Google+ Followers

sábado, 2 de agosto de 2014

Três segundos



em modo comportada #sqn


Passei algumas horas sem telefone fixo. Motivo: Nico comeu um dos fios da bateria. Seu Roberto, meu faz-tudo daqui de casa, observou que se ela tivesse comido o mais grosso, poderia ter morrido de um choque. Foram apenas três segundos até chegar onde ela estava, brincando com o fio, mas o estrago já estava feito. Quando ela aprendeu a abrir o guarda-roupa, comeu a alça de um dos soutiens, com aquela fivelinha de ajuste e tudo. Foram oito longos dias para botar pra fora. Tenho fotos para provar. Brinquedos de borracha, cadarços de tênis, alça de biquini, dinheiro, tampa de caneta, a própria coleira, ela traça tudo. Veio onívora. Se não está dormindo, está aprontando. Se está tudo calmo, é prenúncio de alguma arte. Sobe nos lugares mais altos, quebra mais coisas dentro de casa que qualquer outro animal que já tive. Já me fez hiperventilar umas 500 vezes a mais que na convivência com os outros dois companheirinhos de quatro patas. Todavia, e talvez por esses sustos e arrebatamentos, eu sou completamente apaixonada por ela. 

Foram mais ou menos também três segundos para ela sair em disparada, pular o muro do jardim, levar um choque na cerca elétrica e cair do lado do morro que circunda nossa casa, o que me fez "caçá-la" aos gritos e prantos no meio do matagal, Quando a encontrei, parecia um coelho felpudo e assustado por conta do choque e da súbita retirada de seu passeio cotidiano, ela se agarrou no meu pescoço como se dissesse que estava segura. Ficou meio mole por cinco minutos e depois parecia pronta pra outra. Eu não tomei garapa de açúcar porque não sou muito chegada a doces, mas passei meia hora estatelada no sofá, achando que um calmante naquele momento me cairia muito bem.

Quando a encontrei a ideia era fazer da minha casa um lar temporário. Estávamos na prainha e aquela coisinha mirrada, cheia de pulgas, carrapichos, conjuntivite e uma baita de uma infecção intestinal me olhou com os olhinhos ainda cinzas e por conta de um único afago grudou em mim, eu pensei, lascou! Vou ter que levar para casa. Não teria muitas chances naquele lugar ermo, passando carro em alta velocidade a todo o tempo. Dez dias de isolamento e mais uma semana de convivência com o "irmão" mais velho foram o suficiente para ela conquistar seu espaço permanente na casa. O veterinário disse que é igual gente, quando o santo bate, bate mesmo. Vira amor. Fellini a adotou, não desgruda, é só carinho. Ela revirou e ainda vai revirar muitas vezes nossas vidas em menos de um ano. Até Dollores, que deveria se chamar "malu morada", se rendeu e quase nunca ameaça dar-lhe uns catiripapos, o que já é um grande progresso. 

Conviver com Fellini, Dolores e Nico é um presente e um aprendizado. São bichos. Não evoluírão, não vão tirar notas altas na escola, não vão me questionar nem contestar o tempo de passeio diário no jardim. Mas me ensinam tantas coisas em suas limitações, que me deslimito no gostar, no amar, no cuidar do outro sem que para isso tenha que existir uma contrapardita, uma troca igual. Eu cuido porque gosto, eu cuido porque me faz bem. Eles me devolvem simplesmente com sua existência. Eu acho que todo mundo deveria experimentar essa liberdade de amar sem esperar espelho no outro.



Nenhum comentário: