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quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Meses


Ainda é dezembro. Quando era março, as feridas começaram a dar sinais de trégua. Em abril, fecharam-se das margens para o centro, até virarem uma crosta dura e disforme. Arrancar a pele nada mais é do que um exercício de existência. Se há vida, há pele, logo, descamação. Em maio, era como se o acordo tácito entre a tristeza (dos outros) fosse se diluindo e dando lugar às pílulas (dos outros). A dor não precisa ser um caminho (constante), mas sempre será uma via de construção. Em junho, um homem diz que não é fácil jogar-se em fragmentos e que as possibilidades são mais reais quando se investe no fluxo contínuo, em algo que tenha sentido. Nunca havia tido tanta certeza de que a total falta de sentido era a coisa que mais fazia sentido no mundo. Em julho choveu. Em agosto, viagem. Em setembro, independência ou morte. Nesse período aprendeu a soltar pipas no céu e uma das garrafas que jogara há muitos anos ao mar, retornara, quase intacta, com o cordão de letras amarrando outros entendimentos sobre as coisas da vida, o amor, a solidão, o passado e o presente. Outubro, a vida segue. Novembro, o sol acorda mais cedo todos os dias. As noites ficaram mais claras, agitando a alma. Ainda é dezembro. Daqui a pouco tem janeiro e fevereiro.


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