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terça-feira, 12 de maio de 2015

O real me comove


A moça tem uma voz potente. Entoa canções do México e Colômbia. Envolve a todos dentro do ônibus. Toca um instrumento pequeno, da família dos violões, cujo nome me foge agora. Faz calor, está lotado. Mas, a maioria das pessoas preserva um sorriso no rosto. A música tem dessas coisas. Sinto uma emoção cálida. Dá vontade de chorar. A garotinha no colo da mãe tenta ver quem está cantando, mas é muito pequena para ultrapassar todos aqueles gigantes. Olha para mim meio confusa. Franze o cenho, bota uma língua rápida para fora. Tenho vontade de fazer o mesmo. De estabelecer com ela uma pantomima infantil. Recuo. Têm adultos demais no recinto. Posso ser mal interpretada. Então, apenas sorrio de volta para ela e ela me bota meio palmo de língua de novo para fora. E fica me olhando fixamente até eu sentir uma certa vergonha de ser adulta, de estar esbaforida e com uma imensa vontade de chorar de emoção porque a moça de sotaque hispânico canta no ônibus e eu penso que a arte ainda pode trazer algum tipo de redenção para a vida afora.

Por agora, dependo desses pequenos momentos para me desligar das notícias feias, tristes, dos atos ilícitos, das injustiças, da falta de esperança, da indiferença, da economia em crise, da política corrupta, dos jornais da Globo, dos despolitizados sem noção que falam tanta bobagem por aí. Agarro-me às respostas mais imediatas do mundo; coisas que, quando estamos muito felizes ou eufóricos, nos passam despercebidas, porque a felicidade traz um certo alheamento. Nem desastres, nem tragédias nos tiram o sorriso largo do rosto. Sou muito mais o estado de espírito de agradecimento do que de felicidade.

Aquela moça cantante do ônibus acelerou meu coração de lata. Uma moça de cabelos cheios de drads, olhos verdes faiscantes, uma tez bronzeada de sol e sal, uma saia rodada e dona de um carisma que fazia todos aplaudirem e pedirem bis para suas músicas folclóricas. Não passou o chapéu. Ao final, pediu moedas aos passageiros, num saquinho preto, pequeno, que não cabia uma mão dentro. Uma moça que troca seu talento por pequenas moedas. Uma moça que parecia inteira e satisfeita dentro do real, derretendo o aço galvanizado dos nossos dias de pressa, calor, ônibus apertado, salários mínimos, das notícias feias, tristes, dos atos ilícitos, das injustiças, da falta de esperança, da indiferença, da economia em crise, da política corrupta, dos jornais da Globo, dos despolitizados sem noção que falam tanta bobagem por aí.

Sou devota do real. Não bebo para falar o que penso. Prefiro correr o risco de alguém se assustar quando me pergunta se está tudo bem e eu respondo que não, do que o abismo das ilusões das palavras sem destino. Mas me garanto nas intenções, me comprometo com as mudanças, sobretudo as que partem de dentro. Sou grata, por primeiro e por derradeiro.

Publicado hoje no Novo Jornal

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