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terça-feira, 17 de novembro de 2015

O sorriso morto de Deus

Photo by:Carmen Moreno Photography 

O mundo anda mesmo um lugar muito perigoso para se viver. Pensei nisso e pensei se não havia uma possibilidade de me mudar para bem longe, tipo Plutão. Mas aí lembrei que Plutão não é mais planeta. Quisera fosse melhor viver num mundo onde não é mais mundo ou nunca foi como esse mundo. Para, quem sabe, se ter a chance de começar tudo de novo após os sete dias da criação.

Quisera o mundo tivesse mais amor. Quisera o mundo tivesse amor nas ações. Mais amor nos gestos, menos amor no silêncio da solidão do quarto, quando sonhamos com um amor quase divino que nunca chega. Mais amor no trânsito, tanto quanto se tem amor nas felicitações de aniversário nas redes sociais; mais amor na Oropa, França e Bahia, aquele mesmo que dedicamos aos nossos jardins, ou ao menos o amor que minha vizinha, dona Elizabeth, dedica ao seu jardim e que me ocorre agora como um grande exemplo.

Aliás, amor de jardim poderia ser um tipo de amor diluído em todos os outros. É um dos mais sublimes que há. A gente planta, replanta, rega, carrega barro vermelho a umas três quadras da nossa casa, para depois misturar à terra tímida do quintal, compra húmus, conversa com elas, bota na sombra, descarta as visitas indesejadas (eu, confesso, que sinto dó de arrancar as ervas-daninhas e depois um certo prazer) e, ao simples sinal de uma cor mais reluzente de uma florzinha, bate aquela sensação de que valeu à pena. Mais amor com o mesmo gesto firme que empenhamos ao beber um copo de água para matar a sede. Amor como sinônimo de tolerância ao vizinho do andar de cima que trota ao invés de andar. Gente, eu não quero falar da obviedade que me motiva a falar sobre amor nesse texto de hoje. Já tem muita gente falando sobre os acontecimentos trágicos na França. Alguns até tiram proveito da situação para se promover. 

Somos um povo sem tradição de luto. Um povo que vive em festas de carnaval e de futebol. Um povo que se preocupa mais com a vida amorosa de Joelma que com centenas de pessoas que têm sua vida terminada, seja em Mariana, seja em Paris. Sem o luto, sem o respeito à morte trágica, nos perdemos em discussões estéreis. Morte é  morte. 

É tempo de dor e de reflexão. Eu penso que é urgente torcermos menos pelas conquistas individuais e vibrarmos mais pelas conquistas sociais e humanas. Não somos somente irmãos. Somos iguais. Somos um só. Parte de todos nós morre na lama; morre no sangue; parte morre nos linchamentos contra inocentes, nas balas contra policiais, em Cidade Nova e nas represálias contra os bandidos, em Felipe Camarão. Parte de nós se distancia de Deus, que nesse momento não consegue sorrir.

Publicado hoje no Novo Jornal


quarta-feira, 11 de novembro de 2015

no meu excesso de superficialidade, mergulho no profundo da Szymborska


Sob uma estrela pequenina

Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves.




Pod jedną gwiazdką

Przepraszam przypadek, że nazywam go koniecznością.
Przepraszam konieczność, jeśli jednak się mylę.
Niech się nie gniewa szczęście, że biorę je jak swoje.
Niech mi zapomną umarli, że ledwie tlą się w pamięci.
Przepraszam czas za mnogość przeoczonego świata na sekundę.
Przepraszam dawną miłość, że nową uważam za pierwszą.
Wybaczcie mi, daleki wojny, że noszę kwiaty do domu.
Wybaczcie, otwarte rany, że kłuję się w palec.
Przepraszam wołających z otchłani za płytę z menuetem.
Przepraszam ludzi na dworcach za sen o piątej rano.
Daruj, szczuta nadziejo, że śmieję się czasem.
Darujcie mi, pustynie, że z łyżką wody nie biegnę.
I ty, jastrzębiu, od lat ten sam, w tej samej klatce,
zapatrzony bez ruchu zawsze w ten sam punkt,
odpuść mi, nawet gdybyś był ptakiem wypchanym.
Przepraszam ścięte drzewo za cztery nogi stołowe.
Przepraszam wielkie pytania za małe odpowiedzi.
Prawdo, nie zwracaj na mnie zbyt bacznej uwagi.
Powago, okaż mi wspaniałomyślność.
Ścierp, tajemnico bytu, że nie mogę być wszędzie.
Przepraszam wszystkich, że nie mogę być każdym i każdą.
Wiem, że póki żyję, nic mnie nie usprawiedliwia,
ponieważ sama sobie stoję na przeszkodzie.
Nie miej mi za złe, mowo, że pożyczam patetycznych słów,
a potem trudu dokładam, żeby wydały się lekkie.

poema de Wisława Szymborska 

nem camões



aí a gente tem a casa desarrumada
tenta arrumar a casa com panos novos e brancos
panos velhos, encardidos, panos rotos
panos quentes
mas nada acontece
aí a gente percebe que a casa tem a cara que tinha de ter mesmo
limpa a poeira com muito cuidado, só mudando-a de um lugar para o outro
do status de poeira da estante para poeira das nuvens
você coloca cada infinito pelo de gato encontrado em tufos gigantes
com um carinho enorme dentro do cesto
você deixa os quadros ficarem de banda nas paredes
você arruma sua vida ao lado de outras pessoas
você descobre que não quer outra vida de volta.
você se desarruma para deixar o outro entrar



terça-feira, 27 de outubro de 2015

Bundas Friday



Uma coisa me intriga na vestimenta feminina nos últimos tempos. Aquilo que era obsessão masculina, a preferência nacional e por aí vai tem se transformado também, para as mulheres, numa ode à bunda. A quantidade de mulher arrochada que eu vejo por metro quadrado em Natal é assustadora. Se pudéssemos inverter em água as calças dois tamanhos menores que o manequim, leggings, e saias tipo dindin, acabaríamos com a seca do Nordeste e dispensaríamos a transposição do velho Chico. Toda vez que eu vejo uma mulher arrochada demais, com a bunda declaradamente exposta em curvaturas e fofuras eu penso: tá botando em promoção!

Eu acho que a gente tem direito de sensualizar, tem direito de decotar, tem direito de fazer o que quiser com o corpo. Mas precisa ser tão óbvio o tempo todo? Precisa realmente botar em promoção o tamanho da bunda? Precisa "oferecer" as curvas como se fossem um produto na vitrine? Eu acho bumbum de mulher uma das formas anatômicas mais perfeitas criadas pela natureza (a dos homens também). Mas, quando a gente vê um homem arrochado demais não é estranho? Por que nós mulheres nos expomos tanto? Por que as coisas não podem ficar um pouco mais misteriosas? Não vejo problema em insinuar, ao invés de escancarar.

Conheço uma senhora que ocupa um cargo de extrema responsabilidade; que deve ter inúmeras atribuições e problemas para solucionar no dia-a-dia e parabéns para ela, é bom ter mulheres no poder. Mas nunca a vi usando uma roupa que não pusesse no pódio das atenções a sua bunda. Nunca a vi livre, solta, dando uma banana para esse provincianismo natalense de que as mulheres têm de se vestir igual e de preferência botando a bunda em promoção num gesto ao mesmo tempo libidinoso e limitador: "vê, mas não leva"! E, ei, eu tenho bunda, mas não acho que ela deva ser o foco das atenções acima do que penso e faço. É uma coisa meio "complexo Kim Kardashian". Não basta ter bunda, é preciso que todos saibam que você tem uma, e que ela é grande, pomposa, e tem muita relevância para a paz mundial.

A obsessão também vale para saltos altos. E eu me pergunto, como é que essas mulheres aguentam esse salto que mais parece um tamborete? Parece que elas estão equilibradas em pernas de pau, usando essa indumentária para trabalhar. Se estivessem numa festa, numa boate, realizando algum tipo de fantasia sexual, vá lá, Mas não sendo isso para quê tamanho complexo de inferioridade? Por que temos de nos equilibrar em saltos horrendos, acabar com os pés, comprometer a coluna? Parecer maior não é o mesmo que ser uma pessoa grande. Se bem que, se não crescemos no amadurecimento emocional e intelectual, se ainda nos sentimos muito perdidas nesse lugar que o feminino ocupa na sociedade, então turbinamos e evidenciamos a região glútea




quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Duas Doses



É cada vez mais difícil encontrar alguém disposto a ouvir. Escutar é uma entrega. É abrir mão dos próprios ruídos para dar trela ao que vem de fora. Tereza, uma colega de trabalho, me deu uma carona dia desses. Ela é muito simpática, dessas pessoas que têm brilho no olho emoldurado por umas lindas pestanas. Foi quando começou uma sucessão de interrupções de minha parte toda vez que ela começava a falar algo comigo. Eu simplesmente não conseguia me controlar. Toda vez que ela introduzia um assunto, lá estava eu para interromper-lhe no meio, fazendo alguma pergunta qualquer. Ela parava o que estava falando, me respondia atentamente, sem demonstrar impaciência.
Acho que estamos falando demais. E temos dado poucos ouvidos para o que dizemos. Se prestássemos mais atenção, pensaríamos duas vezes antes de colocar tantas gorduras nessa sopa feita de palavras e conversas. Tem tanta coisa sem nutrição e engordativa, como fofocas, por exemplo.
Ao contrário do que se imagina, quando se decide ouvir, você não se perde de si mesmo. Pelo contrário, estabelecendo uma conexão de respeito e escuta com o outro, é possível perceber o ar entrando pelo nariz e se decantando nos pulmões para imediatamente voltar pelo nariz novamente. E é assim, sentindo o ar entrando e saindo que percebemos que estamos vivos, o sangue pulsando não só no coração, mas também através dos ouvidos. É a escuta que nos conecta com o mundo, é a escuta que nos guia pelos caminhos internos.
Perceberam que o “surdo” tem sempre muito a dizer? Só que infelizmente é sempre sobre si mesmo; quando dá uma trégua para lhe ouvir é para dizer que já sabia ou já viveu aquilo melhor que você; que já tinha ouvido falar; que a mãe já sabia; que a vizinha já conhecia; que o filho faz melhor. Seu discurso esbarra num paredão de egocentrismo e ignorância. Tem também aquele tipo de que além de nunca ter tempo para lhe ouvir, só sabe falar de problemas. O mundo é ruim para os outros, mas para essa pessoa tudo é sempre pior, péssimo, tenebroso. A fala muitas vezes é um escudo. Falando muito, temos a ilusão de que nos protegemos da fala e dos pensamentos dos outros. Ficar quieto e calado é sinal de fraqueza ou isolamento.
Conheço um monte de gente que é calada e também por isso são preciosidades. Sempre têm algo muito bom a dizer e, sobretudo, observam também com os ouvidos. Desculpe Tereza! Na próxima, vou pedir ao bom senso duas doses de escuta.

Publicado originalmente ontem no Novo Jornal

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Por trás do rosa, a cor mais dura


Não tenho  nada contra o movimento mundial Outubro Rosa. Chamar a atenção sobre uma causa tão séria e que ainda mata tanto as mulheres é mais que nobre. Mas confesso que acho se não de mau gosto, de uma tremenda hipocrisia, alguns órgãos "aderirem" à onda rosa somente em faixinhas e ícones na internet enquanto o que é primordial: o acesso democrático e igualitário ao exame não existe. Portanto, parte principal da campanha - que é chegar ao diagnóstico precoce, que por sua vez só se consegue com exames complexos - não passa de uma falácia. Essa dificuldade ao acesso acaba gerando ansiedade e frustração nas mulheres em idade de fazer o exame porque, simplesmente, não conseguem fazê-lo. De maneira que, eu espero mesmo (não encontrei dados que dessem suporte ao contrário nos sítios oficiais) que o mês ajude  no aumento de exames e na identificação de casos precoces de câncer de mama. Mas eu esperaria mais eficácia no aporte de recursos para a detecção do câncer, com equipamentos etc, do que cores vibrantes de um rosa que escomoteia a realidade dura das mulheres pobres do país.

da série não tá fácil não


Não é exatamente assim como quando estamos aguardando a chegada de uma tempestade. O tempo fica parado, as folhas não se movem, o silêncio prenuncia a catástrofe. Tampouco é a mesma sensação de destroço depois da tempestade. Os pedaços do mundo desconectados do corpo do mundo; as águas que antes lavaram, enlameando o horizonte. O cheiro insosso da morte tomando conta das narinas.

A sensação primária é a de que estou dentro da tempestade. Ainda sem tempo para vislumbrar se serei carregada pela enxurrada, se haverá um tronco para me agarrar lá adiante ou se pegarei um resfriado. Quando a gente está na tempestade a gente não pensa em mais nada a não ser no sentimento de que estamos ali, a água encharcando até por dentro da pele, as gotas de chuva tornando as coisas turvas, o rio abrindo suas pernas e braços na terra.

Eu ainda não sei quando conseguirei um bote. Mas sei que preciso respirar o quanto antes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A coisa certa



Todos os dias, quando me aproximo do estacionamento do trabalho, tenho a sensação de que vou me deparar com ela, faminta, assustada, cansada e mesmo assim cheia de dengos. Mas, há uma semana essa é uma falsa sensação porque ela não está mais lá. A gatinha de aproximadamente sete meses, ou seja, uma adolescente, que estava prenhe, sempre pedindo algo para comer, que quase não bebia água, agora se hospeda no meu banheiro com seus quatro filhotes nascidos no dia 5 de outubro debaixo das escadas de granito da repartição pública, onde ofereço meus préstimos como jornalista. Fiz a coisa certa em ter oferecido um lar temporário para ela e seus filhotes.

 só bucho... comendo no estacionamento do trabalho. 

botava ela para comer debaixo das minhas pernas para não chamar a atenção dos proibidores


Na visão de boa parte dos que fazem a repartição, fiz a coisa certa porque, indiretamente, livrei todos de um "problema"; porque tirei de suas vistas mais um dos inúmeros animais abandonados nas ruas que, ou são invisíveis ou são tidos como estorvos, incômodos e que ninguém tem nada a ver com isso. Durante a prenhez da gatinha chegou a ser proibido alimentá-la. Fiquei tão surpresa com a crueldade da determinação que chorei. Mas, ao mesmo tempo, acionei internamente meu "danem-se" de verde a amarelo e passei a lhe dar de segunda a sexta um pouco de ração, no estacionamento bem longe dos domínios da proibição. Tem gente que insiste na ilusão de que os cães e gatos abandonados nas ruas podem "se virar". E quando eu ouço alguém dizer uma sandice dessas, logo penso num gato rajado, com um pedaço de orelha arrancado, entrando num restaurante, sentando numa mesa e dizendo: "garçom, me traz um bife com fritas, faz favor!". Ou um cachorro sarnento olhar para o dono da galeteria e ordenar: "embrulha dois frangos para viagem".

aqui, ela já está bem relaxada, no banheiro da minha casa

aqui, foi onde ela teve seus filhotes


ela é boa mãe não reclama de nada e não pára de amamentar

Há quem pense que os protetores de animais deveriam "adotar uma criança" ou procurar "uma lavagem de roupa". A esses "pensadores" eu digo que adoraria adotar uma criança, que acho o ato realmente digno de admiração. Mas nunca me foi um apelo forte a ponto de dar o próximo passo. E essa impossibilidade não me impede de ser solidária ou de ter responsabilidade com os outros seres que habitam esse planeta.
são três fêmeas e um macho, não posso ficar com eles já tenho muitos bichanos adultos nos outros cômodos da casa


Fiz a coisa certa porque não tem preço ver a gatinha e seus filhotes em segurança. Embora eu não possa ficar com os cinco porque já tirei das ruas uma outra grande leva de animais que já moram comigo nos outros cômodos da casa. Porque ela, como mãe tem um senso de proteção admirável com seus filhos e, em momento algum, embora esteja confinada num pequeno ambiente, faz qualquer menção de fugir ou de sair de perto dos seus rebentos que embora muito pequenos ela quase não consegue amamentar todos de uma vez porque é muito miúda. Não tenho cinco problemas em casa. Tenho cinco possibilidades de encontrar outras pessoas solidárias que os adotarão; que vão querer experimentar o sabor de ter um amor verdadeiro, uma companhia inteira e uma convivência que só nos faz crescer, como seres-humanos que somos. Pessoas capazes de se colocar no lugar do outro e de querer uma paz e uma tranquilidade que só o amor e a solidariedade são capazes de dar.





 me ajude a dar uma história cada vez mais feliz para a mãe e sua ninhada


interessados em adoção responsável (satisfação garantida) me contatar pelo email; azevedo.sheyla@gmail.com


terça-feira, 6 de outubro de 2015

O jardineiro feliz



Desconheço um jardineiro que não seja gente fina. Eu acho que o silêncio das plantas, o colorido das flores e o contato com a terra fazem dessas pessoas mensageiros da paz e tranquilidade. Afinal, lidar com seres que simplesmente fincados à terra são capazes de nascer, crescer, se reproduzir e ainda assim não fazer mal a ninguém, só pode ser um grande ensinamento de vida. Tem horas que eu penso que a vida vegetal é bem mais sábia que qualquer outro tipo de vida nesse planeta.

Conheci há muitos anos um jardineiro que visitou o Diário de Natal - onde eu trabalhei por dez anos - para falar de alguma coisa que ele iria fazer, ou se não me falha a memória, para registrar as coisas que havia feito ao longo de seus mais de 30 anos de jardinagem: os cantos que ele havia criado e cuidado ao longo da vida nas casas de pessoas com grana, mas falta de tempo para cuidar do próprio jardim. Apesar da falta de instrução formal, seu José (vamos chamá-lo assim, porque os Josés tendem a ser pessoas de florir nossas vidas) era um homem sábio, de pele escura e curtida do sol, mãos rijas, fala mansa. Lá pelas tantas, após ver os álbuns de fotografias que ele trouxera para me mostrar os jardins cuidadosamente desenhados por suas mãos, e de entender que ele estava ali na redação para que ficasse registrado seu trabalho, já que ele estava com planos de se despedir da prosa diária com areias, mangueiras e borboletas, e partir para uma merecida aposentadoria, resolvi lhe fazer uma pergunta, daquelas que de tão simples e diretas, tornam-se absolutamente difíceis de responder: “O senhor é feliz?”. E ele me disse uma das orações mais marcantes de minha trajetória como repórter: "Minha filha, nós só palmeia a ‘pranta’ que Deus quer". Desse jeito. E ficou me olhando para ter certeza de que eu iria pensar sobre a resposta.

E eu, em meio às minhas pró-prias crenças e descrenças, dentro do meu universo particular, penso sempre nessa frase como uma espécie de sentença da vida despida de fórmulas prontas, indiferente aos desejos inatingíveis de felicidade que nutrimos; vida inexoravelmente exposta às rosas, mas também aos espinhos e ervas-daninhas que surgem no caminho. Não temos escapatória. E, às vezes, o desejo de poder escolher fica preso às grades do acaso. É viver ou viver. Dar ração às dúvidas, se permitir ao erro, ao grito e ao choro, deixar os cabelos despenteados; em alguns momentos jogar o olhar aos céus e morrer de inveja do caminho migratório dos pássaros; abraçar os raros amigos como se fossem árvores, uma craibeira de cem anos, ouvinte e parceira de nossas confidências. Felicidade é como chuva, caro leitor, só é boa enquanto conseguimos suportá-la sem que sintamos frio ou saudades do sol.

Publicado hoje no Novo Jornal

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Sobre cartas



Um amigo precioso me disse pelo whatsapp que vai me mandar pelos Correios umas coisas para mim. De pronto foi um choque porque afinal de contas nos falamos quase todos os dias por algum desses mecanismos modernos de comunicação, ele trabalha a poucos minutos do meu trabalho o que, em princípio, facilitaria uma aproximação real e até mesmo a entrega dos mimos pessoalmente. 

Olhando mais atentamente para meu espanto, foi um choque porque tenho reparado que as pessoas de um modo geral raramente têm recebido correspondências pessoais atualmente. O que chega - muitas vezes com atraso - são contas a pagar. Então eu fiquei a divagar sobre o tempo que ele desprendeu para fazer a correspondência e, tomara, que dentro do pacote venha ao menos um bilhete escrito a próprio punho. 

Como sou vintage, vivi um tempo e que escrevíamos e enviávamos cartas. Para quem tem menos de 25 anos isso parece uma coisa muito antiga, mas não é. E, embora não seja adepta ao saudosismo vazio dos que resistem ao mundo tecnológico que, convenhamos, facilitou muito a nossa vida em termos de agilidade e tempo, a internet nos aprisiona num mundo de urgências, de res-postas rápidas e curtas, da falta da caligrafia, da ausência da tinta e dos borrões ocasionados por eventuais erros ortográficos que cometíamos na intimidade da caneta e do papel.

Quem escreve uma carta não envia somente uma mensagem, oferece um rastro de consideração a quem recebe. É um tempo de dedicação, do desenho da letra ao empenho do recado. Hoje em dia, parar para escrever uma carta para alguém, como tantas outras atividades fadadas à extinção, é sem dúvida um ato de amor.

Quando eu era adolescente e já estudava aqui em Natal, nas férias ia para casa no interior. Numa dessas, um amigo me manda um pacote: era o livro emprestado "Retrato do Artista Quando Jovem", de James Joyce. Na cartinha emoldura-da por alguns desenhos psicodélicos (desenhar em cartas é amor redobrado) uma frase se destacava: "Cara amiga, entre galinhas patos e porcos aí no seu interior, leia e cresça!". Foi outro choque: “Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja; e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza”. (Trecho do livro). Cartas, livros, amigos. Não fossem eles, como se daria nosso crescimento?

Publicado originalmente no Novo Jornal

terça-feira, 8 de setembro de 2015

mais mar

arte de Khaled Yeslam



- menina, sai dessa água. você vai desmanchar de tanto banho. os dedos já estão engelhados.

minha mãe falava isso todas as vezes que eu ía para o mar. eu queria mais mar. eu queria que as ondas me embalassem até eu fazer xixi de tanta emoção. eu queria beber um pouco daquela água salgadíssima. queria ficar com os cabelos duros de sal. queria que o vento e o sol me secassem para eu mergulhar de novo.

quando eu vi a imagem do pequeno sírio, Aylan Kurdi, na praia de Bodrum, na Turquia, a primeira sensação que tive foi a mesma que sentia na infância. lembrei das recomendações de mamãe e pensei que o menino só queria mais mar. talvez mecanismos de fuga para não encarar logo de cara tamanha violência de uma imagem de ver uma pequena criança com a cara enfiada na areia, mortinho, durinho, estendido no chão. quem é que está preparado para ver uma coisa dessas?

estamos mais preparados para ver as guerras afogadas no petróleo da síria, afeganistão, líbano. estamos acostumados a ver cidades inteiras em escombros; refugiados em horda pela Europa, pedindo arrego. e eu penso: se ainda temos capacidade para nos chocar com essa violência do pequeno Aylan, por que não nos inquietamos com a causa dessa morte? que se anunciou bem antes do afogamento no pequeno bote. essa merda de guerra. essa vontade grande de pequenos homens de dominar o mundo? 

eu quero mais mar. eu quero engelhar meus dedos na paz. eu quero que meus olhos fiquem salgados, não de lágrimas. e você? o que quer?

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sobre espaço, poeira e mudan



(imagem ilustrativa tirada da internet)


Todo mundo que já viveu uma mudança sabe que é uma experiência memorável. É preciso descartar coisas, de velhos papéis a mesinhas com cupim; desapegar-se a cantos de parede, tampos de mesa que se quebram, panos de prato do enxoval de mil nove-centos e vots da sua avó que já não cumprem sua função a não ser a de espanar as memórias. A morte de um espaço que antes ocupava a vida de uma ou mais pessoas. Uma casa nua é um espaço de ecos. Incrível como os móveis abafam a solidão das paredes.

Estou em processo de mudança. Com uma obra no meio para ficar ainda mais emocionante esse novo ciclo que se anuncia. Semana passada um cano quebrou. Dei uma pausa de cinco segundos até continuar o texto, só de pensar na tensão que senti quando vi que duas cerâmicas da parede do banheiro teriam de ser quebradas para ser feito o conserto, por conta de um furo desatento. Isso é só para você, leitor, ter uma ideia dos imprevistos cabíveis dentro de uma obra. Se é que já não passou por coisa pior. 

Tem horas que me perco em tantas caixas. E, nem todas as caixas do mundo seriam capazes de armazenar a quantidade de emoções que eu guardo pela aquisição do primeiro imóvel há sete anos. Agora, um novo ciclo, um outro lugar, com novas configurações que vêm junto com um companheiro, nossos quatro gatos e a minha mãe. Sem contar com a indispensável generosidade das minhas tias, que me ajudam a sonhar e realizar. É um recomeço que inclui livros que não são meus, tamanhos diferentes de janelas que, por sua vez, exigem outros tipos de cortinas e a matemática sobre onde vão caber objetos de duas casas numa só e nem tão grande assim.

Meu sonho ainda é morar num lugar que tenha mais espaços que móveis. Tremo de medo de cubículos inventados pelos arquitetos de construtoras que diminuem escalas propositalmente para dar "funcionalidade" aos ambientes. Experimente deitar numa cama dos estandes decorados de venda desses novos condomínios. Terá a infeliz surpresa de que as escalas estão adulteradas, para dar a ideia de que o seu guarda-roupa de seis por-tas vai caber no quarto.

Uma casa é o espaço que divide o sujeito que mora e o sujeito que vive nas ruas, no trabalho, com os amigos. São duas pessoas numa só, com necessidades diferentes. Em casa só entra a poeira dos sapatos de quem a gente quer. Em casa somos reis. Livres. Em casa o rei pode ficar nu, comer farofa de ovo, despir-se da pose e dos saltos altos, sentir cheiro de chulé no fim do dia. Em casa, os sofás, as poltronas, as camas, os travesseiros nos abraçam, mesmo que esteja tudo empoeirado.

Publicado hoje no Novo Jornal

terça-feira, 25 de agosto de 2015

* Sobre tempo e delicadeza



Parece desculpa esfarrapada dizer que não se tem tempo. Mas é verdade, vivemos sem tempo. Até quem não tem nada para fazer, acaba ficando sem tempo, porque deixou o tempo passar aboletado no sofá assistindo a sessão da tarde. O tempo sempre foi matéria filosófica e poética. O tempo é um velho senhor jovem menino ainda nem nascido que nos acorrenta e nos leva para todos os lugares que nos habitam, antes mesmo de o sabermos. Mas, enfim, minha cota poética se encerra por aqui porque, de fato, quero mesmo é falar sobre como administramos o tempo. E, de como às vezes, nos esquecemos de pequenos gestos de delicadeza nesse tempo que nos resta e não sabemos até quando.

O tempo é mais didático nas tempestades da vida. Em momentos ruins reaprendemos a rezar. O fim do tempo de alguém é o nascimento de reflexões e até mesmo de arrependimentos de terceiros. Vivemos tempos violentos. Hoje em dia, o momento de espera para abrir o semáforo se transforma num estampido de bala que rasga e fere mortalmente o tempo de alguém. As mulheres ainda vivem num tempo em que homens usam a força e a brutalidade para executar um gozo insano, egoísta e aterrador de oito segundos. E eu penso: qual o preço que se paga por tanta violência, crueldade e ódio? Em pleno século XXI arrastamos tanto tempo nas costas e ainda não somos capazes de evitar os estilhaços de uma discussão nas redes sociais, de nos impedir um desentendimento durante o café da manhã, uma briga de socos na rua, de um ato de corrupção, de um crime brutal contra a vida. Nos desperdiçamos e não nos saramos enquanto o tempo esse menino recém-nascido velho ancião se ri de nós.

Pode parecer tolice o que vou dizer agora. Mas, se alguém me perguntasse quanto tempo mais eu desejaria para viver, ficaria num estado parecido com aquele em que ouvimos uma boa música e tão absortos não conseguimos dizer o que sentimos. Mas sei que gostaria de fazer mais do meu tempo momentos de delicadeza, de perdão, de autoconhecimento, de tolerância com o que não é espelho. Momentos de com-preensão, não de discórdia. Não para ser boazinha ou qualquer coisa que o valha. Sim para ser uma pessoa consciente de que o tempo é indiferente a mim, no entanto, eu não posso dizer o mesmo dele.

Essa semana foi especialmente didática para mim. O tempo passou dentro de fragmentos que couberam exatamente e somente no presente. Tive tempo. Ganhei tempo. Refiz o tempo. Esqueci do futuro, esse ente dono de tudo, onde tudo cabe, mas que, de fato, não passa de um sonho ou de uma promessa.

Publicado hoje no Novo Jornal

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Medo de assombração





Dia desses inventei de ver um trailler de um filme de horror que será lançado em breve. Enquanto escrevo, me esforço para lembrar do nome do filme (Goodnight Mommy, eu acho), é alemão, mas a tradução estava em inglês. Mas, o padrão da música e as imagens, no mínimo estranhas, não me saem da cabeça. É dia, eu penso. Daqui a pouco me distraio e esqueço dessas bostas de imagens. Problema, eu sei, é que mais tarde, quando a noite chegar, quando eu estiver lendo meu livro (o da vez é "Os verbos auxiliares do coração", de Péter Esterházy) na minha cama, só sob a luz da luminária amarela, que deixa o quarto num silêncio abafado de sombras, eu vou me lembrar com riqueza de detalhes das imagens e, sobretudo, das sensações que aquela música me causaram e aqueles meninos gêmeos e aquela mulher com a cara toda enfaixada e vou sentir medo. E vou entrelaçar com medos da infância. E vou me lembrar de um defunto qualquer que eu vi ainda menina dentro do caixão e suas meias brancas e o pé frio, porque na minha infância a gente pegava no pé frio do defunto para ele não vir assombrar a gente. E me lembrarei também da música que me aterrorizava "A velha debaixo da cama, a velha criava um cachorro" e de pequenos flashs de filmes de terror tipo O Exorcista ou A Hora do Pesadelo e a cara perebenta do Freddy Krueger ou do boneco Chucky e vou sentir medo. (Sou vintage nas referências dos filmes de terror porque só os assisti há mais de 30 anos).

O medo de assombração é como chuva fina que vai tomando corpo e, quando menos se imagina, vira uma enxurrada. Primeiro uma sensação estranha de não estar só. Depois, de que algo abafa os pensamentos bonitinhos de borboletas voando no meio do jardim, e aí pode partir para uma respiração entrecortada ou até mesmo uma taquicardia e um sobressalto que arrepia o corpo por dentro. Medo é uma sensação incrivelmente interligada com nosso estado de espírito. Sentimos medo quando não temos controle sobre o que se apresenta à nossa frente, nem que isso seja meramente fruto de nossa imaginação. E, geralmente é. Com exceção de quando você fica diante de um sugeito que põe uma arma na sua cabeça e te pede a porcaria do celular. Dá que um medo que gela, paralisa, ficamos obedientes feito pôneis adestrados.

Há quem tenha medo de aglomerações de pessoas, de amar, de viver, de avião. Eu já tive um tiquinho de muitos medos. Tenho mais medo agora de fenômenos digamos mais concretos como a fome, a seca, a ignorância vigente, o jornalismo, a Justiça, as passagens de ônibus, não ter dinheiro para pagar as contas do mês.


Quem quiser ver o trailler de Goodnight Mommy AQUI

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Orgulho & preconceito



Morro de vergonha de fumar. Também sinto um orgulho danado da minha "coragem" de fazer algo que as pessoas torcem tanto - literalmente - o nariz. Fumar tornou-se uma prática extremamente criticável pelos outros. Você pode ser super bem sucedido; pode resgatar bichinhos na rua, pode ler muito além da média nacional; financiar projetos filantrópicos que cuidam de crianças com câncer (mesmo que ninguém saiba, porque você faz isso e não quer que os outros saibam); pode cultivar begônias no jardim; ler para cegos no Instituto dos Cegos; pode até ser um forte candidato a substituto de Madre Tereza de Calcutá mas, se você fumar é uma pessoa execrável. Fumar é mais grave do que não acreditar em Deus, em alguns casos. E, só lembrando, não tenho nada contra em quem acredita ou quem não acredita em Deus. 

Geralmente, o cigarro me acompanha nos momentos difíceis. Pode parecer algo egoísta, mas não há melhor companhia para me encarar nos momentos de ansiedade e de aflição. Fumar deixa mal cheiro, é verdade. Mas, esse lance de dizer que a gente vai morrer porque fuma, infelizmente, só funciona quando a gente vai realmente morrer porque fuma. Antes, nêgo véio, não adianta de nada dizer. Só dá uma raiva e uma certa solidão de ser apontado pelo erro de fumar por alguém que não fuma mas está encoberto por uma fumaça de arrogância em não perceber  os próprios defeitos. E, logo, por ter defeitos (nossa, quem não?) não deveria apontar com tanta rapidez o defeito dos outros né?

Conheço gente que odeia cigarro, mas não abre mão de pelos menos dois porres por final de semana. E está longe de se admitir uma pessoal socialmente dependente do álcool para se divertir, mas está lá, metendo o dedo na ferida dos pulmões dos fumantes. Conheço gente que não fuma mas come feito um esmeril da França, sem nenhum critério do que está botando para dentro do estômago e das carótidas. Conheço gente que se acha melhor que gente que fuma mas peida dentro do elevador, faz chapinha no cabelo. E muito pior, trai, desvia dinheiro público, etc. 

De maneira que, na boa, antes de apontar o dedinho para nossos medos ou coragens, vamos dar uma olhadinha em volta de si mesmo né? Se não encontrar qualquer resquício de fogo ou fumaça de defeito, pode tentar apagar o meu cigarro.

Aparências - Coca-Cola (Legendado)

terça-feira, 28 de julho de 2015

A importância dos galos



Cinco mulheres foram assassinadas em Itajá semana passada. Dias antes, 146 galos usados em rinhas foram apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal e abatidos pelo Ibama. Qual a relação entre uma coisa e outra? A importância que foi dada aos dois fatos. Vi e li mais destaque e polêmica jornalística sobre o abate dos galos do que pela morte das mulheres entre 17 e 37 anos, chacinadas em um bordel na pequena cidade do interior. Ok, os galos mereciam uma quarentena, antes do abate? E as mulheres? O que elas mereciam? Assisti a um papangu desses que apresentam programas policiais sensacionalistas na TV local noticiando a chacina, meio constrangido em defendê-las porque, afinal de contas, elas eram putas!

Muitas vezes, o machismo é sutil e escorre pela língua das próprias mulheres quando dizem que preferem trabalhar com homens, porque as mulheres são “astuciosas e complicadas”; quando seus maridos dão em cima de suas amigas e a culpa é sempre delas, porque as mulheres são “inimigas e concorrentes” umas das outras. Quando mulheres ainda se submetem a práticas nada católicas de dividirem seus lençóis com chefes em busca de “recompensas” e aprovação masculina.

Noutras vezes, o machismo vem direto como uma bala na cabeça. Executa o direito de existir. Executa o direito de dar por dinheiro abertamente, sem subterfúgios ou hipocrisias e isso não ter que causar constrangimentos aos apresentadores de televisão. Nem abalar as queridas donas de casa que não conseguem alcançar que o massacre às mulheres está mais próximo do que possam medir, envoltas numa fumaça espessa de rivalidade. Mulheres donas de casa também são assassinadas pelos seus maridos porque eles não queriam se separar ou porque eles não aceitavam que elas refizessem suas vidas após o fim do casamento.

De uma maneira ou de outra, se compactuarmos com esse machismo obstinado, seremos todas “Genis” em algum momento de nossas vidas. E o que mais me dói não é a pedra que vem do outro lado do muro. O que me entorta é ver que ainda não conseguimos perceber o quão precisamos nos abraçar e nos acolher umas às outras.

Porque, no fundo no fundo, somos todas muito parecidas. Rachadas ao meio, temos uma ruptura na superfície que nos permite levar o mundo para dentro e botar filhos no mundo. E se não quisermos botar filhos no mundo, que sejamos respeitadas por essa escolha. E se não quisermos aprender a cozinhar, que ninguém nos enxergue como incompletas. Porque somos mulheres, filhas, irmãs, amigas, todas, sem distinção, ainda muito vítimas. E menos importantes que os galos.

Publicado dia desses no Novo Jornal

terça-feira, 14 de julho de 2015

Aguardando as borboletas




Nos conhecemos na área comum do lugar onde moramos. Ela é pequenina, de gestos delicados, preserva um olhar atento e um pouco triste e nenhum resquício de luta corporal contra o tempo que lhe cai sobre os ombros, como um rio que inevitavelmente sabe o caminho do mar. Sempre que conversamos, por mais que seja furtivamente, ela me prova que doçura não é para qualquer um. É preciso nascer sob a égide da substância, da resignação e da humildade. Em tempos de tanta virulência, pessoas querendo ter razão e, em nome dessa razão, passando por cima dos outros, ela deixa na gente um pedaço de qualquer coisa que lembra esperança na humanidade.

Dona Dinha construiu ao longo da vida uma constelação de pessoas: primeiro seu José, depois sua filha Kátia e seu "bebê" Rogério que, aos 20 anos teve que ser alçado rapidamente aos céus, após um trágico acidente de carro. Dona Dinha tem um apelido dentro do diminutivo de seu nome. Mas não há nada de diminuitivo nela, que abraça a vida com força, carinho e respeito, até mesmo pelas coisas ruins. Porque, cá para nós, ninguém lida muito bem com a morte de uma estrela. 

Dona Dinha perdeu um filho. Dona Dinha não esquece disso, mesmo já tendo se passado mais de 20 anos. Quando toca nesse assunto é como se ela ficasse mais miúda e pendurada na borda do mundo, indefesa e correndo perigo de cair no abismo das coisas incompreensíveis desta terra como, por exemplo, uma mãe e um pai perderem um filho.

Mas muito rápido, ela volta ao equilíbrio, finca-se de pé e resoluta porque não esquece dos que estão vivos e que a vida guarda suas perfeições principalmente nos que se foram. Quem permanece precisa ser cuidado, consertado e amado ainda mais. Não esquece da casa que tem de ar-rumar, da alquimia da cozinha, do amor que transborda pelo marido que ela chama de "meu José" e a filha e as netas. Dona Dinha diz que quando é inevitável lembrar da dor prefere sofrer em silêncio. Fica assim quietinha, põe a mão direita amparando o coração e reza, reza, reza até cochilar. E quando diz isso, a gente quase pode tocar na mansidão que se instala nos seus olhos. Dona Dinha vai voltar para sua terra. Lá no Acre. Por isso, eu acho que esse texto é um “até logo” para ela. Porque dela nunca vou querer me despedir por definitivo.

Estávamos em mais um dos nossos encontros casuais em nossa morada quando, através dela me veio uma das forças mais eficazes para os tempos difíceis que estou passando. Ela me disse: "tenha paciência minha filha, o seu jardim já é florido, agora você precisa esperar só um pouquinho que logo chegam as borboletas". E ela não sabia que, ali, naquele momento, eu estava diante de uma delas.

Texto publicado hoje no Novo Jornal

terça-feira, 7 de julho de 2015

Formou



Ele preserva o mesmo olhar de quando nos vimos pela primeira vez. Meses antes, ele brincava com a minha tia, sua colega de trabalho, que um dia ía entrar para a família. Ela acreditou mais que ele. Certa vez, ela me disse que tinha um colega que gostava de gatos como eu. E que ele era o homem da minha vida. Torci o nariz porque, embora gostar de gatos (e outros bichos) seja um bom requisito, nunca acreditei em encontro às escuras, nem em encaixes perfeitos, nem em amores arranjados. Nem nem.

Agora, tenho a chance de acordar todos os dias com aquele olhar. Ele tem um olho faminto, menino, destino. Tem vezes que é tão intenso que preciso desviar para não me perder. Eu passarinho, ele catavento. Eu folha em branco, ele filosofia. Eu durmo em silêncio, ele faz sinfonia. E a gente ri porque fala dormindo. A gente chora também quando alguma coisa não dá certo. E ele corta as lágrimas com os longos cílios que tem e me dá uma vontade enorme de nunca mais soltá-lo no abraço quente que a gente se dá. Mas, tem sempre aquele olhar menino que me chama e eu tenho de olhar.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Jardim sem flores






O café é bom e o preço honesto, o dono, um gringo que não sei exatamente de onde veio é uma simpatia, o menino que atende na banca também. Sempre passo lá nas quintas-feiras. Compro umas revistas, folheio outras, peço um café. Ontem não teria sido diferente não fosse uma cena que tem se tornado cada vez mais corriqueira nessas terras debaixo do sol: a exibição histérica dos pseudo-playboys. Eram uns seis sentados na mesa ao lado. Mulher, sexo e carro os temas da conversa. Mulher como objeto e sempre chamada de "doidinha"; sexo como uma prática de afirmação psicológica compensadora do tamanho inversamente proporcional do... cérebro; e carro como representação de status. "Rapaz, eu ía comprando aquele carro. Mas aí comprei esse por R$ 200 mil e foi muito melhor". Dava para ouvir o blábláblá exibicionista porque eles não conversavam, gritavam. Era como se o mundo todo fosse obrigado a ouvir aquele solilóquio coletivo, porque todos falavam ao mesmo tempo e pareciam não ouvir nem se interessar, de fato, pelo que os outros tinham a dizer. Até aí, a gente abstrai, canta pra subir. A leitura do meu livro era tão interessante que em dado momento a gritaria vazia tinha o mesmo impacto da buzina dos carros.

Então, de repente, dou um salto no banquinho desdentado com um barulho ensurdecedor que me parecia um tiro, ao ponto de acelerar meu coração e eu imaginar que havia sido ferida gravemente senão no coração ao menos nos tímpanos. Mas era um rojão desses que enchem o saco nesse período de São João, que um deles soltou de propósito bem atrás de mim, no pequeno jardim sem flores do canteiro. Os seis riram da minha cara de assustada por cerca de um minuto. Riram até se cansar. Riram porque não têm mais nada a oferecer ao mundo senão o riso néscio da falta de significado para a vida lotada de temas como mulher, carro e sexo.

E eu, mordi com força a fruta madura que descansa por entre meus dentes e "vociferei", em tom baixo, quase labial, olhando para cada um deles: "imbecis". Exageros a parte, olhando bem para aqueles bombadinhos, certamente, poderia ter idade para ser mãe de um deles. E aí, pensei na mãe deles. No pai deles. Nos avós. No trilho de educação familiar porque passam esses sujeitos que se acreditam donos do mundo, donos da rua, dos carros, das mulheres e do dinheiro; donos dos professores que tentam ensinar alguma coisa para eles; donos das empregadas domésticas assediadas; donos dos abortos feitos em clínicas chiques; donos do cartão de crédito da mamãe; donos dos latifúndios herdados das capitanias hereditárias; donos dos bancos dos canteiros centrais de uma banca de jornal; donos de jardins sem flores, descuidados e abarrotados de ervas-aninhas.


Texto publicado hoje, 16, no Novo Jornal


domingo, 14 de junho de 2015

Primeiro amor





Ela me chega agitando as mãos animada a dizer que “amanhã é feriado, êbaaa”. E eu penso por dois segundos e continuo sem entender tanta animação. E ela diz, “é primeiro de maio!”. Mas, não é. É primeiro de junho e o feriado só será dali a três dias. As informações do cotidiano têm de ser ditas umas dez vezes seguidas, sem exageros. Mesmo assim, ainda corre-se o risco de não ser bem compreendido. É como se houvesse sempre uma cortina de voal entre o que ela vê e ouve; basta um segundo para o que é lógico e racional se transformar numa distração ou fantasia. Às vezes o mundo dela se embaralha todo e ela se perde por entre as lembranças da infância e se esquece que a água do café está fervendo.   

O tempo não está passando somente pelos sulcos do seu rosto, manchando a pele de suas mãos com “ceratose actínica” e comprometendo a dobradiça dos dedos e joelhos. O tempo está enferrujando também a memória recente e alguns mecanismos de cognição. Só mantém intacta a doçura e está intensificando um alumbramento que encontro consonância nos olhos de Laurinha, sua “neta” por osmose (neta da minha tia, irmã dela) e por um amor que tem se instalado de uma maneira que eu penso que ambas, a primeira com mais de setenta, e a segunda com sete meses, têm um pacto com a inocência, essa “menina” que faz das coisas do mundo uma constante (re)descoberta da vida.   

É preciso ser forte para abrir mão da própria inocência quando estamos diante da velhice dos nossos pais. É preciso abrir mão também da exigência da proteção e dos cuidados que outrora usufruímos, para assumirmos o papel de orientadores, provedores, condutores. Invertemos a forma de como pegamos na mão ao atravessar a rua. Checamos se está tomando os remédios na hora e corretamente; às vezes escolhemos as roupas e até mesmo nos sufocamos numa angústia incalculável porque o quarto está muito silencioso pela manhã. “Será que ela está respirando?”.   

Não é fácil e nem sempre poético cuidar de alguém que, invariavelmente, começa a se despedir de determinadas obrigações com a vida. Somos forçados a olhar para nossa própria finitude e nossas limitações diante do inevitável. Mas não tenho medo do porvir. Tomei algumas decisões há algum tempo: a primeira delas, não importa o quanto esteja cansada ou irritada ou ocupada, sempre temos um abraço e um beijo de boa noite; me perdoo quando perco a paciência porque não quero cultuar culpa cristã ou sacralizar uma relação que é tão humana, com todas suas implicações; e amo e cuido, sobretudo, com a fidelidade de um cão e a liberdade de um gato. Sou filha, por derradeiro, ela é mãe por primeiro. 

Texto publicado no Novo Jornal 9 de junho


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Decúbito Ventral



A caminho do trabalho, ontem, vi um homem deitado por sobre papelões no vão do túnel ali nas imediações do Campus da UFRN. Ao longe, a primeira reação foi de medo. Nem mesmo sabia do que se tratava, se era um cachorro, se era uma pessoa, se era um amontoado de lixo. Mas era um homem. Estirado de barriga para baixo (aí lembro que meu compadre Baiano me ensinou uma vez que é "decúbito ventral") ele estava inerte num sono fincado no asfalto negro e sem estrelas. A camisa estilo polo envolta na cabeça impedia que víssemos seu rosto. Não parecia bêbado. Estava arrumado demais para tanto. Não descansava ao seu lado qualquer resquício de ressaca. Passei ao lado pé ante pé, sem me dar conta que o ruído dos motores abafaria meu comedimento e minha vergonha.

Não consigo ficar indiferente ao abandono das ruas, seja de bicho ou de gente. Com gente é até mais fácil porque, no pior das hipóteses, as pessoas falam, gritam, pedem, imploram e até mesmo, roubam para sobreviver. Animais têm fome, sede e frio e, sobretudo, medo de gente, porque gente machuca ou quando não, ignora. Não fiz o que meu coração pedia: perguntar se ele precisava de alguma coisa. O que seria, por si só, uma pergunta retórica e ridícula. Ninguém dorme no vão de um túnel barulhento e poluído se não estiver precisando de algo. Todos precisamos de algo. Segui meu caminho murcha de vergonha.

Por onde ando, vejo animais abandonados, principalmente gatos. Muitos ignoram. Poucos exercitam a compaixão e vão mais além e se comprometem com adoção, alimentação, castração. Fazem em minoria o que o Poder Público ignora. Resgatam alguns, conseguem famílias adotantes, enquanto milhares se multiplicam à mercê do abandono. E antes que alguém fale que é fácil criticar, tenho três resgatados e já ajudei a encontrar um lar para alguns outros que cruzaram meu caminho. Faço o que posso, mas não o que gostaria.

Em tempos de amores líquidos, selfies e curtidas, a dor do outro é invisível. Afundamos os corpos em unguentos, exercícios, plásticas e a alma flutua por sobre a multidão de risos e prazeres que perdem o sentido no próximo post. É proibido ter problemas. E melhor não dar muita pelota para os problemas dos outros, porque você já paga impostos. Pensando bem é melhor também ignorar o homem deitado no chão; desconhecer sua dor, seus fracassos, suas fraquezas, arrastar a curiosidade e a compaixão para um lugar seguro e longe daquela exposição que incomoda, principalmente, porque afeta uma parte inerente a todos nós, não importa onde estamos ou quem somos: nossa humanidade.

 (Texto publicado ontem no Novo Jornal)


terça-feira, 12 de maio de 2015

O real me comove


A moça tem uma voz potente. Entoa canções do México e Colômbia. Envolve a todos dentro do ônibus. Toca um instrumento pequeno, da família dos violões, cujo nome me foge agora. Faz calor, está lotado. Mas, a maioria das pessoas preserva um sorriso no rosto. A música tem dessas coisas. Sinto uma emoção cálida. Dá vontade de chorar. A garotinha no colo da mãe tenta ver quem está cantando, mas é muito pequena para ultrapassar todos aqueles gigantes. Olha para mim meio confusa. Franze o cenho, bota uma língua rápida para fora. Tenho vontade de fazer o mesmo. De estabelecer com ela uma pantomima infantil. Recuo. Têm adultos demais no recinto. Posso ser mal interpretada. Então, apenas sorrio de volta para ela e ela me bota meio palmo de língua de novo para fora. E fica me olhando fixamente até eu sentir uma certa vergonha de ser adulta, de estar esbaforida e com uma imensa vontade de chorar de emoção porque a moça de sotaque hispânico canta no ônibus e eu penso que a arte ainda pode trazer algum tipo de redenção para a vida afora.

Por agora, dependo desses pequenos momentos para me desligar das notícias feias, tristes, dos atos ilícitos, das injustiças, da falta de esperança, da indiferença, da economia em crise, da política corrupta, dos jornais da Globo, dos despolitizados sem noção que falam tanta bobagem por aí. Agarro-me às respostas mais imediatas do mundo; coisas que, quando estamos muito felizes ou eufóricos, nos passam despercebidas, porque a felicidade traz um certo alheamento. Nem desastres, nem tragédias nos tiram o sorriso largo do rosto. Sou muito mais o estado de espírito de agradecimento do que de felicidade.

Aquela moça cantante do ônibus acelerou meu coração de lata. Uma moça de cabelos cheios de drads, olhos verdes faiscantes, uma tez bronzeada de sol e sal, uma saia rodada e dona de um carisma que fazia todos aplaudirem e pedirem bis para suas músicas folclóricas. Não passou o chapéu. Ao final, pediu moedas aos passageiros, num saquinho preto, pequeno, que não cabia uma mão dentro. Uma moça que troca seu talento por pequenas moedas. Uma moça que parecia inteira e satisfeita dentro do real, derretendo o aço galvanizado dos nossos dias de pressa, calor, ônibus apertado, salários mínimos, das notícias feias, tristes, dos atos ilícitos, das injustiças, da falta de esperança, da indiferença, da economia em crise, da política corrupta, dos jornais da Globo, dos despolitizados sem noção que falam tanta bobagem por aí.

Sou devota do real. Não bebo para falar o que penso. Prefiro correr o risco de alguém se assustar quando me pergunta se está tudo bem e eu respondo que não, do que o abismo das ilusões das palavras sem destino. Mas me garanto nas intenções, me comprometo com as mudanças, sobretudo as que partem de dentro. Sou grata, por primeiro e por derradeiro.

Publicado hoje no Novo Jornal

terça-feira, 5 de maio de 2015

Antes do pó que haja a casca



Vivemos numa cultura do "pisar em ovos". Rever mil vezes o que vai dizer, que tipo de brincadeira pode ou não pode, espontaneidade zero, rir alto ou chorar em público nem pensar. E assim, enquanto vamos colocando nossas verdades para debaixo do tapete, represando palavras na garganta, fingindo um sorriso da boca pra fora, os consultórios vão se enchendo de gente que não dorme; gente que desaprende a falar; gente que engorda por compulsão; gente que tem medo de tudo, de barulho, de sombra, de buzina de carro, de multidão; gente que se desconhece no espelho.

Outros aspectos dos nossos costumes atuais que nos levam a manter intacta a casca do ovo e o compromisso zero com o real, e com as pessoas, e com o que elas realmente merecem ouvir de nós é, por exemplo, dizer "tô chegando", quando ainda nem saímos de casa. Dizer, "sim, a gente combina" e sequer fazer uma ligação depois para desconfirmar qualquer coisa que seria um encontro. Eu faço isso, tem gente que faz isso comigo. Assim temos caminhado. Os ovos permanecem intactos. As palavras como pó ao vento.

Com mulher é ainda mais complicado. Com o perdão do trocadilho, homem quebra ovo numa partida de futebol. Grita, geme, esbraveja, diz palavrão. Transforma as frustrações do dia-a-dia em xingamentos com os pernas-de-pau. Se mulher grita, esbraveja, se revolta, diz palavrão é porque "é mal amada", "mal comida", "está na TPM". Está sempre sujeita a uma sorte de aforismos machistas. Ou então, para se valer dos mesmos direitos, se força a eleger um time do coração, vai para o estádio e faz a mesma coisa, quebra a casca, usando os ovos dos outros.

Pois fica aqui minha sugestão: enfiemos de quando em vez o pé na casca! Sintamos os ovos se esfacelando por debaixo dos nossos pisantes. A gosma da gema e da clara se espalhando, se derramando, para que não cozinhemos em fogo brando uma úlcera nos nossos estômagos. E isso não tem nada a ver com quebrar vidraças ou botar o dedo na ferida dos outros. Quebrar os ovos é manter a dignidade, é olhar no olho do outro sem falsidades, sem subterfúgios.

Em tempos de vantagens para tão poucos, enquanto a grande maioria se sente em desvantagem vertiginosa, indignada, perdida e equivocada, que ao menos nossas verdades sejam postas à mesa.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Será?




na ausência de coisa melhor, foto de Orides Fontela e seus gatos


Os óculos do sujeito estão folgados. Basta um pouco de umidade no rosto e ele sai do lugar, vai para a ponta do nariz, ameaça um mergulho no nada. Se por um acaso ele cair, sem brincadeira, o sujeito estará em maus lençois. Primeiro, não tem dinheiro para uma consulta ou novas lentes e armações. Segundo, para onde olha só vê escuridão.

Tenta aqui acolá acender uma vela, faz um esforço danado para olhar para dentro do olho do sol (esse a quem dão o nome de deus), ensaia uma prece, joga-a aos poucos, depois aos parcos e porcos e nada. Nenhum eco. Silêncio do outro lado. No máximo um rebote fleumático, um "não" colorido de flores murchas é o que lhes oferecem.

O sujeito acorda pela manhã, olha pro mundo do lado de lá da janela e sente vontade de não sentir vontade alguma. Mais e mais uma vez se apercebe que somente a ignorância redime. O sujeito tenta olhar para as orelhas mas dizem que orelhas não são feitas para olhar. São adornos de ouvir e levar bofetes da vida, principalmente, quando essa segunda função se origina dos hipócritas, dos bajulares, dos omissos, dos preguiçosos, dos medíocres, dos espertalhuchos que abundam esses ventos, dos justos que ajustam sua justiça dentro do centro do seu digníssimo cú com acento e assentos de veludo, de preferência.

O sujeito pensa na atriz italiana que não está mais entre nós. No bobó de camarão da vovó que ficou enterrado para sempre porque a velha não dividia as receitas com ninguém. Na criancinha linda e fofinha que colore o facebook e preenche as frustrações e neuroses da mamãezinha. 

O sujeito pensa em si mesmo e se pergunta: o que será que será? (e lembra que um Chico já se perguntou). Será que isso tudo faz nascer algum tipo de estrelinha brilhante no céu? Como é que se faz para se reverter a cena e voltar a acreditar no mundo e passar uma mensagem de amor e esperança? Sorry. Volte outro dia. O sujeito desaprendeu.