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terça-feira, 25 de agosto de 2015

* Sobre tempo e delicadeza



Parece desculpa esfarrapada dizer que não se tem tempo. Mas é verdade, vivemos sem tempo. Até quem não tem nada para fazer, acaba ficando sem tempo, porque deixou o tempo passar aboletado no sofá assistindo a sessão da tarde. O tempo sempre foi matéria filosófica e poética. O tempo é um velho senhor jovem menino ainda nem nascido que nos acorrenta e nos leva para todos os lugares que nos habitam, antes mesmo de o sabermos. Mas, enfim, minha cota poética se encerra por aqui porque, de fato, quero mesmo é falar sobre como administramos o tempo. E, de como às vezes, nos esquecemos de pequenos gestos de delicadeza nesse tempo que nos resta e não sabemos até quando.

O tempo é mais didático nas tempestades da vida. Em momentos ruins reaprendemos a rezar. O fim do tempo de alguém é o nascimento de reflexões e até mesmo de arrependimentos de terceiros. Vivemos tempos violentos. Hoje em dia, o momento de espera para abrir o semáforo se transforma num estampido de bala que rasga e fere mortalmente o tempo de alguém. As mulheres ainda vivem num tempo em que homens usam a força e a brutalidade para executar um gozo insano, egoísta e aterrador de oito segundos. E eu penso: qual o preço que se paga por tanta violência, crueldade e ódio? Em pleno século XXI arrastamos tanto tempo nas costas e ainda não somos capazes de evitar os estilhaços de uma discussão nas redes sociais, de nos impedir um desentendimento durante o café da manhã, uma briga de socos na rua, de um ato de corrupção, de um crime brutal contra a vida. Nos desperdiçamos e não nos saramos enquanto o tempo esse menino recém-nascido velho ancião se ri de nós.

Pode parecer tolice o que vou dizer agora. Mas, se alguém me perguntasse quanto tempo mais eu desejaria para viver, ficaria num estado parecido com aquele em que ouvimos uma boa música e tão absortos não conseguimos dizer o que sentimos. Mas sei que gostaria de fazer mais do meu tempo momentos de delicadeza, de perdão, de autoconhecimento, de tolerância com o que não é espelho. Momentos de com-preensão, não de discórdia. Não para ser boazinha ou qualquer coisa que o valha. Sim para ser uma pessoa consciente de que o tempo é indiferente a mim, no entanto, eu não posso dizer o mesmo dele.

Essa semana foi especialmente didática para mim. O tempo passou dentro de fragmentos que couberam exatamente e somente no presente. Tive tempo. Ganhei tempo. Refiz o tempo. Esqueci do futuro, esse ente dono de tudo, onde tudo cabe, mas que, de fato, não passa de um sonho ou de uma promessa.

Publicado hoje no Novo Jornal

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Medo de assombração





Dia desses inventei de ver um trailler de um filme de horror que será lançado em breve. Enquanto escrevo, me esforço para lembrar do nome do filme (Goodnight Mommy, eu acho), é alemão, mas a tradução estava em inglês. Mas, o padrão da música e as imagens, no mínimo estranhas, não me saem da cabeça. É dia, eu penso. Daqui a pouco me distraio e esqueço dessas bostas de imagens. Problema, eu sei, é que mais tarde, quando a noite chegar, quando eu estiver lendo meu livro (o da vez é "Os verbos auxiliares do coração", de Péter Esterházy) na minha cama, só sob a luz da luminária amarela, que deixa o quarto num silêncio abafado de sombras, eu vou me lembrar com riqueza de detalhes das imagens e, sobretudo, das sensações que aquela música me causaram e aqueles meninos gêmeos e aquela mulher com a cara toda enfaixada e vou sentir medo. E vou entrelaçar com medos da infância. E vou me lembrar de um defunto qualquer que eu vi ainda menina dentro do caixão e suas meias brancas e o pé frio, porque na minha infância a gente pegava no pé frio do defunto para ele não vir assombrar a gente. E me lembrarei também da música que me aterrorizava "A velha debaixo da cama, a velha criava um cachorro" e de pequenos flashs de filmes de terror tipo O Exorcista ou A Hora do Pesadelo e a cara perebenta do Freddy Krueger ou do boneco Chucky e vou sentir medo. (Sou vintage nas referências dos filmes de terror porque só os assisti há mais de 30 anos).

O medo de assombração é como chuva fina que vai tomando corpo e, quando menos se imagina, vira uma enxurrada. Primeiro uma sensação estranha de não estar só. Depois, de que algo abafa os pensamentos bonitinhos de borboletas voando no meio do jardim, e aí pode partir para uma respiração entrecortada ou até mesmo uma taquicardia e um sobressalto que arrepia o corpo por dentro. Medo é uma sensação incrivelmente interligada com nosso estado de espírito. Sentimos medo quando não temos controle sobre o que se apresenta à nossa frente, nem que isso seja meramente fruto de nossa imaginação. E, geralmente é. Com exceção de quando você fica diante de um sugeito que põe uma arma na sua cabeça e te pede a porcaria do celular. Dá que um medo que gela, paralisa, ficamos obedientes feito pôneis adestrados.

Há quem tenha medo de aglomerações de pessoas, de amar, de viver, de avião. Eu já tive um tiquinho de muitos medos. Tenho mais medo agora de fenômenos digamos mais concretos como a fome, a seca, a ignorância vigente, o jornalismo, a Justiça, as passagens de ônibus, não ter dinheiro para pagar as contas do mês.


Quem quiser ver o trailler de Goodnight Mommy AQUI

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Orgulho & preconceito



Morro de vergonha de fumar. Também sinto um orgulho danado da minha "coragem" de fazer algo que as pessoas torcem tanto - literalmente - o nariz. Fumar tornou-se uma prática extremamente criticável pelos outros. Você pode ser super bem sucedido; pode resgatar bichinhos na rua, pode ler muito além da média nacional; financiar projetos filantrópicos que cuidam de crianças com câncer (mesmo que ninguém saiba, porque você faz isso e não quer que os outros saibam); pode cultivar begônias no jardim; ler para cegos no Instituto dos Cegos; pode até ser um forte candidato a substituto de Madre Tereza de Calcutá mas, se você fumar é uma pessoa execrável. Fumar é mais grave do que não acreditar em Deus, em alguns casos. E, só lembrando, não tenho nada contra em quem acredita ou quem não acredita em Deus. 

Geralmente, o cigarro me acompanha nos momentos difíceis. Pode parecer algo egoísta, mas não há melhor companhia para me encarar nos momentos de ansiedade e de aflição. Fumar deixa mal cheiro, é verdade. Mas, esse lance de dizer que a gente vai morrer porque fuma, infelizmente, só funciona quando a gente vai realmente morrer porque fuma. Antes, nêgo véio, não adianta de nada dizer. Só dá uma raiva e uma certa solidão de ser apontado pelo erro de fumar por alguém que não fuma mas está encoberto por uma fumaça de arrogância em não perceber  os próprios defeitos. E, logo, por ter defeitos (nossa, quem não?) não deveria apontar com tanta rapidez o defeito dos outros né?

Conheço gente que odeia cigarro, mas não abre mão de pelos menos dois porres por final de semana. E está longe de se admitir uma pessoal socialmente dependente do álcool para se divertir, mas está lá, metendo o dedo na ferida dos pulmões dos fumantes. Conheço gente que não fuma mas come feito um esmeril da França, sem nenhum critério do que está botando para dentro do estômago e das carótidas. Conheço gente que se acha melhor que gente que fuma mas peida dentro do elevador, faz chapinha no cabelo. E muito pior, trai, desvia dinheiro público, etc. 

De maneira que, na boa, antes de apontar o dedinho para nossos medos ou coragens, vamos dar uma olhadinha em volta de si mesmo né? Se não encontrar qualquer resquício de fogo ou fumaça de defeito, pode tentar apagar o meu cigarro.

Aparências - Coca-Cola (Legendado)