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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Passagem de ida e volta







Sorriso frouxo e largo é melhor quando acontece entre amigos. É diferente de você rir de uma piada, de um filme ou espetáculo de comédia. Falo daquela gargalhada que sai pela garganta, mas antes percorreu todo o corpo. E pode ter sido gerada por uma piada absolutamente sem sentido ou só porque se está com muita fome. Daquele sorriso que você mostra os dentes e estreita tanto o canto dos olhos até ficar com oitenta anos de satisfação e plenitude porque você, simplesmente, está entre amigos e amigos não ligam se você tem rugas no canto dos olhos quando sorri. Eu, que tenho riso fácil, que rio de mim mesma no rio das horas quando varro para fora as memórias e suas cirandas, gosto muito de sorrisos compartilhados. Essa semana que passou, tive a oportunidade de rir durante alguns dias, longe de casa, com dois amigos que me são tão caros nas palavras quanto nos gestos.

Cristiano e Éverton, cada um à sua maneira, foram capazes de tanger para longe meus medos e tornaram maiúscula minha capacidade de me superar e seguir adiante; na hora da despedida, me afastei deles com a sensação de que tinham deixado um pouco de suas qualidades em mim. O primeiro, que tem o dom de falar com os lindos olhos brilhantes, me fez enxergar ainda mais que é possível amadurecer sem perder o frescor da aventura e da descoberta; o mais novo, como se fora um velho sábio e suas  andanças mochileiras, me encorajou e acreditou mais em mim que eu mesma. Amigos servem para isso: rir, ensinar e acreditar. Ao lado de pessoas de quem se gosta, a gente ganha super poderes. Fica com menos frio, tem disponibilidade para andar quilômetros durante horas num "mercado das moscas" para, no final não comprar nada; comer um sanduíche podrinho com a salsicha mais dura e crua que possa ter existido e também não se embriagar com algumas taças de prosseco no café da manhã.

Em meus mais lindos sonhos e nas mais doces expectativas da viagem, jamais poderia mensurar o tamanho dos pequenos e grandes gestos deles dois. Quando da minha chegada e o Everton foi me encontrar no portão de desembarque, ele guardava no rosto a tensão da busca; como um irmão fica ao procurar a irmã mais nova que se perdeu do resto da família. Ao me abraçar minutos depois, Cristiano abraçava também uma nova fase que eu inaugurava naquele momento, com o mesmo apoio com que me ajudou a encontrar as passagens e, simbolicamente, segurou na minha mão com firmeza quando eu disse para ele, “já está mais do que na hora de me despir do provincianismo".

De maneira que eu posso seguramente afirmar que minha passagem de ida e volta não foi apenas de um lugar para outro. Foi, também e com igual peso, uma passagem de ida e volta para a casa que carrego dentro de mim. Esse lugar que se constrói alicerçado pelos sorrisos e gestos de amor dos amigos.

Texto publicado originalmente hoje no Novo Jornal.

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