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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Perder tempo




A gente vive pensando no dia seguinte. No melhor das hipóteses, no minuto seguinte. Depois que eu tomar café, eu vou fazer tal coisa. Depois que eu fizer essa tarefa, vou até o banco pagar uma conta. Faltam só nove dias para eu entrar de férias e aí eu vou dormir até mais tarde. A partir das 19h do domingo, já estamos sofrendo com a segunda. Na quarta-feira, que-remos dar um pulo para a sexta à noite. E, assim, seguimos a vida olhando para a frente. Só que, com isso, podemos esquecer de viver o tempo presente. Ou, o tempo presente nunca está presente, porque não temos tempo para ele; num instante se torna passado, no outro é só uma perspectiva ainda não vivida de verdade. Nosso desejo sempre pendente de viver para frente ou para trás.

Se nas coisas comezinhas é assim, imagine nas maiores. Não é diferente. A gente começa a faculdade, já sonhando com a formatura. Tem alguns cursos inclusive, cujas prestações de álbuns, festas, recepções, convites, já começam no início de tudo. A pessoa não sabe nem se vai passar naquelas disciplinas do semestre, mas já está pagando para o dia em que se livrar de todas elas. Tem gente que começa a trabalhar já pensando na aposentadoria. Cometendo uma inconfidência feminina, às vezes, nós mulheres, mal beijamos o cara pela primeira vez e, ao olharmos para seus lindos olhos esverdeados, ficamos imaginando a cor dos olhos dos filhos que teremos juntos. Pronto, falei!

Fazemos da vida um crediário sentimental, de sonhos, fantasias, ilusões, desejos. Tudo será melhor depois. Apostamos as fichas no amanhã, porque agora ou está simplesmente chato ou estamos esquecendo de como calcular a intensidade no aqui e agora.

Tempo é dinheiro? Pode ser. Mas também é privilégio. Banho de sol. Gargalhada com os amigos. Ausência de compromissos. Uma página em branco na agenda. A leitura de um livro esquecido na prateleira. Ouvir uma música no celular. Tempo é estar atento ao improviso, ao improvável, ao paraíso das imperfeições que nos movem não só para adiante, mas também para dentro. Tempo é prestar atenção no silêncio.

Acho que cheguei num tempo da vida em que perder tempo é um bom negócio. Sobretudo para a alma. Assustam-me mais as certezas do que as dúvidas. O amor, por exemplo, pode ser um emaranhado de planos e sonhos hipotecados para muitos anos juntos, mas se não tiver sorriso de manhã, se não tiver relatório no fim do dia, se não tiver divisão de tarefas sobre quem cozinha e sobre quem comanda a pia, se não tiver cócegas debaixo da costela e não tiver o abandono nas coisas agarradas sob o fio da convivência, então é um amor que precisa perder mais tempo. De preferência, bem juntinho.

texto publicado no Novo Jornal dia 2 de setembro

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