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quarta-feira, 11 de março de 2015

À espera...



é isso. o horizonte, a fumaça do cigarro, o barulho dos carros vindo da rua, o flagra do meu amigo Ivanízio Ramos que me manda a foto com o apelo "não fume". um momento de silêncio que percorre as angústias por dentro. perscruto meus sonhos, meu cansaço, o desejo de que algo aconteça. visito meu íntimo e danço no sonho de que isso tudo que não tem nome definido, que me apaga parte do que sou, que me reinventa numa esquina barata e sem blues é só uma passagem, é só um vento, uma ventania, um abalo sísmico. vai passar. tanta coisa já passou. tantas folhas já secaram. os galhos envergaram. a raiz permanece sólida. é isso. o horizonte. essa coisa que não tem nome definido, que não acaba nunca, essa coisa que se chama vida, me chama, e eu sigo.

terça-feira, 10 de março de 2015

Casa de Estrelas - um pequeno dicionário infantil




O professor Javier Naranjo decidiu colocar num livro definições de seus alunos sobre palavras. O resultado é o dicionário Casa das Estrelas, que foi um sucesso na Feira do Livro de Bogotá (Colômbia) e que eu replico algumas definições, das  mais de 500 para 133 palavras, aqui:

Adulto: pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe, 8 anos)

Ancião: é um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)

Água: transparência que se pode tomar (Tatiana Ramirez, 7 anos)

Branco: o branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramirez, 11 anos)

Céu: de onde sai o dia (Duván Arnulfo, 8 anos)

Dinheiro: coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana 
Milena Hurtado, 5 anos)

Escuridão: é como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)

Guerra: gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejia, 11 anos)

Inveja: atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)

Igreja: onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)

Mãe: mãe entende depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)

Sexo: é uma pessoa que se beija em cima a outra (Luisa Pates, 8 anos)

Solidão: tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Lópes, 10 anos)

Tempo: coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)

Universo: casa das estrelas (Carlos Gomez, 12 anos)


terça-feira, 3 de março de 2015

Preto e branco



O chamado saiu da boca junto com o gesto brusco:

- Ei!

- Oi?

Nesse momento, me dei conta de que a pessoa que andava perto de mim na ladeira, numa das ruas de Petrópolis, usando uma camisa de um time de futebol, boné azul, calça jeans, aproximadamente 30 anos, baixa estatura, nariz afilado e feições infantis que lembravam ainda o menino que ele fora um dia, protagonizaria um dos momentos mais traumatizantes da minha vida até agora. Tirou a arma da cintura, mostrando-me e ordenou:

- Não tente correr, não faça nenhum movimento e abre a bolsa.

Fiquei estranhamente calma. Falava baixo. Abri a bolsa devagar e resistência. Pensei comigo, vou entregar o celular "pebinha" e tento livrar o outro que me custou 529 dólares e estava no bolso.

- Eu não tenho dinheiro moço! Posso lhe mostrar a carteira, se quiser ver. Acabei de passar na farmácia e...

- Cala a boca! Pega esse celular aí que está no bolso. E não se mexe senão eu atiro!

A cabeça girava. Fiquei mil vezes mais míope. Não resisti e olhei para trás. Chorava feito uma Yara. Um minuto? Trinta segundos? Não sei precisar. O tempo é só uma roda gigante onde o sol, os satélites e as crianças brincam de esconde-esconde. Nesses momentos, a gente só fica com medo de morrer. De ver a vida se esvair numa manhã de chuva fina. Depois de ter ido ao cardiologista e ele dizer que está tudo bem com minha pressão, que eu posso continuar com minha prática de arte marcial, que é mito a história de que engasgar constantemente é indício de infarto e que seria bom se eu ao menos diminuísse o número de cigarros, porque isso fatalmente poderá me levar a uma doença coronariana num breve futuro.

Não foi revolta ou indignação o que tomou conta de mim nas horas que vieram depois. É mais um sentimento de vazio. Um abandono das coisas boas do mundo que perdem qualquer impacto. É como se ficássemos vendo a vida em preto e branco. Chega a dar para ouvir o estampido da bala antes dela atravessar o pensamento de que está tudo bem, não foi nada grave, a vida continua, aparelho de celular é algo que se recupera. Só demora mais a gente recuperar o sentimento de que não está só, de que as pessoas às vezes se esforçam muito para serem abjetas e despertam sensações ruins e sentimentos de medo, ódio, revanche. O cara foi embora xingando e fazendo ironias. Cheio de coragem por trás de uma arma. Quanto a mim, sigo juntando os caquinhos, buscando os gizes de cera da minha infância para tornar os dias mais brandos.

Publicado originalmente hoje no Novo Jornal.


segunda-feira, 2 de março de 2015

como um dia comum se transforma num dia lindo mesmo sem deixar de ser só um dia


Dia bom.
A noite chega amargando os olhos de sono. 
Os olhos deitam num cansaço sem ressentimentos porque o dia foi bom.
Cinco e 29 ele me desperta. Só consigo me desvencilhar do aconchego do meu colchão às cinco e quarenta e sete. Esqueço os minutos e vou passear com meus bichos amados. Eles gostam, eu também. Um café preto rápido com um pão branco com requeijão. Simples assim.

Então, tomo a decisão de tecer um fio de simplicidade para todo o resto do dia. Digo ao homenzinho da Besta, Seu Bira, "muito obrigada" várias vezes porque ele é uma pessoa muito gentil. E ele retruca: "se eu não gostar mais do que faço, eu vou fazer outra coisa". Então eu penso em mim mesma. Penso no quanto gosto do que faço, apesar de.

Gentileza gera uma brisa dentro da gente. E teve algumas horas que resolvi ligar o ventilador. Uma senhora passou, bem vestida, elegante mesmo e eu disse! Uma outra estava cheirosa e eu disse! A outra tinha os traços mais finos e harmoniosos que eu vi nos últimos tempos e eu disse! Todo mundo sorriu, e aquela chuvinha que deu de manhã regou meu coração de uma satisfação que só se explica quando você dá alguma coisa, sem necessidade de troco.

Gosto quando escancaro a janela da inibição e digo coisas que eu penso sobre os outros. Especialmente coisas que são boas, que ferem somente o comedimento que eu sinto que as pessoas têm de um modo geral para elogiar, aplaudir, reconhecer, admirar. As moças eram mesmo muito bonitas, precisavam saber disso.

O dia foi bom porque não teve nada de extraordinário. Nem alto nem baixo. Não teve tanto calor e não choveu para alagar as ruas.

Mas, se isso voltar a acontecer - e eu sei que vai - que o dia seja bom, como tiver de ser.

PS.: amanhã vai sair no Novo Jornal um texto um pouco triste sobre algo muito ruim que vivi semana passada. estou no processo de elaboração, tentando esquecer para não lembrar tanto. vai parecer discrepante, por isso a explicação. é que vivi e escrevi o outro texto, antes desse aqui.