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segunda-feira, 27 de abril de 2015

Será?




na ausência de coisa melhor, foto de Orides Fontela e seus gatos


Os óculos do sujeito estão folgados. Basta um pouco de umidade no rosto e ele sai do lugar, vai para a ponta do nariz, ameaça um mergulho no nada. Se por um acaso ele cair, sem brincadeira, o sujeito estará em maus lençois. Primeiro, não tem dinheiro para uma consulta ou novas lentes e armações. Segundo, para onde olha só vê escuridão.

Tenta aqui acolá acender uma vela, faz um esforço danado para olhar para dentro do olho do sol (esse a quem dão o nome de deus), ensaia uma prece, joga-a aos poucos, depois aos parcos e porcos e nada. Nenhum eco. Silêncio do outro lado. No máximo um rebote fleumático, um "não" colorido de flores murchas é o que lhes oferecem.

O sujeito acorda pela manhã, olha pro mundo do lado de lá da janela e sente vontade de não sentir vontade alguma. Mais e mais uma vez se apercebe que somente a ignorância redime. O sujeito tenta olhar para as orelhas mas dizem que orelhas não são feitas para olhar. São adornos de ouvir e levar bofetes da vida, principalmente, quando essa segunda função se origina dos hipócritas, dos bajulares, dos omissos, dos preguiçosos, dos medíocres, dos espertalhuchos que abundam esses ventos, dos justos que ajustam sua justiça dentro do centro do seu digníssimo cú com acento e assentos de veludo, de preferência.

O sujeito pensa na atriz italiana que não está mais entre nós. No bobó de camarão da vovó que ficou enterrado para sempre porque a velha não dividia as receitas com ninguém. Na criancinha linda e fofinha que colore o facebook e preenche as frustrações e neuroses da mamãezinha. 

O sujeito pensa em si mesmo e se pergunta: o que será que será? (e lembra que um Chico já se perguntou). Será que isso tudo faz nascer algum tipo de estrelinha brilhante no céu? Como é que se faz para se reverter a cena e voltar a acreditar no mundo e passar uma mensagem de amor e esperança? Sorry. Volte outro dia. O sujeito desaprendeu.



terça-feira, 21 de abril de 2015

A função da arte/1



Gisele Bündchen se aposentou semana passada. Foi um deus nos acuda, saiu em tudo quanto foi jornal, saiu no Fantástico e ainda deve reverberar em revistas por algum tempo. Afora o puxavante desmedido que ela levou, na passarela, da amiga e top Fernanda Tavares, não vi nada demais nem de menos no anúncio de sua aposentadoria e seu "último desfile nas passarelas". É inegavelmente uma moça linda, sobreviveu num mundo de muita ralação, concorrência e futilidade, onde só evidenciam o "gramur"; ela soube muito bem usar sua beleza física como um meio de vender produtos, ganhou muito dinheiro com isso; calada é uma poeta e aposto que dentro de alguns meses ela pisará em alguma passarela internacional mesmo "aposentada" porque isso tudo poder ser mais uma jogadinha de marketing e vamos viver nossas vidas porque temos mais o que fazer, pois não?

Falando em vida, semana passada, o escritor uruguaio Eduardo Galeano faleceu. O escritor e tradutor de sua obra para o Brasil, Eric Nepomuceno, disse ao jornal Zero Hora, que o conheceu, em Buenos Aires, em abril de 1973. "A primeira impressão, a memória mais antiga, era e é a de alguém impetuoso, mas ao mesmo tempo cuidadoso, com uma infinita fé na vida e na capacidade humana de refazer a história oficial, contar a história real. Mais tarde, isso se confirmou", diz ele em trecho, levando a entender que a convivência de 40 anos só firmaram os pilares da primeira impressão.

Minha primeira impressão de Galeano, guardo-a há 17 anos. "O Livro dos Abraços", editora L&PM, tradução de Nepomuceno, cujo fragmento que mais me arrebatou o transcrevo: "Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar./ Viajaram para o Sul./ Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando./ Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza./ E quando finalmente conseguiu falar, 'tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!" (A Funçao da Arte/1).

Foi aí que eu me dei ainda mais conta do fascínio pelo mar que conheci ainda pequena, em Natal. E desde então, o mar empresta cor aos meus olhos; sussurra ventos em meus ouvidos; salga meus pensamentos. O mar que nem sempre tenho tempo de me lembrar, que está ali, ao alcance dos meus pés. E que eu espero aprender a ser mais mar, muito antes de chegar à aposentadoria.

(Publicado hoje no Novo Jornal)

domingo, 19 de abril de 2015

Johnny Cash - bird on a wire





Ganhei de presente de aniversário do cara que gosta de canções e é um rinoceronte no meio da estrada.

eu sou o oragotango

terça-feira, 7 de abril de 2015

A senhora ama o que faz?



Queria ser fotógrafa. Mas essa constante necessidade de intimidade com as letras me levou ao jornalismo impresso. Muitas águas rolaram por debaixo desse moinho desde minha entrada na faculdade em 1996. Já vi tanta coisa. Já fiz tanta coisa desde então. Aprendi muito nos primeiros anos, me arrependo de alguns passos trôpegos do início, sobretudo aqueles ligados à arrogância ingênua dos primeiros anos e a sentimentos e companhias que funcionavam como ervas-daninhas no meu caminho. De lá para cá, mantive o sangue no olho, mas agora já sei chorar; aprendi a perceber que ninguém é totalmente herói ou totalmente bandido nessa vida; aperfeiçoo no dia-a-dia a pergunta curta, objetiva e sou inundada de silêncios quando a fonte jorra em mim.

Ser jornalista não me tornou escritora. Ser escritora desde sempre me levou ao Jornalismo. São duas coisas distintas e bonitas e difíceis e exigentes. Não misturo os canais. Somente me deságuo em dúvidas, questionamentos, imperfeições, decepções, aprimoramentos, um dia bom, outros ruins, a vida correndo e eu me reinventando.

Daí, no dia do jornalista, que eu nunca dou pelota, nunca me lembro e não entendo para quê tanto "mimimi" romântico e equivocado (legenda: em meio à crise mundial do jornalismo, aos péssimos salários da categoria, às demissões em massa, à falta de respeito e sensibilidade dos patrões que muito exploram, aos blogueiros chupadores de notícias, financiados pelo poder público, e outras distorções) vou à rua - fazer um frila - para entrevistar um homem que viveu 40 dos 50 anos em circo. Aliás, nasceu em um circo. Há oito anos é palhaço "sem lona", com a cara pintada e as roupas coloridas faz malabares e alguns gracejos no cruzamento de uma rua em Capim Macio, para reverter em renda e alimentar a mulher e seus sete filhos. Faltam-lhe dentes, sobram sorrisos. A pele é curtida do sol e seu discurso de tão simples se mistura com a solidez da terra e a vitalidade do sol. Seu Naldo, o Palhaço Chapeuzinho, é um homem, sobretudo, honrado. Enfrenta o sol, os xingamentos, as amizades e a admiração de alguns com a altivez e resignação. Gentil, encara as "humilhações" da rua como obstáculos, jamais como desistência. Em certo momento, depois que ele começa a confiar em mim e desata a falar de sua vida, os filhos, a esposa "meio índia", a sogra e o cunhado bêbado, ele de chofre me pergunta: "a senhora trabalha aonde?". E eu vou tentando responder, com discrição e timidez de quem não fica à vontade em inverter a situação. E, após descrever um pouco minha trajetória, ele meio que pergunta, meio que conclui: "a senhora ama o que faz, né?".

Sim.