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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Decúbito Ventral



A caminho do trabalho, ontem, vi um homem deitado por sobre papelões no vão do túnel ali nas imediações do Campus da UFRN. Ao longe, a primeira reação foi de medo. Nem mesmo sabia do que se tratava, se era um cachorro, se era uma pessoa, se era um amontoado de lixo. Mas era um homem. Estirado de barriga para baixo (aí lembro que meu compadre Baiano me ensinou uma vez que é "decúbito ventral") ele estava inerte num sono fincado no asfalto negro e sem estrelas. A camisa estilo polo envolta na cabeça impedia que víssemos seu rosto. Não parecia bêbado. Estava arrumado demais para tanto. Não descansava ao seu lado qualquer resquício de ressaca. Passei ao lado pé ante pé, sem me dar conta que o ruído dos motores abafaria meu comedimento e minha vergonha.

Não consigo ficar indiferente ao abandono das ruas, seja de bicho ou de gente. Com gente é até mais fácil porque, no pior das hipóteses, as pessoas falam, gritam, pedem, imploram e até mesmo, roubam para sobreviver. Animais têm fome, sede e frio e, sobretudo, medo de gente, porque gente machuca ou quando não, ignora. Não fiz o que meu coração pedia: perguntar se ele precisava de alguma coisa. O que seria, por si só, uma pergunta retórica e ridícula. Ninguém dorme no vão de um túnel barulhento e poluído se não estiver precisando de algo. Todos precisamos de algo. Segui meu caminho murcha de vergonha.

Por onde ando, vejo animais abandonados, principalmente gatos. Muitos ignoram. Poucos exercitam a compaixão e vão mais além e se comprometem com adoção, alimentação, castração. Fazem em minoria o que o Poder Público ignora. Resgatam alguns, conseguem famílias adotantes, enquanto milhares se multiplicam à mercê do abandono. E antes que alguém fale que é fácil criticar, tenho três resgatados e já ajudei a encontrar um lar para alguns outros que cruzaram meu caminho. Faço o que posso, mas não o que gostaria.

Em tempos de amores líquidos, selfies e curtidas, a dor do outro é invisível. Afundamos os corpos em unguentos, exercícios, plásticas e a alma flutua por sobre a multidão de risos e prazeres que perdem o sentido no próximo post. É proibido ter problemas. E melhor não dar muita pelota para os problemas dos outros, porque você já paga impostos. Pensando bem é melhor também ignorar o homem deitado no chão; desconhecer sua dor, seus fracassos, suas fraquezas, arrastar a curiosidade e a compaixão para um lugar seguro e longe daquela exposição que incomoda, principalmente, porque afeta uma parte inerente a todos nós, não importa onde estamos ou quem somos: nossa humanidade.

 (Texto publicado ontem no Novo Jornal)


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