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terça-feira, 16 de junho de 2015

Jardim sem flores






O café é bom e o preço honesto, o dono, um gringo que não sei exatamente de onde veio é uma simpatia, o menino que atende na banca também. Sempre passo lá nas quintas-feiras. Compro umas revistas, folheio outras, peço um café. Ontem não teria sido diferente não fosse uma cena que tem se tornado cada vez mais corriqueira nessas terras debaixo do sol: a exibição histérica dos pseudo-playboys. Eram uns seis sentados na mesa ao lado. Mulher, sexo e carro os temas da conversa. Mulher como objeto e sempre chamada de "doidinha"; sexo como uma prática de afirmação psicológica compensadora do tamanho inversamente proporcional do... cérebro; e carro como representação de status. "Rapaz, eu ía comprando aquele carro. Mas aí comprei esse por R$ 200 mil e foi muito melhor". Dava para ouvir o blábláblá exibicionista porque eles não conversavam, gritavam. Era como se o mundo todo fosse obrigado a ouvir aquele solilóquio coletivo, porque todos falavam ao mesmo tempo e pareciam não ouvir nem se interessar, de fato, pelo que os outros tinham a dizer. Até aí, a gente abstrai, canta pra subir. A leitura do meu livro era tão interessante que em dado momento a gritaria vazia tinha o mesmo impacto da buzina dos carros.

Então, de repente, dou um salto no banquinho desdentado com um barulho ensurdecedor que me parecia um tiro, ao ponto de acelerar meu coração e eu imaginar que havia sido ferida gravemente senão no coração ao menos nos tímpanos. Mas era um rojão desses que enchem o saco nesse período de São João, que um deles soltou de propósito bem atrás de mim, no pequeno jardim sem flores do canteiro. Os seis riram da minha cara de assustada por cerca de um minuto. Riram até se cansar. Riram porque não têm mais nada a oferecer ao mundo senão o riso néscio da falta de significado para a vida lotada de temas como mulher, carro e sexo.

E eu, mordi com força a fruta madura que descansa por entre meus dentes e "vociferei", em tom baixo, quase labial, olhando para cada um deles: "imbecis". Exageros a parte, olhando bem para aqueles bombadinhos, certamente, poderia ter idade para ser mãe de um deles. E aí, pensei na mãe deles. No pai deles. Nos avós. No trilho de educação familiar porque passam esses sujeitos que se acreditam donos do mundo, donos da rua, dos carros, das mulheres e do dinheiro; donos dos professores que tentam ensinar alguma coisa para eles; donos das empregadas domésticas assediadas; donos dos abortos feitos em clínicas chiques; donos do cartão de crédito da mamãe; donos dos latifúndios herdados das capitanias hereditárias; donos dos bancos dos canteiros centrais de uma banca de jornal; donos de jardins sem flores, descuidados e abarrotados de ervas-aninhas.


Texto publicado hoje, 16, no Novo Jornal


domingo, 14 de junho de 2015

Primeiro amor





Ela me chega agitando as mãos animada a dizer que “amanhã é feriado, êbaaa”. E eu penso por dois segundos e continuo sem entender tanta animação. E ela diz, “é primeiro de maio!”. Mas, não é. É primeiro de junho e o feriado só será dali a três dias. As informações do cotidiano têm de ser ditas umas dez vezes seguidas, sem exageros. Mesmo assim, ainda corre-se o risco de não ser bem compreendido. É como se houvesse sempre uma cortina de voal entre o que ela vê e ouve; basta um segundo para o que é lógico e racional se transformar numa distração ou fantasia. Às vezes o mundo dela se embaralha todo e ela se perde por entre as lembranças da infância e se esquece que a água do café está fervendo.   

O tempo não está passando somente pelos sulcos do seu rosto, manchando a pele de suas mãos com “ceratose actínica” e comprometendo a dobradiça dos dedos e joelhos. O tempo está enferrujando também a memória recente e alguns mecanismos de cognição. Só mantém intacta a doçura e está intensificando um alumbramento que encontro consonância nos olhos de Laurinha, sua “neta” por osmose (neta da minha tia, irmã dela) e por um amor que tem se instalado de uma maneira que eu penso que ambas, a primeira com mais de setenta, e a segunda com sete meses, têm um pacto com a inocência, essa “menina” que faz das coisas do mundo uma constante (re)descoberta da vida.   

É preciso ser forte para abrir mão da própria inocência quando estamos diante da velhice dos nossos pais. É preciso abrir mão também da exigência da proteção e dos cuidados que outrora usufruímos, para assumirmos o papel de orientadores, provedores, condutores. Invertemos a forma de como pegamos na mão ao atravessar a rua. Checamos se está tomando os remédios na hora e corretamente; às vezes escolhemos as roupas e até mesmo nos sufocamos numa angústia incalculável porque o quarto está muito silencioso pela manhã. “Será que ela está respirando?”.   

Não é fácil e nem sempre poético cuidar de alguém que, invariavelmente, começa a se despedir de determinadas obrigações com a vida. Somos forçados a olhar para nossa própria finitude e nossas limitações diante do inevitável. Mas não tenho medo do porvir. Tomei algumas decisões há algum tempo: a primeira delas, não importa o quanto esteja cansada ou irritada ou ocupada, sempre temos um abraço e um beijo de boa noite; me perdoo quando perco a paciência porque não quero cultuar culpa cristã ou sacralizar uma relação que é tão humana, com todas suas implicações; e amo e cuido, sobretudo, com a fidelidade de um cão e a liberdade de um gato. Sou filha, por derradeiro, ela é mãe por primeiro. 

Texto publicado no Novo Jornal 9 de junho