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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Eu quero essa



Quando não se tem filho, uma das coisas mais gratificantes que se pode ter é a confiança que uma mãe desprende a você nos cuidados com a prole. Uma vez tive um papo ótimo com Cecília, no jardim, enquanto a mãe dela fazia sei lá o quê no meu quarto. Ali, eu e aquela menininha de olhos puxadinhos e cabelos negros éramos só duas pessoas batendo papo e confiando uma na outra. Teve uma outra vez - e essa eu conto para os amigos quando o assunto é falar sobre o que criança diz e faz - que Soraya me confiou a companhia de Antônia até o shopping. Já no caminho, eu negociei com ela que se fôssemos em tal loja e coisa e tal, não ía comprar presente caro. Ela concordou de pronto, olhando pela janela a paisagem, meio concentrada em seus devaneios de três anos. Não deu outra, quando chegamos ao lugar, cinco segundos depois, Antônia estava agarrada com uma Barbie de R$ 99,99. E dizia alto e freneticamente: "Eu quero essa, eu quero essa, eu quero essa!". Nesse ínterim, meu telefone toca e era meu chefe. Atendo o telefone e ela continua seu empreendimento em me convencer em altos brados. Eu, em meio ao desespero entre ser uma profissional compenetrada e uma tia atenciosa, deixo um pouco o telefone de lado e sussurro: "Estou falando com meu chefe" (como se ela pudesse compreender tal afirmação) e ela, também em tom bem baixinho: "Tá bem, mas eu quero essa!".

Quando se é criança é tão mais fácil dizer o que se quer, sem que isso seja um peso ou uma ofensa para os outros. E não estou falando em nostalgia e sim em perda de espontaneidade. Nesse período do ano é mais comum ganharmos presente e, quase sempre, quando indagado sobre o que queremos ganhar, nunca sabemos dizê-lo, ou se o sabemos, temos constrangimento em dizer. Como se o desejo do outro de presentear não se encaixasse no desejo de receber. Salvo - salvíssimo aliás, exceções, na intimidade, quando se pode realmente dizer o que se está precisando. Como quando você diz para sua tia, “olha eu quero ganhar um cinto de presente”. E não vale aquelas respostas estapafúrdias do tipo, "ok, você quer me presentear? Quero um emprego novo, um carro, um iate ou uma casa na praia". Fala sério, quem é que dá um presente desses a alguém? É o mesmo que dizer, "se não vai me dar nada disso, não quero receber presente". Na verdade, os presentes não precisam ser utilitários. Presentes são surpresas, são afetos táteis, são pedaços do outro, o tempo que o outro desprendeu para você, a lembrança sua no elenco dos mais queridos que gerou um movimento do outro para sua direção. Do contrário, se poderia pedir com naturalidade uma obturação nova no dente ou um açucareiro para substituir o pote de vidro.

Se pudesse pedir algo aos meus amigos, sem que o constrangimento me tomasse a face, pediria que continuem me confiando seus filhos; que continuem me chamando para tomar cerveja e, se com eles não perdi a espontaneidade, é porque deles qualquer presente será válido. E, para quem está curioso, naquela ocasião, consegui convencer Antônia a “trocar”  a Barbie por dois brinquedinhos de R$ 5,99, cada.


Publicado na terça, 16, no Novo Jornal

Um comentário:

Anônimo disse...

"Presentes são surpresas, são afetos táteis..."
VOCÊ SEMPRE ME SURPREENDE, DAMA DE SHANGAI.