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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Às vezes



Parece que o mundo desaba sobre nossas cabeças. Ou então, somos nós que estamos de cabeça para baixo, sentindo toda a pressão do chão. O núcleo da terra pulsando em nossas têmporas. Por esses dias, estão fazendo uma obra em cima do nosso apartamento. De maneira que a sonoplastia ajuda, e muito, na sensação de que realmente os escombros estão a alguns centímetros de colidir com o que um dia foram pensamentos. A cabeça vira só ouvidos. Os ouvidos absorvem as batidas dos martelos, o desmaio dos tijolos, o risco estridente da pá sobre o chão. Não há espaço para mais nada. A não ser esperar. 

Então, de um momento para outro, essa sensação de desabamento dá lugar a um profundo silêncio. (No caso da obra é na hora do almoço. Mas falo de outra coisa nesse momento). O silêncio que não existe, posto que é sílaba. Mas que traz o cessar daquele desmoronamento. Quando o frio na barriga passa na célula do desespero, é possível se fechar os olhos e sentir a queda livre. O corpo deslizando pelo acaso. Os passarinhos experimentam isso o tempo inteiro. Cabe a nós também nos arriscarmos. 

Estou em casa, em meio ao barulho que não é espelho, e me chega uma carta, um bilhete, dois livros. Há alguns dias em vinha pensando nessa carta que nunca chegava. Eu vinha pensando se ele não havia se esquecido. Tudo bem se tivesse se esquecido. Eu compreendo. Já fiz isso. Devo meu livro ao meu amigo Marc Jorgensen faz quase dois anos! Sempre me lembro de enviar, esqueço sempre de levar aos Correios. Mas enfim, finalmente a carta e o bilhete e o(s) livro(s) chegaram.



Je ne sais pas pourquoi
ils aiment tan les chiens
et les chats




O autor de Sol dos Cegos (1968), Passatempo (1974), Dia sim dia não (com Eudoro Augusto) 1978, e Lago, Montanha (1981) e Elefante (2000) me enviou um bilhete, dois livros, conforme o prometido. Nosso contato surgiu durante o Festival Literário de Natal do ano passado. Mandei-lhe um email, ele me respondeu prontamente. É daquelas pessoas que têm e sabem o que dizer. Que dá vontade de ouvir pelo resto da vida. Preferia responder as perguntas por e-mail, ao invés de usar o celular. Eu não tinha como protestar e mandei as perguntas. Dentre as quais, transcrevo-as aqui:

Sua obra é tida como sofisticada e complexa e, ao mesmo tempo, tem uma proximidade com o cotidiano simples das pessoas. De maneira que alguns versos, parecem que saíram de dentro do cotidiano do porteiro, do vizinho, da mulher que passa. Concorda? Como o senhor passeia por esses vértices?

É um pouco aquilo que disse acima. Minha crença em que a poesia passa pela vida; na verdade,  não apenas da  minha, como falei, mas também da dos outros. A experiência de cada um, fictícia ou não, é um elemento para a criação que considero importante. Isso tem a ver com a prosa, com a narratividade, com a representatividade, das quais não desacredito. Poesia para mim é parente próxima de uma espécie de prosa vazada, crivada de lacunas; uma ficção que prescinde do enredo, ou se este existe, existe, numa pauta por fora da escrita poética, conectada diretamente ao imaginário do leitor, de modo a ampliar o foco de toda experiência humana. O ideal seria atingir não o porteiro, o vizinho, a passante, mas a fala de cada um ou de ninguém, com seu potencial de coisa dita, não dita, de núcleo sem identidade, pura fala, que reverbera. E, sobretudo, que traz em si o ritmo único, a quebra do verso, o som inconfundível da poesia.

Poeta, a poesia tem alguma serventia, além de nos salvar?

Não há uma resposta só para essa pergunta, assim como não há uma poesia única. De qualquer modo, a poesia é generosa e dá a cada um aquilo que espera encontrar nela, até mesmo nada.

Bom, ao final da entrevista por e-mail, pedi para que ele ficasse a vontade e me falasse um pouco de si, seu cotidiano e hábitos. Sem as amarras das perguntas feitas sem improviso e por encomenda. E assim, Francisco Alvim, o poeta marginal, bonitão nos anos 1960, diplomata, viajado e que passou dois anos vivendo os desbundes literários que lhes foram possíveis junto a outros grandes nomes (que não quero citar aqui, porque ele é que é o meu foco nesse momento) se soltou e foi absolutamente lindo, poético, gentil e generoso com sua interlocutora.

Vivo em Brasîlia debaixo de um céu imenso, ao qual não me canso de assistir. Na companhia de Clara, minha mulher, de meus dois filhos e de meus netos. Um céu vertiginoso; o único que me deu a absurda e deleitável sensação de pirambeira, porque às vezes parece que chega por baixo. Um convite a um mergulho em profundidade, altitudes (como dar nome a isso?) verdadeiramente cósmicas. Leio muito, disparatadamente. O último livro que li, e me impressionou (na realidade foram dois), foi "O duplo", de Dostoievski, na belíssima edição da 34 Letras. Não, não vou me levantar para procurá-lo na estante para aqui pôr o nome do autor da tradução admirável e do artista excelso que o ilustrou, se não me engano um austríaco que floresceu nos anos trinta e quarenta. E o romance (de estréia?) de um autor nosso, "As visitas que hoje estamos", de Antonio Ferreira, de que gostei muitíssimo. Poesia: Szimborska, Eucanaã, Vera Pedrosa, Marília Garcia, Lu Menezes, Carlito, Zuca. Procuro esticar minhas velhas pernas de aposentado em caminhadas pelas ruas (serão mesmo? Talvez seja melhor dizer vias)  do Lago Norte. Me sinto acompanhado pelas casas e pelos sinais de vida que elas emitem. Há casas extraordinárias; as vezes no conjunto; as vezes no detalhe. Nada a ver com sentimento estético, mas de um caloroso, reconfortante, sentimento,"tout court", humano. Muito barulho. De passarinhos, cachorros, então... De vez em quando, um galo. Que não sei porque diabos às vezes me faz recordar o ferro na bigorna de uma araponga em tardes antigas e perdidas de BH. Escrevo pouco, muito pouco. Nada de livro novo. O inglês tem uma expressão muito elegante, que procuro pôr em prática (mas não muito): " I am fading out".

Precisa dizer mais nada?
Tem dias que a gente, que está no meio do caminho, fica meio que olhando só para o céu do teto do apartamento e sente o mundo desabar. Aí, se lembra que existem outros céus e outros azuis. E que Chico Alvim nasceu para escrever poemas que servem, até mesmo, para nada.


2 comentários:

José Milanez disse...

Meu Deus! O que é isso? A beleza de suas palavras traduz a percepção que você tem do cotidiano, daquilo que passa despercebido dos simplesmortais. Momento catártico!

Mme. S. disse...

Obrigada, meu amor! "Seu olhar melhora o meu".