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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Cambalhotas no tempo





Minha mãe começou a dar cambalhotas no tempo. Caminha pela vida se lembrando mais das pedras do Surrão do que as flores que ela água todas as manhãs. Só compreende as coisas que faz depois de um tempo. E às vezes, acha melhor não compreender. Faz cara de paisagem, dentro dos olhos (sempre) tristes. Minhã mãe é dura para chorar. Mas amolece quando humaniza os gatos e coisifica as ruas, os nomes, as panelas. Minha mãe segura meus conselhos e recomendações no olhar, mas não os engole para dentro. Faz cara de paisagem.

Hoje ela me contou que tomou banho de mangueira enquanto aguava as plantas. Molhou todo o vestido, depois a sala, o caminho para o banheiro. Minha mãe não tem medo de pegar resfriado, pneumonia. Eu tenho. Ela sorriu muito e volteou-se no tempo para dizer que quando era menina adorava tomar banho de bica quando a chuva caía. E aproveitava para levar o sabonete e lavar o cabelo. Minha mãe se abandonava nas águas como se abandona agora nas memórias de infância, puxando o fio do tempo, esticando-o para não ser engolida por ele.

Minha mãe conhece o idioma do silêncio. Sempre foi meio calada enquanto falávamos com ela. Só bem depois é que ela vinha com perguntas, bem ruminadas por dentro. Perguntas engraçadas. Perguntas profundas. Perguntas de quem não sabe as respostas. Minha mãe fala com seu Silan como se ele soubesse quem está do outro lado da linha antes mesmo de atender o telefone. Ela diz: "Seu Silan, eu quero uma água. Uma de quatro e cinquenta". Depois de um tempo de silêncio, ela diz quem é e onde está. E não adianta insistir que tem de ser o contrário, primeiro diz quem é, onde está, depois faz o pedido. Mamãe faz sempre cara de paisagem. Ouve com os olhos, voa com os ouvidos.

Mamãe está numa idade em que botar datas é sentença e definição. E prefere se fixar no quando e quando quiser. E tira boas sonecas nos intervalos dos quereres. Minha mãe trabalhava fora, lavava, estudava, batia bolo, namorava, gostava de Nelson Gonçalves (agora gosta de Ivan Lins e ouve a 104 FM). Eu ouço suas reminiscências e penso que um dia elas esbarrarão em mim. Um dia, se assim for possível, elas darão cambalhotas nas minhas lembranças e no meu tempo. Eu já sei que minha mãe vai se tornar criança de um tudo. Vai girar a cambalhota de vez. Deixar o mundo de cabeça para baixo. Passarinhar as ideias, voar além da existência.

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