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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Quem nunca teve um trauma de carnaval?


Eu tenho um trauma de carnaval guardado na memória. Misturado com a fantasia de Emília do Sítio do Pica-pau-amarelo. A peruca eu fiz com papel de jornal, o vestido era um vestido qualquer, não tinha meia-calça e a maquiagem eu e minha amiga fizemos com a maquiagem da mãe dela. Os olhos ficaram legais. E quebramos o vidrinho da tinta que eu acho que deveria ser de um delineador e, a pensar pelo tempo, aquilo deveria ser bem caro. Mas o trauma não tem a ver com a fantasia de Emília ou o delineador quebrado da minha amiguinha. O trauma tem a ver com o trem descarrilhado que a minha família se tornou em determinado período de nossa vida. 

Uma das músicas que a minha mãe cantava naquele dia era: "Eu levei pau, pau, pau, no vestibular/ Mas a culpa não foi minha seu doutor/ Foi erro do computador". Logo em seguida, a cantoria cessou. O carnaval e a fantasia de Emília deram lugar a outras vivências que mesmo hoje eu penso que nenhuma criança de nove anos deveria viver. As feridas sararam. O sangue estancou. As cicatrizes já compõem os sulcos da pele da minha mãe.

Tem gente que tem traumas de carnaval porque bebeu demais; pagou peitinho ou transou sem camisinha com alguém que não lembra o nome. Eu não gosto muito da fusaca de carnaval. Duas horas no máximo de empurra-empurra; suadeira; bebida meio quente e música que eu não sei cantar as letras são mais que o suficiente. Depois, começo a pensar num banho gostoso, alguns filmes bacanas para assistir e do silêncio do meu sofá.

Carnaval vem, carnaval vai e o trauma vai ficando amarelado pelo tempo. Esse ano, meu carnaval foi do jeito como eu sempre sonhei: uma pitada de folia; um pouco de fantasia; algumas leituras; silêncios; recuperação de sono; pequenas doses de uísque e suco de manga e o amor da minha vida do meu lado. Melhor, o amor da minha vida do meu lado, ao lado dos outros amores da minha vida, porque sim, eu tenho meia-dúzia de amores que fazem a minha vida mais colorida, silenciosa, fantasiosa e de, preferência, com o mínimo de traumas que eu possa guardar.

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