Google+ Followers

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O presente


... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si. (Clarice Lispector - Aprendendo a Viver - Rocco)




Minha cara Alice,

Finalmente reservo uma fatia do meu tempo para responder sua carta. Não será grande, admito. Mas prometo que vou me esforçar para que suas mãos sejam agarradas pelas lembranças do gosto levemente ácido e açucarado daquele bolo de laranja que você tanto gostava quando criança e pedia sempre para repetir e repetir e eu ía diminuindo cada vez mais a espessura das fatias, até ficarem tão finas que se esfarelavam no caminho entre os dedos e a boca.

Porra. Porra. Porra. Foi o que você cadenciou para mim, referindo-se a si mesma. Senão por completo, ao menos a uma parte de você que não está sabendo lidar com o que se descortina diante dos olhos. De cá penso que seus olhos ainda estão vendados. Mas sua alma, minha sempre menina, é que toma ares. Abre as janelas. Respira o ar que passa além daqueles que entram nos seus pulmões.

Alice, as escolhas não são definitivas, meu bem. Elas são, geralmente, um ponto de partida. o que você vai fazer depois delas é que darão o teor, o valor e o peso das coisas, dos outros e de você mesma. Mas, principalmente, isso não se teoriza, se sente e se vive, e você sabe muito bem. E sabe também que assim como você, eu não suporto muito frases prontas, os períodos copiados das enciclopédias e as páginas encharcadas de tédio e repetição. Sorry dear. Talvez não tenha muito a dizer. Você deve estar rindo agora. Quase triunfante. Pensando que estou balançando as mãos efusivamente enquanto falo essas coisas, quase bradando e com o cenho aparentemente severo. E repetindo, mais uma vez que, por mil olhos de gatos, prefiro muitas vezes pedras soltas a palavras vãs.

Pois bem, você se enganou dessa vez. E se enganou novamente se acreditar que me distraio de você. Muito embora ache que seu sonho é deveras incauto. Não a condeno por isso. Ao menos ele não está morto. Você não deve ter entendido. Isso é o que eu chamaria de uma piadinha coeva e infame.

Querida preciso ir agora me acorrentar a outros afazeres. Ou quem sabe me permitir a momentos de contemplação do inverno esquizóide dessa cidade. Mas antes queria lhe dizer que talvez fosse interessante que ao invés de querer adentrar pela porta da frente, você procure os porões das respostas. Livre-se também desse arsenal mercadológico que impõe uma máscara bifronte de carnaval na cara das pessoas, impedindo que elas respirem realidade, não se vanglorie dos clichês que determinam o que é felicidade e, outra coisa, se os dias passarem vagarosos, lembre-se que não é você que tem controle sobre o tempo. Definitivamente. Afora isso, nada mais é definitivo.

Não leia minha carta com os olhos sobre linhas cartesianas porque elas sequer existem para mim. Deixei-as na 8a série. Leia com o vagar e o distanciamento de quem já aprendeu a amar ao outro com a certeza de que o outro não é o que você quer que ele seja. Vou terminar com uma citação daquele nosso escritor preferido e que sempre lemos em voz alta quando estamos perto uma da outra. “Não há encanto em manipular conceitos, deixando o coração deserto”.

Com amor, S.

Mais um textinho de priscas eras que retomo aqui no blog

Um comentário:

Anônimo disse...

Bela e poética missiva!

Ítalo de Melo de Ramalho.