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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A natureza do chão



Será que cair vai de encontro à natureza? Um desencontro entre os pés e a gravidade. A confiança dos passos se quebra em míseros traços de segundos e zás! Você ali no chão, em contato com o desequilíbrio momentâneo, de nariz colado com a vergonha. Hoje eu caí no meio da rua. Até agora não entendi o motivo exato. Não tropecei, não havia uma pedra, não havia um buraco, simplesmente caí, quase flutuando, até chegar ao chão. Não machuquei as mãos, que caíram espalmadas, freando o mergulho. Não ralei os joelhos que tatearam a calçada com a rapidez de um soldado em marcha. Só um pouco de dor no pé esquerdo. Dor tímida, bissexta. Nada demais. 

Será que bípedes caem mais? Confesso que não lembro de ter visto uma galinha cair. Tampouco passarinhos.

Cair no chão é o de menos. Difícil mesmo é encarar o asfalto na cara das pessoas. Você tentando regar algum tipo de bom dia e a pessoa impermeável às xananas das suas palavras. Minha manhã poderia ter sido só uma manhã de calor, caso não tivesse encarado a aridez de uma segunda-feira regada à poeira de velhos poderes. Acompanhados de rêmoras que devoram mesquinhas possibilidades de exercerem poderezinhos ainda mais podres de tão pequenos que são.

O que sei é que minutos antes, eu havia caído e tive uma vontade imensa de rir. Do ridículo. Da vergonha. Do ridículo de sentir vergonha. Quando a gente é criança e cai, a gente chora, noutras ri. Depois é como se ficássemos proibidos de cair. Mas, duro mesmo é quando nos proibimos de sentir algo parecido com o que sentimos quando caímos. Uma sensação de que nada é tão sério ou tão grave a ponto de não admitirmos que não há tanto peso na gravidade que agarre e garanta nossos pés ao chão.

Queria ter mais tempo e permissão para cair. Para descobrir outras naturezas que moram em mim, por trás da firmeza dos passos, os ombros para trás e o nariz empinado. Mas o mundo exige outras coisas da gente. O mundo quer que você ande cada vez mais rápido. Se puder correr então, corra! Ultrapasse obstáculos! Siga em frente! Não olhe para trás!

O que não ensinam para a gente, é que em algum momento ali da queda, nos miligundos de contato do corpo todo ao chão, a gente se depara com uma enorme humanidade, com o descanso de todas as convenções e ditames e regramentos que, no final das contas, são ainda mais ridículos do que o ato de cair.

Prefiro o chão às asas da ilusão de que (também) não fui feita para cair.



2 comentários:

José Milanez disse...

Delicioso texto! Você transformou um fato cotidiano da vida em uma verdadeirasinfonia de palavras. Doce maestrina, continue regendo essa orquestra tao sua, tao peculiar à sua natureza.

Mme. S. disse...

Obrigada, meu querido, pela visita. Minha casa: sua casa.