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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Pessoas melhores


Nico fugiu de casa na madrugada do sábado. A tela da janela do meu quarto rompeu e ela se pirulitou. Fellini, que deveria dar o exemplo, quando deu por falta da caçula, seguiu aventura afora. Só Dollores que não conseguiu passar pelas grades, impedida pelos pudores exagerados de seus mais de seis quilos. A fuga só foi descoberta pela mamãe quando levantou e foi colocar o lixo na rua e deu de cara com a fujona, que vinha vai saber de onde. Fez um alarde descomunal que me fez tomar um susto antes mesmo de acordar completamente. Gritava ela no meu quarto: "Fellini fugiu!". Como se dissesse: "Fellini se suicidou!". Foi encontrado minutos depois, flanando pelos mesmíssimos lugares que está acostumado a ir nos passeios monitorados pelos humanos da casa. 

O que me faz pensar sobre a liberdade vigiada que os impomos. Claro que há regras no condomínio e animais têm de sair com guias e acompanhados de seus donos. Claro que eu tenho medo que eles saiam sozinhos e, desavisados, sejam atropelados por algum morador afoito que insiste em acelerar, mesmo dentro do estacionamento apertado do lugar. Claro que eu gostaria de vê-los livres e felizes, cheirando canos de escape com a mesma satisfação com que comem carne moída descongelada. Mas não dá. A máxima quem ama cuida também se aplica aos pets. Nessa caso, a três gatos que são absolutamente os donos da casa. Que arranham sofá sem cerimônia, que só comem à la carte, e que se esparramam nas camas e nos permitem um pequeno espaço no colchão. Nada do que eles façam de errado é maior que a presença deles. Cada um à sua maneira é dono de um amor incondicional e genuíno.

Cientistas ingleses catalogaram os gatos em quatro possibilidades de características de personalidade: alegres, tímidos, afetuosos e mal-humorados. Fellini é um animal tímido, mas não se furta de demonstrar afeto aos de casa; Dollores é a "pessoa de quatro patas" mais mal-humorada do mundo; mas insere nas reclamações cabeçadas, mordidinhas e lambidas de agradecimento pela paciência que temos com ela. E, convenhamos, com aquele excesso de fofura, ela até que tem um pouco de razão de ser tão rabugenta, porque ninguém resiste a tirar uma casquinha de sua beleza. Nico, bom, ela é alegre e afetuosa, definitivamente. O que me leva a crer que, independente das características inerentes à personalidade, o amor que lhes é dado nos é retribuído, reconhecido, agradecido.

Tenho a sorte de gostar de animais. Sorte que vem acompanhada da experiência de conviver com três figuras especiais. Não porque vivem comigo, sim porque vivo com eles e aprendo com eles e os observo, os admiro. Quisera todos nós pudéssemos vivenciar a honradez e coerência dos bichos. Seríamos pessoas melhores umas com as outras.


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