Google+ Followers

terça-feira, 3 de março de 2015

Preto e branco



O chamado saiu da boca junto com o gesto brusco:

- Ei!

- Oi?

Nesse momento, me dei conta de que a pessoa que andava perto de mim na ladeira, numa das ruas de Petrópolis, usando uma camisa de um time de futebol, boné azul, calça jeans, aproximadamente 30 anos, baixa estatura, nariz afilado e feições infantis que lembravam ainda o menino que ele fora um dia, protagonizaria um dos momentos mais traumatizantes da minha vida até agora. Tirou a arma da cintura, mostrando-me e ordenou:

- Não tente correr, não faça nenhum movimento e abre a bolsa.

Fiquei estranhamente calma. Falava baixo. Abri a bolsa devagar e resistência. Pensei comigo, vou entregar o celular "pebinha" e tento livrar o outro que me custou 529 dólares e estava no bolso.

- Eu não tenho dinheiro moço! Posso lhe mostrar a carteira, se quiser ver. Acabei de passar na farmácia e...

- Cala a boca! Pega esse celular aí que está no bolso. E não se mexe senão eu atiro!

A cabeça girava. Fiquei mil vezes mais míope. Não resisti e olhei para trás. Chorava feito uma Yara. Um minuto? Trinta segundos? Não sei precisar. O tempo é só uma roda gigante onde o sol, os satélites e as crianças brincam de esconde-esconde. Nesses momentos, a gente só fica com medo de morrer. De ver a vida se esvair numa manhã de chuva fina. Depois de ter ido ao cardiologista e ele dizer que está tudo bem com minha pressão, que eu posso continuar com minha prática de arte marcial, que é mito a história de que engasgar constantemente é indício de infarto e que seria bom se eu ao menos diminuísse o número de cigarros, porque isso fatalmente poderá me levar a uma doença coronariana num breve futuro.

Não foi revolta ou indignação o que tomou conta de mim nas horas que vieram depois. É mais um sentimento de vazio. Um abandono das coisas boas do mundo que perdem qualquer impacto. É como se ficássemos vendo a vida em preto e branco. Chega a dar para ouvir o estampido da bala antes dela atravessar o pensamento de que está tudo bem, não foi nada grave, a vida continua, aparelho de celular é algo que se recupera. Só demora mais a gente recuperar o sentimento de que não está só, de que as pessoas às vezes se esforçam muito para serem abjetas e despertam sensações ruins e sentimentos de medo, ódio, revanche. O cara foi embora xingando e fazendo ironias. Cheio de coragem por trás de uma arma. Quanto a mim, sigo juntando os caquinhos, buscando os gizes de cera da minha infância para tornar os dias mais brandos.

Publicado originalmente hoje no Novo Jornal.


Nenhum comentário: