelos imbecis homofóbicos. Fico pensando naquilo tudo e a sensação é como se alguém tivesse envolvido minha cabeça num saco plástico. Então, ligo a TV para me distrair. Meio minuto depois já não quero mais ouvir aquela caixa preta. Prefiro usar a máquina do tempo da memória e me lembrar de quando era menina e depois do almoço ouvia ao lado de minha avó a Rádio AM. Era sagrado escutar a voz mansa de padre Zezinho cantando Um Jovem Galileu e lendo trechos da Bíblia. “Capítulo 15, versículo 4”. Demorei anos para decifrar, quando ía à missa com aquela mesma avó, o que aqueles números queriam dizer. Também não sabia quem era Deus ou Jesus. Pai e Filho sempre me confundiram. Hoje já sei que pais e filhos são para isso mesmo.

Teve uma época em que deixei mais de ir à missa aos domingos. Naquele tempo, comecei a passear pelos brejos da Paraíba. Creio de deveria ser uma fazenda pequena e aquela MONTANHA que costumávamos escalar não passar de um montinho meia-boca que deixava a casa com seus alpendres ventilados, numa escala bem menor aos nossos olhos. Foi numa dessas escaladas com um bando de primos e primas que senti pela primeira vez o comichão que esquenta as orelhas e desemboca frio na boca do estômago. E que os adultos costumam denominar de PAIXÃO. Rodolfo, o primo de cachinhos dourados e olhos que se confundiam com o céu da fazenda, chegara primeiro ao topo. E alguém mais embaixo esbaforidamente gritou: “Faz o Cristo”. Sem a menor cerimônia, peculiar aos infantes, ergueu os braços como se quisesse abraçar o horizonte e pendeu a cabeça prum lado. Foi um rebuliço total. A imagem fora tão magnífica que todos que lá chegavam queriam fazer igual. Naquele mesmo dia ainda brincamos de detetive, vítima e assassino. Comemos bolo quente, raspamos a panela da canjica e eu dancei pela primeira vez de rosto colado. Com meu primo Rodolfo, claro. Mas nem de rosto tão colado assim. Nossas mães se entreolhavam num misto de encantamento e cautela. Coisas da experiência.

Hoje, minha própria experiência sente falta dessas coisas. Daqueles momentos. Já não existem tantos rostos para colar embaixo da Terra. Tampouco aquele  encantamento. Então, voltando ao ponto inicial da crônica, num domingo como esse, quando tenho receio de ligar a TV e morrer, fecho os olhos e imagino o primo Rodolfo segurando minha mão. Ajudando a me equilibrar por entre as pedras escorregadias da vida. E sentados à sombra da jabuticabeira da fazenda, defronte o laguinho, com a ponta de uma varinha ele rabisca no chão de barro os castelos onde viveremos felizes para sempre.


mais um textinho que tem mais de dez anos e que jamais contribuirá para a derrubada de árvores. hashtag a natureza agradece!


Nenhum comentário: