Google+ Followers

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Desculpe a bagunça







É uma frase recorrente. Geralmente, quando alguém chega em minha casa, peço desculpas pela bagunça. Às vezes, nem tem bagunça de fato. Talvez uma ou outra coisa fora do lugar porque as casas habitadas têm disso: uma blusa em cima da cama; uma revista jogada no lado; um livro descansando as páginas depois do exercício da leitura; um pingo de água no canto do chão próximo à geladeira. Eu acho que casa também tem alma. Se tudo está arrumado demais, no lugar demais, as cortinas não têm vincos, as almofadas não estão amassadas, um dos quadros não está ligeiramente inclinado para a esquerda; a torneira não respinga uma gota a cada 15 minutos, que seja; o relógio da cozinha não faz tic-tac, então tem alguma coisa errada.

Numa casa de verdade, as paredes suam no inverno e descascam no verão. Sempre tem uma planta precisando de um pouco de água e tapeamos o compromisso permanente de mobilizar o encanador, o eletricista ou o pintor com um pedaço de fita adesiva, que fica somente parte escondido em algum lugar. Particularmente não gosto de sujeira. Bagunça não é sujeira. A bagunça de que falo tem a ver em não saber onde está o pano de prato, que deveria estar pendurado no seu devido lugar, e sai para passear sem avisar a ninguém.

Se você chega numa casa, cuja sala – ou outro cômodo, que seja - está impecavelmente arrumada, é provável que alguém tenha acabado de organiza-la ou então que ela sirva apenas como local de passagem. Onde tem gente tem movimento, tem lixeiras com papeis descartados e outra sorte de pequenos pedaços do cotidiano. Onde tem tempo, tem histórias e às vezes até algumas teias de aranha atrás da porta ou penduradas no lustre. Onde tem vida tem pequenos defeitos circulando.

Então, na verdade, quando alguém chega à minha casa e eu digo a célere frase, tem uma outra que reverbera nos meus silêncios, e se faz notar na poeira no canto da estante, no pedaço quebrado pequeno elefante de pedra sabão com a bunda voltada para a porta de entrada, que já levou três quedas e eu finjo ignorar tal acidente; nos pelos soltos dos meus gatos que me fazem espirrar;  na frigideira que está com o cabo um pouco solto; na garrafa térmica que mantém o café aquecido por no máximo 20 minutos, dentre outros pequenos remendos de uma casa habitada: “pode entrar, eu permito que você perceba minhas imperfeições”.

Porque se alguém entra na minha casa, o meu segundo corpo, então é porque pode entrar na minha vida. Esse emaranhado de surpresas, intimidades e um pouco de bagunça.

Texto publicado hoje no Novo Jornal


Um comentário:

Cacau disse...

Tô achando que vc acabou entrando na minha casinha, kkkkk. M A R A V I L H O S O, tava lendo e vendo essas coisas boas de uma 'casa viva'...

Bjsssss Sheee