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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Uma canção para uma menina com uma flor no cabelo




Eu repouso os olhos nela e me sinto em casa. Quando ela me abre os braços e me prende num caloroso abraço, sinto o bater dos nossos corações numa sintonia de sons que guardam até mesmo memórias inventadas por nós para triblarmos o tempo em que não estávamos juntas, antes de nos encontrarmos. A conheço há alguns pares de anos. Foi numa entrevista. Uma das melhores que fiz porque saí da casa daquela moça com um brilho emprestado nos olhos de alguém que gosta de investir o tempo em sorrir, trabalhar, viver a vida com tudo o que ela traz de bom e nem tanto assim também.

Ela nasceu atriz. Mas há alguns anos escolheu as coxias como palco. Faz com entusiasmo tudo o que lhe é outorgado. De suas mãos pequenas brotam poesia, seja no chão, no palco, nas cortinas, no papel do Teatro de Cultura Popular Chico Daniel (TCP). É uma menininha serelepe com uma flor no cabelo dentro de uma mulher com seis décadas nos ombros e sessenta vezes seis possibilidades de se reinventar, de se redescobrir, de aprender, cair, chorar (mas só se for escondidinho e na companhia do travesseiro) e, principalmente, de sorrir para qualquer um que lhe ofereça o mínimo de cabimento. Tem uma personalidade que nada a pasteuriza. A roupa branca, cria cor. A colorida, se espalha por sua pele. Os brincos de brechó parecem finos diamantes. Os sapatos flutuam.

Ela não nasceu. Estreou. Ela não veio só. Tem uma irmã gêmea. E, mesmo assim, é única, inteira, sutilmente pedra, poeira e pó nos pezinhos tamanho 34, que sustentam a força das asas dos seus calcanhares. Ela se lembra da infância como se tivesse sido ontem e, provavelmente, amanhã é um dia que já vai chegar para ela com gosto de memórias, panelas amassadas, birras, castigos maternos, o amor do pai pelos bichos, a arte correndo nas veias das Marias de sua família e as lembranças de Carminhas e andorinhas lá pelos lados de Currais Novos.

Ela é uma espécie de esteio para quem acredita que a arte é um substantivo próprio e coletivo. E, se por acaso a arte não salvar, no caso dela, ilumina, dá sentido, traz esperança, mostra o caminho. Ela é uma espécie de exemplo para mim, de filha, de mãe, de avó, de amiga e de mãe de novo (porque sim, eu a adotei como mãe). Obrigada Sônia Santos, minha Pleta, por me dar a oportunidade de viver momentos de aprendizado e de iluminação com você. 

Evoé, minha mãe! Mérd em abundância para ti! Te amo.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Cícero - Açúcar ou adoçante? (clipe oficial)





Esse menino é bom!

Quem nunca teve um trauma de carnaval?


Eu tenho um trauma de carnaval guardado na memória. Misturado com a fantasia de Emília do Sítio do Pica-pau-amarelo. A peruca eu fiz com papel de jornal, o vestido era um vestido qualquer, não tinha meia-calça e a maquiagem eu e minha amiga fizemos com a maquiagem da mãe dela. Os olhos ficaram legais. E quebramos o vidrinho da tinta que eu acho que deveria ser de um delineador e, a pensar pelo tempo, aquilo deveria ser bem caro. Mas o trauma não tem a ver com a fantasia de Emília ou o delineador quebrado da minha amiguinha. O trauma tem a ver com o trem descarrilhado que a minha família se tornou em determinado período de nossa vida. 

Uma das músicas que a minha mãe cantava naquele dia era: "Eu levei pau, pau, pau, no vestibular/ Mas a culpa não foi minha seu doutor/ Foi erro do computador". Logo em seguida, a cantoria cessou. O carnaval e a fantasia de Emília deram lugar a outras vivências que mesmo hoje eu penso que nenhuma criança de nove anos deveria viver. As feridas sararam. O sangue estancou. As cicatrizes já compõem os sulcos da pele da minha mãe.

Tem gente que tem traumas de carnaval porque bebeu demais; pagou peitinho ou transou sem camisinha com alguém que não lembra o nome. Eu não gosto muito da fusaca de carnaval. Duas horas no máximo de empurra-empurra; suadeira; bebida meio quente e música que eu não sei cantar as letras são mais que o suficiente. Depois, começo a pensar num banho gostoso, alguns filmes bacanas para assistir e do silêncio do meu sofá.

Carnaval vem, carnaval vai e o trauma vai ficando amarelado pelo tempo. Esse ano, meu carnaval foi do jeito como eu sempre sonhei: uma pitada de folia; um pouco de fantasia; algumas leituras; silêncios; recuperação de sono; pequenas doses de uísque e suco de manga e o amor da minha vida do meu lado. Melhor, o amor da minha vida do meu lado, ao lado dos outros amores da minha vida, porque sim, eu tenho meia-dúzia de amores que fazem a minha vida mais colorida, silenciosa, fantasiosa e de, preferência, com o mínimo de traumas que eu possa guardar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015



Tenho pensado na felicidade como um enorme bolo confeitado, desses que as pessoas adoram ver nas festas de aniversário, casamento, batizado. No entanto, sabendo da enorme quantidade de gorduras saturadas, olham para a guloseima como algo inviável. Aliás, um pedacinho de bolo até que não mata ninguém. Mas, o bolo inteiro é impossível. A felicidade é uma coisa que já nasce inventada (e saturada). Botaram na cabeça da gente que o caminho é "ser feliz", enquanto que o caminho é um emaranhado de eventos, aprendizados, lutas, desistências, fantasias, sonhos e desilusões tão mais ricos que a felicidade que chego a ter vontade de rir dessa ingenuidade patente ao ser humano. Minha gata Dollores aparenta uma felicidade extrema toda vez que faz coco no jardim. Ela cisca, corre em círculos, retesa o rabo, dilata as pupilas. E, cinco segundos depois, segue sua vida. Talvez seja isso. Feliz quem faz coco todos os dias. E, feliz aquele que, como Dollores, reconhece nisso o ponto culminante dessa necessidade criada, essencialmente, pelo consumo e os (des)limites do cartão de crédito.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

sobre amigos, luz e solidão




ter um amigo em quem confiar é como ter uma pérola guardada numa concha. não tem pai, não tem mãe, não tem irmão, não tem outro tipo de amor que dê conta. a confiança do amigo é um troço que acolhe. você dá um conselho relativamente simples e a pessoa do outro lado, de repente, extrai de você "sabedoria". uma coisa que vai além do conselho, que precisa do ouvido generoso do outro para ser lapidado e decodificado como algo precioso.

hoje eu pedi uma "luz" a um amigo. assim que viu o chamado, ele acendeu o feixe da paciência e ouviu minhas angústias. ao término do relato ofereceu-me uma poltrona confortável do bom senso. arguiu sobre alguns passos trôpegos mas, mesmo assim, apoiou minha travessia. amigo não quer preencher os vazios da gente. amigo olha para dentro do vazio com a gente. fica na beirinha dos nossos abismos e estende a mão. mas, se realmente precisarmos, se for necessário, também são capazes de dar um empurrãozinho para dentro do escuro. porque o escuro com um amigo é só uma cortina que cai sobre nossos olhos. a noite existe, mas em seguida chega a madrugada. os amigos sabem disso antes da gente. são capazes de antecipar as horas para que sintamos o calor do sol nos nossos rostos.

tenho amigos que me ajudam a reescrever minha história. que compreendem meus rabiscos e me mostram cores novas. tenho amigos que não curtem minhas postagens do facebook ou minhas fotografias de avatar porque estão ocupados em me telefonar e me convidar para tomar um café, um almoço, uma conversa de bar. tenho amigos, poucos é verdade, tão intensos e vardadeiros que fazem da minha vida uma travessia mais interessante. que fazem da minha solidão inerente um fardo menos pesado. 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Coisas que não saem em jornal



Não é que eu não me importe com o rombo da Petrobras, as eleições na Grécia, a teimosia da Alemanha ou a eleição do Eduardo Coutinho para a Câmara Federal. Não é que eu não ache importante a volta do Anderson Silva aos ringues daquela luta que eu acho, no mínimo, estranha e bastante violenta. Não é que eu não pense nas cidades que estão em colapso de água no Rio Grande do Norte, ou que não sinta consternação pelos que vivem em São Paulo. Também não fecho os olhos para o fato de que o carnaval está chegando e, quem sabe, depois dele o ano realmente comece e as coisas tomem um rumo melhor para todos. Não é que eu não repare nos imensos buracos nas ruas de Capim Macio que avariam os pneus dos carros. Que eu não perceba os ódios de mal resolvimentos classistas contra o PT e a mansidão em nome da governança desse mesmo PT. E sim, eu também me incomodo bastante com o calor nessa época do ano e os ônibus que nunca cumprem horários certos, e o aumento da gasolina e o sapato que aperta meu joanete e o cabelo que precisa de um corte novo e a humanização do parto nos hospitais públicos e que não tenha curiosidade de ler sobre o irmão alemão do Chico Buarque. 

Mas é que tudo isso, assim, sempre ocupando as timelines, as manchetes, as rodas de conversa, o dia-a-dia das pessoas, vai me dando uma gastura e um desinteresse à obcecada necessidade que as pessoas têm de dar opinião para tudo, de acomodarem suas ideias como se fossem sentenças axiomáticas e não se esforçarem da mesma maneira enquanto divergem, para aceitar e respeitar as opiniões contrárias. Então, eu prefiro me importar com as coisas desimportantes para os outros, praticamente indeléveis e invisíveis alhures, mas que, para mim, entram pela porta da frente das minhas emoções e crenças. Uma amiga fez Bodas de Ouro com o marido. E, ainda assim, todos os dias quando chega a noite, eles assistem televisão de mãos dadas e falam como foi o dia. Meu "avô" está de férias na praia, ocupado com seus netos verdadeiros e, mesmo assim, se dá ao trabalho de, de vez em quando, me mandar notícias por e-mail e demonstrar preocupação com minha vida. E, dessa forma, seja por e-mail ou por telefone, nos tornamos muito próximos do que muita gente que eu vejo todo dia.

Pois é, enquanto o mundo afunda com o lucro dos bancos e, quando não, esse bancos afundam e levam dinheiro do Estado, minha begônia deu mais flores. Nesse mesmo tempo, tivemos de cortar um pouco as asas da samambaia porque ela estava querendo invadir a área do vizinho. A poda, em alguns casos e às vezes, é necessária. Chorei ao ler um poema e uma lágrima inundou a palavra "metro". E eu fiquei espantada como é que uma única gota de sal e sentimentos poderia inundar tanta lonjura assim. Dia desses, vi uma lavadeira pousar no galho da árvore e quando ela levantou voo, perdeu uma minúscula pena que demorou sete segundos e meio para cair ao chão. 

Essas coisas não saem em jornal. No entanto, eu me pego em monólogo com elas. Tecendo fios de consciência com as realidades que não virarão manchete. Mas que são capazes de tirar o fôlego e extrair beleza acolhida na concha de nossas mãos ou no convexo dos nosso olhos.


Crônica publicada, originalmente, hoje no Novo Jornal.