Google+ Followers

terça-feira, 5 de maio de 2015

Antes do pó que haja a casca



Vivemos numa cultura do "pisar em ovos". Rever mil vezes o que vai dizer, que tipo de brincadeira pode ou não pode, espontaneidade zero, rir alto ou chorar em público nem pensar. E assim, enquanto vamos colocando nossas verdades para debaixo do tapete, represando palavras na garganta, fingindo um sorriso da boca pra fora, os consultórios vão se enchendo de gente que não dorme; gente que desaprende a falar; gente que engorda por compulsão; gente que tem medo de tudo, de barulho, de sombra, de buzina de carro, de multidão; gente que se desconhece no espelho.

Outros aspectos dos nossos costumes atuais que nos levam a manter intacta a casca do ovo e o compromisso zero com o real, e com as pessoas, e com o que elas realmente merecem ouvir de nós é, por exemplo, dizer "tô chegando", quando ainda nem saímos de casa. Dizer, "sim, a gente combina" e sequer fazer uma ligação depois para desconfirmar qualquer coisa que seria um encontro. Eu faço isso, tem gente que faz isso comigo. Assim temos caminhado. Os ovos permanecem intactos. As palavras como pó ao vento.

Com mulher é ainda mais complicado. Com o perdão do trocadilho, homem quebra ovo numa partida de futebol. Grita, geme, esbraveja, diz palavrão. Transforma as frustrações do dia-a-dia em xingamentos com os pernas-de-pau. Se mulher grita, esbraveja, se revolta, diz palavrão é porque "é mal amada", "mal comida", "está na TPM". Está sempre sujeita a uma sorte de aforismos machistas. Ou então, para se valer dos mesmos direitos, se força a eleger um time do coração, vai para o estádio e faz a mesma coisa, quebra a casca, usando os ovos dos outros.

Pois fica aqui minha sugestão: enfiemos de quando em vez o pé na casca! Sintamos os ovos se esfacelando por debaixo dos nossos pisantes. A gosma da gema e da clara se espalhando, se derramando, para que não cozinhemos em fogo brando uma úlcera nos nossos estômagos. E isso não tem nada a ver com quebrar vidraças ou botar o dedo na ferida dos outros. Quebrar os ovos é manter a dignidade, é olhar no olho do outro sem falsidades, sem subterfúgios.

Em tempos de vantagens para tão poucos, enquanto a grande maioria se sente em desvantagem vertiginosa, indignada, perdida e equivocada, que ao menos nossas verdades sejam postas à mesa.

Nenhum comentário: