Google+ Followers

terça-feira, 14 de julho de 2015

Aguardando as borboletas




Nos conhecemos na área comum do lugar onde moramos. Ela é pequenina, de gestos delicados, preserva um olhar atento e um pouco triste e nenhum resquício de luta corporal contra o tempo que lhe cai sobre os ombros, como um rio que inevitavelmente sabe o caminho do mar. Sempre que conversamos, por mais que seja furtivamente, ela me prova que doçura não é para qualquer um. É preciso nascer sob a égide da substância, da resignação e da humildade. Em tempos de tanta virulência, pessoas querendo ter razão e, em nome dessa razão, passando por cima dos outros, ela deixa na gente um pedaço de qualquer coisa que lembra esperança na humanidade.

Dona Dinha construiu ao longo da vida uma constelação de pessoas: primeiro seu José, depois sua filha Kátia e seu "bebê" Rogério que, aos 20 anos teve que ser alçado rapidamente aos céus, após um trágico acidente de carro. Dona Dinha tem um apelido dentro do diminutivo de seu nome. Mas não há nada de diminuitivo nela, que abraça a vida com força, carinho e respeito, até mesmo pelas coisas ruins. Porque, cá para nós, ninguém lida muito bem com a morte de uma estrela. 

Dona Dinha perdeu um filho. Dona Dinha não esquece disso, mesmo já tendo se passado mais de 20 anos. Quando toca nesse assunto é como se ela ficasse mais miúda e pendurada na borda do mundo, indefesa e correndo perigo de cair no abismo das coisas incompreensíveis desta terra como, por exemplo, uma mãe e um pai perderem um filho.

Mas muito rápido, ela volta ao equilíbrio, finca-se de pé e resoluta porque não esquece dos que estão vivos e que a vida guarda suas perfeições principalmente nos que se foram. Quem permanece precisa ser cuidado, consertado e amado ainda mais. Não esquece da casa que tem de ar-rumar, da alquimia da cozinha, do amor que transborda pelo marido que ela chama de "meu José" e a filha e as netas. Dona Dinha diz que quando é inevitável lembrar da dor prefere sofrer em silêncio. Fica assim quietinha, põe a mão direita amparando o coração e reza, reza, reza até cochilar. E quando diz isso, a gente quase pode tocar na mansidão que se instala nos seus olhos. Dona Dinha vai voltar para sua terra. Lá no Acre. Por isso, eu acho que esse texto é um “até logo” para ela. Porque dela nunca vou querer me despedir por definitivo.

Estávamos em mais um dos nossos encontros casuais em nossa morada quando, através dela me veio uma das forças mais eficazes para os tempos difíceis que estou passando. Ela me disse: "tenha paciência minha filha, o seu jardim já é florido, agora você precisa esperar só um pouquinho que logo chegam as borboletas". E ela não sabia que, ali, naquele momento, eu estava diante de uma delas.

Texto publicado hoje no Novo Jornal

Nenhum comentário: