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terça-feira, 21 de abril de 2015

A função da arte/1



Gisele Bündchen se aposentou semana passada. Foi um deus nos acuda, saiu em tudo quanto foi jornal, saiu no Fantástico e ainda deve reverberar em revistas por algum tempo. Afora o puxavante desmedido que ela levou, na passarela, da amiga e top Fernanda Tavares, não vi nada demais nem de menos no anúncio de sua aposentadoria e seu "último desfile nas passarelas". É inegavelmente uma moça linda, sobreviveu num mundo de muita ralação, concorrência e futilidade, onde só evidenciam o "gramur"; ela soube muito bem usar sua beleza física como um meio de vender produtos, ganhou muito dinheiro com isso; calada é uma poeta e aposto que dentro de alguns meses ela pisará em alguma passarela internacional mesmo "aposentada" porque isso tudo poder ser mais uma jogadinha de marketing e vamos viver nossas vidas porque temos mais o que fazer, pois não?

Falando em vida, semana passada, o escritor uruguaio Eduardo Galeano faleceu. O escritor e tradutor de sua obra para o Brasil, Eric Nepomuceno, disse ao jornal Zero Hora, que o conheceu, em Buenos Aires, em abril de 1973. "A primeira impressão, a memória mais antiga, era e é a de alguém impetuoso, mas ao mesmo tempo cuidadoso, com uma infinita fé na vida e na capacidade humana de refazer a história oficial, contar a história real. Mais tarde, isso se confirmou", diz ele em trecho, levando a entender que a convivência de 40 anos só firmaram os pilares da primeira impressão.

Minha primeira impressão de Galeano, guardo-a há 17 anos. "O Livro dos Abraços", editora L&PM, tradução de Nepomuceno, cujo fragmento que mais me arrebatou o transcrevo: "Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar./ Viajaram para o Sul./ Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando./ Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza./ E quando finalmente conseguiu falar, 'tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!" (A Funçao da Arte/1).

Foi aí que eu me dei ainda mais conta do fascínio pelo mar que conheci ainda pequena, em Natal. E desde então, o mar empresta cor aos meus olhos; sussurra ventos em meus ouvidos; salga meus pensamentos. O mar que nem sempre tenho tempo de me lembrar, que está ali, ao alcance dos meus pés. E que eu espero aprender a ser mais mar, muito antes de chegar à aposentadoria.

(Publicado hoje no Novo Jornal)

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