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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Minha infãncia



Eu acreditava em anjo da guarda. Lia gibis e nunca li Alice no País das Maravilhas. Tinha também minha avó, medo de escuro, bolo de fubá, "grachinha" em cima da comida e verme, piolho e asma. Não podia criar gatos, mas tinha os dos vizinhos. Nota baixa nem pensar, mas tinha carinho, danoninho quando mamãe vinha para Natal e uma vontade descomunal de ter mil colants (até hoje eu não entendo esses desejos fashionistas). 

Tinha brincadeira de menina e menino. Tinha amarelinha, "Tô no Poço", queimada, a total inabilidade com a bola de vôlei, brincadeira de cozinhado, sair escondido para andar na roda-gigante, primeira comunhão, as primeiras cartas de amor, conga, o macaco agarradinho, a bonequinha fofolete, o disco de vinil colorido, filmes na sessão da tarde com o Roberto Carlos e o Elvis Presley, uma surra do painho, mil cascudos da mainha e algumas horas de castigo só para não deixar a vida tão doce, porque era doce demais, regada a doces de coco, de leite, de mamão com coco e beterraba e creme de leite, queijo de manteiga raspado do tacho, sopa de verdura só com a japonesa do lado, pão assado, cuscuz e solda preta, pipoca doce, romeu e julieta, refrigerante grapette e pastel com caldo de cana no intervalo da escola. Tinha professor João Neto e sua inteligência e deliciosa paciência com minha desatenção crônica. Tinha os amigos como Didiza, Naldinho e Rejane. Tinha os primos Freud, Joselma e Netinho. Tinha a casa grande de tia Julita e tio José, que até hoje é o único e derradeiro patriarca que guarda consigo o olhar de toda a família da minha mãe e um biquinho ao falar que é só deles. Tinha circo com ou sem lona. Tinha que buscar leite na garrafa bem cedinho lá na caixa prego. Tinha minha cadelinha Biu e meu gato Kiko. 

Tem dentro da minha infância memórias que não cabem nesse texto. Tem muito esquecimento também e algumas coisas que até hoje eu não entendo direito porque aconteceram. Mas, tem, sobretudo, uma saudade e um orgulho danado desse tempo de espera que é ser criança. 


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