Google+ Followers

domingo, 14 de junho de 2015

Primeiro amor





Ela me chega agitando as mãos animada a dizer que “amanhã é feriado, êbaaa”. E eu penso por dois segundos e continuo sem entender tanta animação. E ela diz, “é primeiro de maio!”. Mas, não é. É primeiro de junho e o feriado só será dali a três dias. As informações do cotidiano têm de ser ditas umas dez vezes seguidas, sem exageros. Mesmo assim, ainda corre-se o risco de não ser bem compreendido. É como se houvesse sempre uma cortina de voal entre o que ela vê e ouve; basta um segundo para o que é lógico e racional se transformar numa distração ou fantasia. Às vezes o mundo dela se embaralha todo e ela se perde por entre as lembranças da infância e se esquece que a água do café está fervendo.   

O tempo não está passando somente pelos sulcos do seu rosto, manchando a pele de suas mãos com “ceratose actínica” e comprometendo a dobradiça dos dedos e joelhos. O tempo está enferrujando também a memória recente e alguns mecanismos de cognição. Só mantém intacta a doçura e está intensificando um alumbramento que encontro consonância nos olhos de Laurinha, sua “neta” por osmose (neta da minha tia, irmã dela) e por um amor que tem se instalado de uma maneira que eu penso que ambas, a primeira com mais de setenta, e a segunda com sete meses, têm um pacto com a inocência, essa “menina” que faz das coisas do mundo uma constante (re)descoberta da vida.   

É preciso ser forte para abrir mão da própria inocência quando estamos diante da velhice dos nossos pais. É preciso abrir mão também da exigência da proteção e dos cuidados que outrora usufruímos, para assumirmos o papel de orientadores, provedores, condutores. Invertemos a forma de como pegamos na mão ao atravessar a rua. Checamos se está tomando os remédios na hora e corretamente; às vezes escolhemos as roupas e até mesmo nos sufocamos numa angústia incalculável porque o quarto está muito silencioso pela manhã. “Será que ela está respirando?”.   

Não é fácil e nem sempre poético cuidar de alguém que, invariavelmente, começa a se despedir de determinadas obrigações com a vida. Somos forçados a olhar para nossa própria finitude e nossas limitações diante do inevitável. Mas não tenho medo do porvir. Tomei algumas decisões há algum tempo: a primeira delas, não importa o quanto esteja cansada ou irritada ou ocupada, sempre temos um abraço e um beijo de boa noite; me perdoo quando perco a paciência porque não quero cultuar culpa cristã ou sacralizar uma relação que é tão humana, com todas suas implicações; e amo e cuido, sobretudo, com a fidelidade de um cão e a liberdade de um gato. Sou filha, por derradeiro, ela é mãe por primeiro. 

Texto publicado no Novo Jornal 9 de junho


Nenhum comentário: