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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Fragmentos de uma coisa anunciada (direto do túnel do tempo)






Verbo
No princípio eles se encontraram. E o paraíso se mostrou. A conversa fluía de uma métrica absoluta e clara. Ambos eram só ouvidos e bocas e olhos e pele e carne. E assim o verbo se fez mais uma vez. Como em outros bares, em outras esquinas, carros, quartos, jardins, continentes. A temperatura mantinha um nível febril de 37 graus. Quase delírio. Quase destino traçado. Quase tudo o que se esperava. Quase o que não era previsto. Quase o que fora ensaiado na frente do espelho. Quase tudo em quase nada. Era bom estar ali.

Eu
Ele arrotou alto e ela não lavou o rosto pela manhã. Ele foi ao jornaleiro e ela tomou café sem açúcar. Ele fez rapel. Equilibrou-se pelo pau e gritou do alto do penhasco: EU. EU. NÃO VOCÊ. EU! Duelou com o Morro do Careca. VOCÊ NÃO É NINGUÉM SEM MIM. Masturbação. Ela deu de ombros. Negou-o pela segunda vez quando alguém perguntou ao telefone: NÃO. ESTOY SOLA. ESTOY BIEN. O amigo só queria saber das novidades.

Rewind
Cada um do lado da cidade ouvia músicas já conhecidas umas 15 vezes e um pouco mais. A mesma melodia. O mesmo desenrolar de uma história. A canção falava de uma porta fechada, alguém que parte num metrô, uma carta encharcada de suor, um pouco de lágrimas, um TUDO BEM, TCHAU. Volta a fita.

Sacrifício
Finalmente o telefone tocou e não era engano. Mais uma vez o brilho no olho. Era só pelo álcool. Um pouco de música num bar. Dançar para esquecer. Esquecer para não ficar maluco. Ficar maluco porque não há outra saída. Comprar uma passagem para Ichi-Caca no Peru. Uma idéia. Passar uns dias descansando. Fugir do mundinho trabalho-casa-trabalho. Sem chances. Amanhã será o mesmo de outros mesmos dias. Senhor! Pedoai-os, pois eles não sabem o que fazem. Domingo é dia de ir à missa. Não de se fazer em pedaços.

Morte
Se há escombros é porque existiu dor. Se jaz um corpo é porque não sobrou mais alma. Se lábios se tocam é porque se cala a boca. Se os ponteiros correm é porque o tempo se deu por vencido e parou. Se há um jogo é porque a vida é dura mesmo. E o jogo sem regras. E, de repente, do princípio voltou-se ao caos.


Post-Scriptum
Amor
Não é bem
Maior que Tudo
Posto que cabe
Na palma da mão
No silêncio
No corpo
Na saliva
Na corda bamba
Na escuridão



Da série fundo do baú: esse texto fragmentado tem mais de dez anos e faz parte de um livro meu que jamais será publicado...


Um comentário:

Anônimo disse...

Publique o livro!

Ítalo de Melo Ramalho.