Google+ Followers

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sentidos



Uma noite incomum para mim aquela noite. Eu e uma multidão de gentes. Eu e uma câmera lá na frente, tentando captar a presença dos convidados ilustres da noite na tenda. Eles, os mais importantes. Eu, dando importância para as importâncias que não se habitam somente em mim. O que, por si só, é uma contradição porque só nos importamos com o que nos toca. Mesmo quando se trata de um conflito na faixa de Gaza e achamos importante porque é um conflito distante mas é um conflito que chama a dor, a injustiça, o abandono, o desespero. Essas coisas humanas que habitam em nós. Mas enfim, a multidão existia porque é nas multidões onde mais nos sentimos sós. Onde mais percebemos os limites da nossa pele, dos ossos, do ar que dividimos. Das partes indivisíveis entre o estar em um lugar repleto de outros corpos e o que é nosso corpo.

Eu via a multidão mas sabia que era impossível vê-la em completude porque só conseguimos ver as completudes por partes. Eu vejo em pequenas partes a palma de minha mão; se as aproximo dos olhos, posso ver melhor a palma da mão, mas estou vendo somente um pedaço de sulcos e células, embora ele faça parte de uma mão inteira. Eu via a multidão e, com o rabo do olho, eu via aquele homem. Altivo. Reto. Silencioso. E com a palma da mão virada para dentro dos bolsos. Eu via o homem e tentei fotografá-lo. Em vão, porque ele estava misturado demais com a multidão. E a multidão não existe. Ela é só um amontoado de pequenas partes que são importantes porque estão separadas.

Então eu ficava confusa e cada vez mais sozinha.

A multidão não existe.
Eu existo.
O homem não tem mão.
A multidão existe.
Eu não tenho importância
O homem é que é importante na multidão

Então eu saí da tenda e fui tomar um ar do lado de fora. E, enquanto eu procurava o ar com os olhos, porque meu nariz estava ocupado demais com o vento que tremulava a copa das árvores, eu me esquecia por alguns segundos daquele homem para, no minuto seguinte, lembrar com mais força de sua não existência nos meus caminhos. Eu procurava o homem com os olhos, o nariz e a palma da mão e não conseguia mais encontrá-lo. E não encontrando-o eu me perdia num desses devaneios de existência que nos fazem doer pelo peso de sustentar a si mesmo no meio de uma multidão sem nome e rostos. Essas coisas que nos fazem crer que somos inteiros e, ao mesmo tempo, pedaços de coisa nenhuma.


foto: "poros" do meu chapéu


Nenhum comentário: