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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Coisas que não saem em jornal



Não é que eu não me importe com o rombo da Petrobras, as eleições na Grécia, a teimosia da Alemanha ou a eleição do Eduardo Coutinho para a Câmara Federal. Não é que eu não ache importante a volta do Anderson Silva aos ringues daquela luta que eu acho, no mínimo, estranha e bastante violenta. Não é que eu não pense nas cidades que estão em colapso de água no Rio Grande do Norte, ou que não sinta consternação pelos que vivem em São Paulo. Também não fecho os olhos para o fato de que o carnaval está chegando e, quem sabe, depois dele o ano realmente comece e as coisas tomem um rumo melhor para todos. Não é que eu não repare nos imensos buracos nas ruas de Capim Macio que avariam os pneus dos carros. Que eu não perceba os ódios de mal resolvimentos classistas contra o PT e a mansidão em nome da governança desse mesmo PT. E sim, eu também me incomodo bastante com o calor nessa época do ano e os ônibus que nunca cumprem horários certos, e o aumento da gasolina e o sapato que aperta meu joanete e o cabelo que precisa de um corte novo e a humanização do parto nos hospitais públicos e que não tenha curiosidade de ler sobre o irmão alemão do Chico Buarque. 

Mas é que tudo isso, assim, sempre ocupando as timelines, as manchetes, as rodas de conversa, o dia-a-dia das pessoas, vai me dando uma gastura e um desinteresse à obcecada necessidade que as pessoas têm de dar opinião para tudo, de acomodarem suas ideias como se fossem sentenças axiomáticas e não se esforçarem da mesma maneira enquanto divergem, para aceitar e respeitar as opiniões contrárias. Então, eu prefiro me importar com as coisas desimportantes para os outros, praticamente indeléveis e invisíveis alhures, mas que, para mim, entram pela porta da frente das minhas emoções e crenças. Uma amiga fez Bodas de Ouro com o marido. E, ainda assim, todos os dias quando chega a noite, eles assistem televisão de mãos dadas e falam como foi o dia. Meu "avô" está de férias na praia, ocupado com seus netos verdadeiros e, mesmo assim, se dá ao trabalho de, de vez em quando, me mandar notícias por e-mail e demonstrar preocupação com minha vida. E, dessa forma, seja por e-mail ou por telefone, nos tornamos muito próximos do que muita gente que eu vejo todo dia.

Pois é, enquanto o mundo afunda com o lucro dos bancos e, quando não, esse bancos afundam e levam dinheiro do Estado, minha begônia deu mais flores. Nesse mesmo tempo, tivemos de cortar um pouco as asas da samambaia porque ela estava querendo invadir a área do vizinho. A poda, em alguns casos e às vezes, é necessária. Chorei ao ler um poema e uma lágrima inundou a palavra "metro". E eu fiquei espantada como é que uma única gota de sal e sentimentos poderia inundar tanta lonjura assim. Dia desses, vi uma lavadeira pousar no galho da árvore e quando ela levantou voo, perdeu uma minúscula pena que demorou sete segundos e meio para cair ao chão. 

Essas coisas não saem em jornal. No entanto, eu me pego em monólogo com elas. Tecendo fios de consciência com as realidades que não virarão manchete. Mas que são capazes de tirar o fôlego e extrair beleza acolhida na concha de nossas mãos ou no convexo dos nosso olhos.


Crônica publicada, originalmente, hoje no Novo Jornal.

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