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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Sobras do tempo (*)



Todos os dias em alguma hora, Fellini, meu gato mais velho, de oito anos, me chama para um tête-à-tête no tapete da cozinha. Eu chamo de "nosso momentinho". Mas, na verdade, é ele quem dá a deixa. Ele faz uma corridinha até o referido recinto, ciente de que o estou seguindo, depois se joga no tapete, aciona o "motor do amor", aquele que o povo ignorante associa com asma e não tem nada a ver, e se perde nos meus afagos. Primeiro, começo com a mão espalmada, depois faço umas coceirinhas sem unhas que é para exercitar o afeto na ponta dos dedos. Ele pira, se vira para lá e para cá, oferece o espinhaço, depois põe a barriga pra cima, ordenhando o nada, abandonado na satisfação de ser tocado. E eu, simplesmente, relaxo. Deixo o tempo para depois. Melhor, deixo o tempo viver sem as regras do ponteiro. Simplesmente me deixo estar ali, convicta e desatenta, com o que ainda está por vir no dia e nas horas com agendas marcadas em X.

Estou quase sempre assim: uns textos (pendentes) para escrever. À espera da ligação do meu chefe. Uns amigos para ligar. Uns projetos para pensar e me reinventar. Umas cervejas para tomar com meu amigo Mário. Preciso devolver aquele macacão emprestado. Meu livro de contos que não saiu ainda da primeira página. Imprimir uns pôsteres e mandar emoldurar para deixar a casa do "cueca" mais colorida. Retornar a ligação da minha amiga que mora em Brasília e chegou de férias. Marcar aquele almoço na casa da minha tia e, finalmente, conhecer o mais novo membro da família, uma mocinha que se chama Laura (Laurinha) e que já me arrebatou o coração só por fotos. Marcar a volta na consulta com a ginecologista. Usar o creme do rosto na hora certa. Acordar e tomar o remédio para o estômago antes de botar qualquer coisa na boca. O dia nem começa direito e já vamos contando o tempo e suas exigências e obrigações. Perdemos pouco tempo. Ou ao menos, nos é proibido pensar em desperdiçar o tempo.

Pois eu confesso: adoro "perder" aquele tempo com o Fellini no tapete da cozinha. Ele me conecta com a respiração (minha e dele); meu tato fica mais aguçado ao simples toque de seu pelo macio; não penso ou declamo, mas sinto uma poesia pousando no espaço entre o tempo e o resto do tempo. Gosto tanto dos espaços entre o que está sendo e o que ainda vai ser, quanto gosto dos silêncios. Preciso muito dessas coisas. Foi-se o tempo em que eu me jactava da pecha de "workaholic". Não, obrigada. O tempo não pára. Mas eu posso parar um pouco, pedir um intervalo. 

Gosto de pés-direito altos. Acho que é para poder olhar para cima mais demoradamente. Gosto também de entrar numa casa com grandes cômodos, porque me dá a sensação de que há mais espaço entre os objetos. Um intervalo físico entre uma coisa e outra, que é para dar tempo de respirar e de piscar os olhos entre o sofá e a estante; a mesa e as cadeiras; o jarro e o abajur. Tinha uma janela enorme na minha infância. Era alta para subir e, mesmo em pé, eu não alcançava o topo. Havia sobras entre eu e aquela janela. As sobras do tempo.


(*) Publicado hoje, com alterações, no Novo Jornal

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