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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Um ano depois

Em modo comportada #sqn



Eu já havia fechado a conta aqui em casa de moradores de quatro patas. Um é pouco, dois é bom, três é demais era o meu lema. Aí a Lu me chama para irmos à prainha. Tava super cansada do Flin, que ano passado teve quatro dias e era minha primeira vez como responsável pelo encarte especial da Tribuna do Norte. Pensei: prainha é uma boa! Ela estaciona o carro na marginal, em frente a um casebre aparentemente abandonado. Quando abro a porta, sai de debaixo do carro uma coisinha minúscula, xexelenta, cheia de carrapichos. "Pessoa, que tanto carrapicho é esse?" - e vou tirando alguns encrustados em sua cabecinha (parecendo uma coroa enfiada em um mártir). O primeiro impulso foi de, ok, tirei os carrapichos, agora sigo com a minha vida. Mas a "pessoa' não estava satisfeita. E me seguiu ao atravessar a pista. "Pessoa, não faz isso, que tu morres! Volta para lá, vai", tentei convencê-la em vão. Atravessei novamente. Ela me seguiu novamente. Naquele momento, meu coração já me dizia com todas as letras que eu não poderia deixar aquele serzinho ali, abandonado, famélico, estrupiado, minúsculo. Minha mente repetia: um é pouco, dois é bom, três é demais. Bate coração mais forte, ensurdece meus pensamentos racionais. Seguro-a como sua mãe original a seguraria - ela se entrega totalmente, confiante e exausta. Coloco-a dentro da bolsa. Até então, indiferente, a Lu me diz meio incrédula, meio estupefata: "Você vai levar, Sheylinha? Mulher, você tem muita coragem".

Não era exatamente coragem. Impulso, compaixão, responsabilidade, amor? Talvez. Não posso fazer isso com todos os animais, gatos e cães que eu vejo na rua; não posso libertar do açoite infeliz dos carroceiros os burricos que eu vejo carregando as carroças em Natal; não consigo adotar 15 crianças igual dona Salete fez um dia. Mas, naquele momento, não me senti tendo escolha. Era resgatar ou resgatar. O plano inicial seria tratar, alimentar, deixar crescer um pouco mais e colocar no Adote RN, no FB, fazer uma divulgação em massa para que ela conseguisse um lar definitivo. Porque o meu seria temporário.

Ainda na praia, dois banhos de mar. Momento escatológico: tinha tanto pus saindo dos olhinhos que estavam grudados em sua carinha pequena e pálida. A água do mar ajudou a amolecer. Mas o pelo saiu junto. Feridas. Dezesseis pulgas retiradas ali mesmo. Derreti um pedaço de gelo dentro de uma quenga de coco, mas ela não sabia beber água. Achei uma torneira de água morninha para dar o terceiro banho e retirar o sal. Sem as pulgas, embora sem nada dentro da barriga naquelas três horas de sol, ela adormeceu dentro da bolsa.

Antibióticos para a infecção intestinal, anti-inflamatório para os olhos e ração para filhote, três dias depois, "Amelie" já estava feliz e passava o dia a brincar, quando não dormindo. Começou o imbróglio, todo mundo opinou que Amelie é machinho. E eu dizia, Amelie é Amelie. Voto vencido. Virou Nico, com a anuência e toda a paixão rasgada da Antônia que, nessa altura do campeonato acordava e tocava na campanhia para desfrutar das brincadeiras com Nico. Duas semanas depois, com aproximadamente dez semanas, o veterinário nem pestaneja, Nico é Amelie! Melhor, Nico será eternamente Nico, mas sempre foi fêmea.

Não teve campanha nas redes sociais que desse jeito. Nico foi crescendo, querendo cada vez mais sair do "barraco" improvisado na varanda, conquistou o coração de Fellini depois de dois dias de convivência, porque antes era uma riscadeira de fósforo que só vendo. Dolores se manteve indiferente, como sempre. Hoje ela está maior que ele e ganha todas as lutas de jiu-jitsu que eles fazem a cada duas horas e meia. São companheiros inseparáveis. Amigos para sempre.

Nico não é mole não. Não consegui tirar-lhe da cabeça que não precisa mais comer calango, mosquito, lagartixa, rã, cadarço de tênis, fio de carregador de celular, alça de soutien. Ela come bem a ração, mas segue mastigando qualquer coisa que der sopa, ou borracha, pedra, capim. Por isso, vivo me assustando (já passou oito dias com uma alça de soutien dentro do estômago), já ficamos sem telefone fixo, porque ela comeu o fio, já levou choque na cerca elétrica e caiu do outro lado do muro do condomínio, já subiu até o topo do pinheiro do jardim que quase é da altura de dois andares, já fez meu coração palpitar muitas vezes, sobretudo porque a amo muito. Porque ela virou a caçula da família, porque ela é minhha tapioca, meu pudim de leite com cereja no meio (o nariz dela ficou vermelhinho e é a cereja, sacou?). 

E hoje faz exatamente um ano que ela me escolheu, que ela me achou e que ela me convenceu que, embora eu não possa mudar o mundo nem a triste realidade dos animais abandonados, das crianças sem lar, dos velhinhos que perdem seus parentes e os referenciais, da crise econômica mundial, do buraco na camada de ozônio, dos coxinhas e das pessoas alienadas e narcisistas, que eu posso deixar que um pequeno amor, que foi crescendo, me modifique, me fortaleça, me dê (mais) sentido pra vida.

Feliz aniversário Nico, que você continue me dando sustos, me fazendo raivas, me tirando do fundo da garganta muitas gargalhadas, que continue amando seu irmão mais velho mas que, pelamordedeus, arranhe menos meu sofá azul turqueza que eu acabei de mandar cobrir novamente, ok?

3 comentários:

Cacau disse...

Morrendo de rir e imaginando vc mandando ele "ir" embora no primeiro encontro... Vc é especial e os animais infelizmente percebem mais que os humanos!

bjsss sou sua fã... Ah Parabéns para Nico/Amelie,kkkk.

glaucia rebouças disse...

Que Lindeza! Que muito amor! Parabéns, dona moça! Fiquei emocionada. Resgatei ha pouco o Bob. Ele me conquistou pra sempre! Tava todo feio e faminto num canteiro, não pensei, botei no carro! Apesar do terrorista destruidor de tudo kkk eh o gato mais carinhoso do mundo! Já conquistou a irmã ciumenta e não me deixa montar a arvore de Natal. Mil beijos no seu coração! :*

Aninha disse...

Ain. Rindo e chorando aqui. Parabéns pra Nico, pra prole toda e pra vc e dona Dulce, pela linda família.