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terça-feira, 14 de outubro de 2014

Tempo de espera




Eu sei que o Dia das Crianças já passou e que tratar sobre esse tema pode parecer datado. Mas em tempos sombrios de ódio e retrocesso políticos, de descrença nos discursos e uma sensação de que 90% do que está circulando nas redes sociais, mídia convencional e quetais faz parte de um urro cego e sem direção sobre os rumos do meu Estado e do meu país, então eu me peguei hoje pensando nos meus tempos de menina e no quanto era saudável o alheamento sobre esses assuntos chatos de adulto que entra ano, sai ano, pouco mudam e, quando mudam, incomodam tanto. Não é nostalgia não. Era melhor mesmo ser criança.

Vi em algum livro ou filme dia desses que o ser criança é um estado de espera. Eu acho que tem a ver com o estado de esperar crescer. Mas, crescer para onde? Para quê? Para quem? A gente só se apercebe dessas perguntas quando já é tarde e não é mais à espera do tempo que nos dedicamos a viver e sim, à espera das coisas, das pessoas, dos objetos, da riqueza, do poder, das conquistas, da ostentação, assim como também do desapontamento - que chega quando menos esperamos - da falsidade, traição, mentiras e roubos de nossa inocência no mundo.

Sei que a minha infância não é a mesma de hoje. Tampouco minhas necessidades naquela época são as mesmas que alimentam as crianças desse tempo. Estava num aniversário semana passada quando, duas meninas chegaram para a dona da casa e, tímidas, cutucavam-se entre si, instigando uma à outra a pedir algo. Eu, na minha ingenuidade, achava que elas queriam comer brigadeiro, pipoca ou quem sabe até antecipar a partilha do bolo. Elas queriam passe livre para tomar banho na jacuzzi no quarto da anfitriã e depois acessar a internet nos computadores superpotentes da Mac do escritório da casa. Tempos modernos. Mas, percebi que a surpresa do pedido delas não afastou meu espanto ao perceber a beleza indiscreta de seus desejos, muito parecidos com os meus de brigadeiro e pipoca de outrora. Ser criança é querer aqui e agora. Ser criança é pedir e arriscar o sim sob qualquer circunstância. Um "não" é só um obstáculo a ser ultrapassado. Talvez, instintivamente, saibamos que um dia ouviremos a negativa que anulará e deixará para trás nossa infância e, por isso, o tempo de espera da infância é, paradoxalmente, o tempo mais presente e mais possível que teremos em toda a nossa vida.

Nesses momentos sombrios pelos quais passamos, registro aqui meu desejo de criança, de que sejamos ainda abertos ao sonho, aos riscos, aos pedidos e na crença do sim. Seja pelo brigadeiro ou pela jacuzzi. Seja pelo que for. Mas, que não seja sem a inocência das crianças.

Publicado originalmente para o Novo Jornal.

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