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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O apanhador de desperdícios







Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas do informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


p. 47 - Memórias Inventadas - As Infâncias de Manoel de Barros


Precisa dizer mais nada? Manoel de Barros já estava cansado. Precisava ir. Dele, ficam as palavras e suas desimportâncias. Essas coisas que nos dão sentido para a vida na arte. Para mim, ele só virou um passarinho. Coisa que já era.



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Um ano depois

Em modo comportada #sqn



Eu já havia fechado a conta aqui em casa de moradores de quatro patas. Um é pouco, dois é bom, três é demais era o meu lema. Aí a Lu me chama para irmos à prainha. Tava super cansada do Flin, que ano passado teve quatro dias e era minha primeira vez como responsável pelo encarte especial da Tribuna do Norte. Pensei: prainha é uma boa! Ela estaciona o carro na marginal, em frente a um casebre aparentemente abandonado. Quando abro a porta, sai de debaixo do carro uma coisinha minúscula, xexelenta, cheia de carrapichos. "Pessoa, que tanto carrapicho é esse?" - e vou tirando alguns encrustados em sua cabecinha (parecendo uma coroa enfiada em um mártir). O primeiro impulso foi de, ok, tirei os carrapichos, agora sigo com a minha vida. Mas a "pessoa' não estava satisfeita. E me seguiu ao atravessar a pista. "Pessoa, não faz isso, que tu morres! Volta para lá, vai", tentei convencê-la em vão. Atravessei novamente. Ela me seguiu novamente. Naquele momento, meu coração já me dizia com todas as letras que eu não poderia deixar aquele serzinho ali, abandonado, famélico, estrupiado, minúsculo. Minha mente repetia: um é pouco, dois é bom, três é demais. Bate coração mais forte, ensurdece meus pensamentos racionais. Seguro-a como sua mãe original a seguraria - ela se entrega totalmente, confiante e exausta. Coloco-a dentro da bolsa. Até então, indiferente, a Lu me diz meio incrédula, meio estupefata: "Você vai levar, Sheylinha? Mulher, você tem muita coragem".

Não era exatamente coragem. Impulso, compaixão, responsabilidade, amor? Talvez. Não posso fazer isso com todos os animais, gatos e cães que eu vejo na rua; não posso libertar do açoite infeliz dos carroceiros os burricos que eu vejo carregando as carroças em Natal; não consigo adotar 15 crianças igual dona Salete fez um dia. Mas, naquele momento, não me senti tendo escolha. Era resgatar ou resgatar. O plano inicial seria tratar, alimentar, deixar crescer um pouco mais e colocar no Adote RN, no FB, fazer uma divulgação em massa para que ela conseguisse um lar definitivo. Porque o meu seria temporário.

Ainda na praia, dois banhos de mar. Momento escatológico: tinha tanto pus saindo dos olhinhos que estavam grudados em sua carinha pequena e pálida. A água do mar ajudou a amolecer. Mas o pelo saiu junto. Feridas. Dezesseis pulgas retiradas ali mesmo. Derreti um pedaço de gelo dentro de uma quenga de coco, mas ela não sabia beber água. Achei uma torneira de água morninha para dar o terceiro banho e retirar o sal. Sem as pulgas, embora sem nada dentro da barriga naquelas três horas de sol, ela adormeceu dentro da bolsa.

Antibióticos para a infecção intestinal, anti-inflamatório para os olhos e ração para filhote, três dias depois, "Amelie" já estava feliz e passava o dia a brincar, quando não dormindo. Começou o imbróglio, todo mundo opinou que Amelie é machinho. E eu dizia, Amelie é Amelie. Voto vencido. Virou Nico, com a anuência e toda a paixão rasgada da Antônia que, nessa altura do campeonato acordava e tocava na campanhia para desfrutar das brincadeiras com Nico. Duas semanas depois, com aproximadamente dez semanas, o veterinário nem pestaneja, Nico é Amelie! Melhor, Nico será eternamente Nico, mas sempre foi fêmea.

Não teve campanha nas redes sociais que desse jeito. Nico foi crescendo, querendo cada vez mais sair do "barraco" improvisado na varanda, conquistou o coração de Fellini depois de dois dias de convivência, porque antes era uma riscadeira de fósforo que só vendo. Dolores se manteve indiferente, como sempre. Hoje ela está maior que ele e ganha todas as lutas de jiu-jitsu que eles fazem a cada duas horas e meia. São companheiros inseparáveis. Amigos para sempre.

Nico não é mole não. Não consegui tirar-lhe da cabeça que não precisa mais comer calango, mosquito, lagartixa, rã, cadarço de tênis, fio de carregador de celular, alça de soutien. Ela come bem a ração, mas segue mastigando qualquer coisa que der sopa, ou borracha, pedra, capim. Por isso, vivo me assustando (já passou oito dias com uma alça de soutien dentro do estômago), já ficamos sem telefone fixo, porque ela comeu o fio, já levou choque na cerca elétrica e caiu do outro lado do muro do condomínio, já subiu até o topo do pinheiro do jardim que quase é da altura de dois andares, já fez meu coração palpitar muitas vezes, sobretudo porque a amo muito. Porque ela virou a caçula da família, porque ela é minhha tapioca, meu pudim de leite com cereja no meio (o nariz dela ficou vermelhinho e é a cereja, sacou?). 

E hoje faz exatamente um ano que ela me escolheu, que ela me achou e que ela me convenceu que, embora eu não possa mudar o mundo nem a triste realidade dos animais abandonados, das crianças sem lar, dos velhinhos que perdem seus parentes e os referenciais, da crise econômica mundial, do buraco na camada de ozônio, dos coxinhas e das pessoas alienadas e narcisistas, que eu posso deixar que um pequeno amor, que foi crescendo, me modifique, me fortaleça, me dê (mais) sentido pra vida.

Feliz aniversário Nico, que você continue me dando sustos, me fazendo raivas, me tirando do fundo da garganta muitas gargalhadas, que continue amando seu irmão mais velho mas que, pelamordedeus, arranhe menos meu sofá azul turqueza que eu acabei de mandar cobrir novamente, ok?

Uma parceria que virou livro

Foto: Alex Regis/Tribuna do Norte


Não sei precisar bem como começou a conversa. Mas, inicialmente ele pensava que poderíamos, cada um, pegar dois nomes para serem biografados. Coisa de empolgação do "início de namoro". Nesse caso, do projeto Biografias 2011, pensado, proposto e aprovado em Lei, pela competência e persistência do meu amigo, José Correia (meu sempre mucuinho ou maruinho) porque intimidade com amor, carinho e respeito não se perde, só, se fortalece e se ressignfica com o tempo, mesmo que já não sejamos mais os mesmos de outrora.

Durante o processo de feitura do meu livro sobre o grande Newton Navarro (escritor, artista plástico, poeta, dramaturgo, bebum, atrabiliário, doce, edipiano, inesquecível, nome de ponte) não havia uma única entrevista, um único achado nas pesquisas nos jornais velhos da cidade, na viagem que fiz a Fortaleza, que eu não ligasse para ele para contar com entusiasmo ou decepção como tinha sido. Quando o prazo de entrega do texto começou a se aproximar e a tirar meu sono, ora delicadamente ora com os aperreios escapando pelas orelhas, eu dizia para ele: vou atrasar! Segura a tua onda! E ele ficava calado ou falava alguma coisa incentivadora, no seu modo baixo e 76 rotações de falar. Sempre calmo. Mesmo que esteja implodindo por dentro e aí, nesses casos, ele faz um leve bico de contrariedade. Detesta admitir que "é" e não mais "está ficando" e não vou nem pronunciar o adjetivo, mas, acho que a pista de voo pra mosquito acima da sua testa aumentou bastante durante o processo de feitura dos quatro livros. Todo mundo deu trabalho. Todo mundo, em certa hora, encheu o saco do cara. Todo mundo merecia que ele atrasasse o pagamento quando da entrega do livro, diga-se todos com prazo estourado. Alguns, inclusive, estouradíssimos. Mas ele não o fez. 

Depois da entrega, do e-mail que ele esperava há 45 dias e que não chegava, vieram outros tramites. Porque escrever livro não é só fazer texto. Tem escolha de capa, título, etc. Eu disse para ele, quero da cor de um sol (laranja terroso) que Newton usava muito em seus quadros. José me manda uma prova com um verde abacate e depois com uma cor de burro quando foge. Ligo para ele com a moléstia dos cachorros "qual a parte que você não entendeu que eu quero aquele sol terroso que o Newton fazia heim?". "Qué qué isso, Mucuinha. Ei, tenha calma" (falando grosso). Fiquei calma, porque gente calma quando fica braba, é melhor gente braba ficar calma, para não atiçar né? No mesmo dia ele mandava a cor que virou capa e que nunca mais virou motivo de discórdia entre nós dois. 

Ele é tão abestado que sequer recebeu alguma coisa do montante aprovado e captado através da renúncia fiscal da Prefeitura, para o Colégio CEI, que destinou a grana para o projeto e pagou a todos nós uma grana boa, em se tratando de mercado editorial potiguar, nunca antes vista por essas terras. O que prova que além de diletante ele é apaixonado pelo que faz. Ele é generoso. Ele quer ver o(s) livro(s) pronto(s). E isso lhe basta. Sentir o cheiro da tinta, folhear as páginas que ele, m.e.t.i.c.u.l.o.s.a.m.e.n.t.e., lê, relê, juntamente com o brilhante trabalho de Kaline e Zeca (revisora e diagramador), parceiros dessa empreitada. Sabe um leitor que vira escritor? José é um grande leitor que virou editor, que encontrou seu caminho de reverência aos livros, ajudando a botar livros no mundo.

Maruinho ou Mucuinho (tanto faz), ter feito parte daquela conversa sobre os livros na quinta passada, no Flin, me encheu de orgulho. As palavras fluíram tão facilmente. Bem diferente de quando eu escrevia o livro e travava na página 30, na 53 ou na 87, e ligava para ti, achando que não ía conseguir, que não era escritora porra nenhuma, que nem jornalista eu estava conseguindo ser e você, na sua calma e tranquilidade, sempre dava um jeito de me fazer acreditar em mim.

Pôxa, cara! Correndo todos os riscos de virar um grande lugar comum esse finalzinho, eu queria dizer o quanto sou agradecida por você ter acreditado em mim, viu? Não à toa, o livro - que tu fez cara de cuscuz como se nada fosse - é dedicado a tu, pedro bó!

te amo, sua sempre amiga, 

S.