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terça-feira, 28 de julho de 2015

A importância dos galos



Cinco mulheres foram assassinadas em Itajá semana passada. Dias antes, 146 galos usados em rinhas foram apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal e abatidos pelo Ibama. Qual a relação entre uma coisa e outra? A importância que foi dada aos dois fatos. Vi e li mais destaque e polêmica jornalística sobre o abate dos galos do que pela morte das mulheres entre 17 e 37 anos, chacinadas em um bordel na pequena cidade do interior. Ok, os galos mereciam uma quarentena, antes do abate? E as mulheres? O que elas mereciam? Assisti a um papangu desses que apresentam programas policiais sensacionalistas na TV local noticiando a chacina, meio constrangido em defendê-las porque, afinal de contas, elas eram putas!

Muitas vezes, o machismo é sutil e escorre pela língua das próprias mulheres quando dizem que preferem trabalhar com homens, porque as mulheres são “astuciosas e complicadas”; quando seus maridos dão em cima de suas amigas e a culpa é sempre delas, porque as mulheres são “inimigas e concorrentes” umas das outras. Quando mulheres ainda se submetem a práticas nada católicas de dividirem seus lençóis com chefes em busca de “recompensas” e aprovação masculina.

Noutras vezes, o machismo vem direto como uma bala na cabeça. Executa o direito de existir. Executa o direito de dar por dinheiro abertamente, sem subterfúgios ou hipocrisias e isso não ter que causar constrangimentos aos apresentadores de televisão. Nem abalar as queridas donas de casa que não conseguem alcançar que o massacre às mulheres está mais próximo do que possam medir, envoltas numa fumaça espessa de rivalidade. Mulheres donas de casa também são assassinadas pelos seus maridos porque eles não queriam se separar ou porque eles não aceitavam que elas refizessem suas vidas após o fim do casamento.

De uma maneira ou de outra, se compactuarmos com esse machismo obstinado, seremos todas “Genis” em algum momento de nossas vidas. E o que mais me dói não é a pedra que vem do outro lado do muro. O que me entorta é ver que ainda não conseguimos perceber o quão precisamos nos abraçar e nos acolher umas às outras.

Porque, no fundo no fundo, somos todas muito parecidas. Rachadas ao meio, temos uma ruptura na superfície que nos permite levar o mundo para dentro e botar filhos no mundo. E se não quisermos botar filhos no mundo, que sejamos respeitadas por essa escolha. E se não quisermos aprender a cozinhar, que ninguém nos enxergue como incompletas. Porque somos mulheres, filhas, irmãs, amigas, todas, sem distinção, ainda muito vítimas. E menos importantes que os galos.

Publicado dia desses no Novo Jornal

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