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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Passagem de ida



Nunca tinha visto tamanha virulência e preconceito numa eleição como essa que acabou de ocorrer. Ouvi muitos absurdos de um lado e de outro. A verborragia correu solta. Gente como Lobão, dizendo que se a Dilma ganhasse, iria embora do país. Já vai tarde! Venho construindo consciência política desde o final dos anos 1980, quando ainda nem votava, mas já acalentava o sonho de ver um país mais igual e mais justo. De lá para cá, muitas águas rolaram debaixo desse moinho, parte delas, só foram revolvidas de um lado para outro, guardando a lama e o lodo por debaixo de velhas práticas coronelistas; noutras algumas pequenas correntezas varrendo a desigualdade. Nos últimos 12 anos é inegável a melhoria social das classes menos favorecidas. O índice de desemprego caiu; agora, quando a inflação periga chegar em 6%, já vira uma catástrofe. Em outras épocas, o dobro disso era visto como um mal necessário para manter a economia funcionando. Temos mais universidades públicas e 40 milhões de pessoas saíram da miséria.

Os nordestinos - grandes beneficiários da política social desse governo - reconheceram o valor dessas políticas e responderam nas urnas, renovando o crédito à presidenta Dilma. Por conta disso, temos sido taxados de burros, vagabundos e atrasados, e há quem chegue ao extremo da virulência, incitando que nordestinos sejam queimados, até movimento separatista eu ouvi por aí.

Seria cômico se não fosse trágico, perceber que toda essa raiva, escamoteia uma grande frustração e inabilidade em aceitar as verdadeiras e significativas mudanças sociais. Não está mais tão fácil encontrar um miserável que se sujeite a ganhar R$ 5 para cortar a grama ou lavar banheiro na casa da classe média que, estranhamente, no nosso país não se vê como classe trabalhadora e assalariada. Assim como também não é fácil ver o filho da empregada - que agora precisa ter carteira assinada - viajando para o exterior, para estudar pelo Ciência sem Fronteiras. “O governo dá bolsa esmola e compra os votos dos nordestinos”, alardeiam. “O PT é corrupto e o socialismo é responsável pelos genocídios em todo o mundo”, ouvi algumas barbaridades desse tipo; e só faltou ouvir que foi o PT quem inventou a corrupção e todos esses vícios centenários dessa política predadora e oligárquica.

Não sou cega. Nem acho que o PT fez o governo dos sonhos. Penso que, sobretudo, a classe média paga um preço alto no país, sem a garantia de serviços públicos como educação, saúde e segurança. Muita coisa precisa melhorar para termos verdadeiramente o binômio crescimento/qualidade de vida. Mas, convenhamos, não faz sentido tanta amargura. Tanto rancor. Seria trágico se não fosse cômico, morar num país em que pobre não pode receber bolsa "esmola", mas magistrado e promotor tem direito a receber auxílio-moradia; que a política oligárquica pode ter financiamento privado em suas campanhas, mas pobre não deveria ter direito a cotas nas universidades. Deixo a dica, aos inconformados, como Lobão, compra uma passagem só de ida e vai morar em Miami.



Texto publicado originalmente, ontem, no Novo Jornal -

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Tempo de espera




Eu sei que o Dia das Crianças já passou e que tratar sobre esse tema pode parecer datado. Mas em tempos sombrios de ódio e retrocesso políticos, de descrença nos discursos e uma sensação de que 90% do que está circulando nas redes sociais, mídia convencional e quetais faz parte de um urro cego e sem direção sobre os rumos do meu Estado e do meu país, então eu me peguei hoje pensando nos meus tempos de menina e no quanto era saudável o alheamento sobre esses assuntos chatos de adulto que entra ano, sai ano, pouco mudam e, quando mudam, incomodam tanto. Não é nostalgia não. Era melhor mesmo ser criança.

Vi em algum livro ou filme dia desses que o ser criança é um estado de espera. Eu acho que tem a ver com o estado de esperar crescer. Mas, crescer para onde? Para quê? Para quem? A gente só se apercebe dessas perguntas quando já é tarde e não é mais à espera do tempo que nos dedicamos a viver e sim, à espera das coisas, das pessoas, dos objetos, da riqueza, do poder, das conquistas, da ostentação, assim como também do desapontamento - que chega quando menos esperamos - da falsidade, traição, mentiras e roubos de nossa inocência no mundo.

Sei que a minha infância não é a mesma de hoje. Tampouco minhas necessidades naquela época são as mesmas que alimentam as crianças desse tempo. Estava num aniversário semana passada quando, duas meninas chegaram para a dona da casa e, tímidas, cutucavam-se entre si, instigando uma à outra a pedir algo. Eu, na minha ingenuidade, achava que elas queriam comer brigadeiro, pipoca ou quem sabe até antecipar a partilha do bolo. Elas queriam passe livre para tomar banho na jacuzzi no quarto da anfitriã e depois acessar a internet nos computadores superpotentes da Mac do escritório da casa. Tempos modernos. Mas, percebi que a surpresa do pedido delas não afastou meu espanto ao perceber a beleza indiscreta de seus desejos, muito parecidos com os meus de brigadeiro e pipoca de outrora. Ser criança é querer aqui e agora. Ser criança é pedir e arriscar o sim sob qualquer circunstância. Um "não" é só um obstáculo a ser ultrapassado. Talvez, instintivamente, saibamos que um dia ouviremos a negativa que anulará e deixará para trás nossa infância e, por isso, o tempo de espera da infância é, paradoxalmente, o tempo mais presente e mais possível que teremos em toda a nossa vida.

Nesses momentos sombrios pelos quais passamos, registro aqui meu desejo de criança, de que sejamos ainda abertos ao sonho, aos riscos, aos pedidos e na crença do sim. Seja pelo brigadeiro ou pela jacuzzi. Seja pelo que for. Mas, que não seja sem a inocência das crianças.

Publicado originalmente para o Novo Jornal.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Minha infãncia



Eu acreditava em anjo da guarda. Lia gibis e nunca li Alice no País das Maravilhas. Tinha também minha avó, medo de escuro, bolo de fubá, "grachinha" em cima da comida e verme, piolho e asma. Não podia criar gatos, mas tinha os dos vizinhos. Nota baixa nem pensar, mas tinha carinho, danoninho quando mamãe vinha para Natal e uma vontade descomunal de ter mil colants (até hoje eu não entendo esses desejos fashionistas). 

Tinha brincadeira de menina e menino. Tinha amarelinha, "Tô no Poço", queimada, a total inabilidade com a bola de vôlei, brincadeira de cozinhado, sair escondido para andar na roda-gigante, primeira comunhão, as primeiras cartas de amor, conga, o macaco agarradinho, a bonequinha fofolete, o disco de vinil colorido, filmes na sessão da tarde com o Roberto Carlos e o Elvis Presley, uma surra do painho, mil cascudos da mainha e algumas horas de castigo só para não deixar a vida tão doce, porque era doce demais, regada a doces de coco, de leite, de mamão com coco e beterraba e creme de leite, queijo de manteiga raspado do tacho, sopa de verdura só com a japonesa do lado, pão assado, cuscuz e solda preta, pipoca doce, romeu e julieta, refrigerante grapette e pastel com caldo de cana no intervalo da escola. Tinha professor João Neto e sua inteligência e deliciosa paciência com minha desatenção crônica. Tinha os amigos como Didiza, Naldinho e Rejane. Tinha os primos Freud, Joselma e Netinho. Tinha a casa grande de tia Julita e tio José, que até hoje é o único e derradeiro patriarca que guarda consigo o olhar de toda a família da minha mãe e um biquinho ao falar que é só deles. Tinha circo com ou sem lona. Tinha que buscar leite na garrafa bem cedinho lá na caixa prego. Tinha minha cadelinha Biu e meu gato Kiko. 

Tem dentro da minha infância memórias que não cabem nesse texto. Tem muito esquecimento também e algumas coisas que até hoje eu não entendo direito porque aconteceram. Mas, tem, sobretudo, uma saudade e um orgulho danado desse tempo de espera que é ser criança.