Google+ Followers

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Memórias de viagem

O fotógrafo foi um moço tímido que trabalhava no "kiosko"


tempo de silêncio. buenos aires foi um lugar cheio de silêncios para mim, apesar de ter ficado no centro da cidade. o pedido de reserva de um "quarto tranquilo" foi respeitado. instalaram-me no sexto andar de um prediozinho antigo, com um elevador que me dava calafrios, embora tenha cumprido sua missão. falharam em outros pontos. água quente, por exemplo, virou artigo de luxo. lavar o cabelo uma tortura. nesse dia, tinha saído por volta das 11 da manhã, sem tomar o café acabrunhado que eles serviam. muitas pessoas me pediam informação nas ruas. "je ne comprend pas"... brincava com elas, disfarçando minha ignorância de forasteira, louca para voltar ao meu silêncio, quebrado apenas por pensamentos confusos que bailavam pela língua materna e o espanhol, que saltava dos porões dos ouvidos ora atentos, ora distraídos.

paro num kiosko para comprar cigarros - "permiso, camel blue, cuanto vale?... gracias", eram as poucas palavras que eu precisava pronunciar com meus interlocutores portenhos. um senhor simpático, de tez morena e lindos olhos azuis se aproxima e pergunta se sou brasileira. com a afirmativa, desata a falar sobre a economia e a política brasileiras, de quem elogia, em detrimento à "bagunça" econômica da argentina. falo dos nossos 20 anos de moeda estável. sinto orgulho do meu país. experimento aquela sensação de que só quem pode falar mal do nosso país (e também dos parentes) somos nós mesmos. ninguém mais pode. seu "júlio" desata a falar mal da argentina. concordo em silêncio. não ouso quebrar o fio condutor de simpatia que nos une naquele momento.

logo mudamos o assunto. falo-lhe de Borges como principal motivo de minha visita. ele, amparado pelo conforto dos seus - prováveis - mais de 60 anos, tenta me dissuadir de ser (uma grande, diga-se) leitora de Borges. e me indica um poeta, Jose Hernandez, o qual alimenta a ideia de que é muito melhor que Borges. sorrio. converso. desconverso. falo de martín fierro, e de um encarte que peguei no avião, do jornal la nacíon. não resisto mais e cometo uma indiscrição, comentando sobre sua simpatia, elogiando-lhe a receptividade e simpatia (tão contrastante com o tratamento dos outros; da recepcionista do hotel, ao garçom do Tortonni, do vendedor da livraria ao contrabandista de câmbio). ele sorri e me surpreende: "soy uruguayo". o vendedor do kiosko que a tudo ouvia atentamente, sorrindo timidamente e, como se me pedisse desculpas pela antipatia dos patrícios, arremata: "péro, él ha vivido aqui por 40 años". todos rimos e me despeço.

sigo adiante e entro num restaurante chinês - sim há chineses por toda parte, é o que concluo - e sento para comer um self-service muito parecido com os servidos aqui, sem o meu delicioso e necessário feijão. já estou na metade do prato, quando seu júlio me aparece novamente. trocamos meia dúzia de palavras e lhe pergunto se já é aposentado. 

não. seu júlio é engraxate. um engraxate uruguaio, que vive há 40 anos na argentina, leitor de josé hernandez, que não simpatiza com borges, e que comenta política e economia como poucos brasileiros conseguem se expressar, a respeito de suas próprias experiências, quiçá das vividas pelos outros, mundo afora.

seu júlio. uma boa lembrança dentro dos meus silêncios na cidade portenha.





2 comentários:

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

Eu tive muita sorte, Sheyla... fiquei num albergue com pessoas de todas nacionalidades possíveis, homens, mulheres, rapazes, gays, tatuados, alguém com um alarmante sintoma de síndrome de abstinência de droga. A mais velha era eu. A mais intrigante, uma alemã que passou três dias no skype falando com o namorado sem colocar o nariz para fora da porta. Na verdade, não consegui entender o que ela fazia em Buenos Ayres.
Bueno... falar que é brasileiro significa ouvir elogios da economia e das praias brasileiras.
Uruguaios ou argentinos... incrível como são cultos.Quanto à sideral cara torcida, "nariz fruncido y al aire de los porteños", Cortázar resumiu tudo: "Mauro hablaba de refrigeración o de superheterondinos con la suficiencia porteña que cree que todo le es debido." (Las puertas del cielo - Bestiario).
Não sei o que é "heterondino", mas deixa pra lá...
Volte a Buenos Ayres, Sheyla, porque há muito a ver ainda de belo e surpreendente.

Mme. S. disse...

Conselho anotado e aceito, Nika. Teve outras coisas que não contei, que contribuíram e muito para minhas impressões iniciais. Mas aprendi na vida a não me deixar limitar pelas primeiras impressões. Cheiro grande em ti!