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terça-feira, 7 de abril de 2015

A senhora ama o que faz?



Queria ser fotógrafa. Mas essa constante necessidade de intimidade com as letras me levou ao jornalismo impresso. Muitas águas rolaram por debaixo desse moinho desde minha entrada na faculdade em 1996. Já vi tanta coisa. Já fiz tanta coisa desde então. Aprendi muito nos primeiros anos, me arrependo de alguns passos trôpegos do início, sobretudo aqueles ligados à arrogância ingênua dos primeiros anos e a sentimentos e companhias que funcionavam como ervas-daninhas no meu caminho. De lá para cá, mantive o sangue no olho, mas agora já sei chorar; aprendi a perceber que ninguém é totalmente herói ou totalmente bandido nessa vida; aperfeiçoo no dia-a-dia a pergunta curta, objetiva e sou inundada de silêncios quando a fonte jorra em mim.

Ser jornalista não me tornou escritora. Ser escritora desde sempre me levou ao Jornalismo. São duas coisas distintas e bonitas e difíceis e exigentes. Não misturo os canais. Somente me deságuo em dúvidas, questionamentos, imperfeições, decepções, aprimoramentos, um dia bom, outros ruins, a vida correndo e eu me reinventando.

Daí, no dia do jornalista, que eu nunca dou pelota, nunca me lembro e não entendo para quê tanto "mimimi" romântico e equivocado (legenda: em meio à crise mundial do jornalismo, aos péssimos salários da categoria, às demissões em massa, à falta de respeito e sensibilidade dos patrões que muito exploram, aos blogueiros chupadores de notícias, financiados pelo poder público, e outras distorções) vou à rua - fazer um frila - para entrevistar um homem que viveu 40 dos 50 anos em circo. Aliás, nasceu em um circo. Há oito anos é palhaço "sem lona", com a cara pintada e as roupas coloridas faz malabares e alguns gracejos no cruzamento de uma rua em Capim Macio, para reverter em renda e alimentar a mulher e seus sete filhos. Faltam-lhe dentes, sobram sorrisos. A pele é curtida do sol e seu discurso de tão simples se mistura com a solidez da terra e a vitalidade do sol. Seu Naldo, o Palhaço Chapeuzinho, é um homem, sobretudo, honrado. Enfrenta o sol, os xingamentos, as amizades e a admiração de alguns com a altivez e resignação. Gentil, encara as "humilhações" da rua como obstáculos, jamais como desistência. Em certo momento, depois que ele começa a confiar em mim e desata a falar de sua vida, os filhos, a esposa "meio índia", a sogra e o cunhado bêbado, ele de chofre me pergunta: "a senhora trabalha aonde?". E eu vou tentando responder, com discrição e timidez de quem não fica à vontade em inverter a situação. E, após descrever um pouco minha trajetória, ele meio que pergunta, meio que conclui: "a senhora ama o que faz, né?".

Sim.






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