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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O apanhador de desperdícios







Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas do informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


p. 47 - Memórias Inventadas - As Infâncias de Manoel de Barros


Precisa dizer mais nada? Manoel de Barros já estava cansado. Precisava ir. Dele, ficam as palavras e suas desimportâncias. Essas coisas que nos dão sentido para a vida na arte. Para mim, ele só virou um passarinho. Coisa que já era.



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