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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Sobre cartas



Um amigo precioso me disse pelo whatsapp que vai me mandar pelos Correios umas coisas para mim. De pronto foi um choque porque afinal de contas nos falamos quase todos os dias por algum desses mecanismos modernos de comunicação, ele trabalha a poucos minutos do meu trabalho o que, em princípio, facilitaria uma aproximação real e até mesmo a entrega dos mimos pessoalmente. 

Olhando mais atentamente para meu espanto, foi um choque porque tenho reparado que as pessoas de um modo geral raramente têm recebido correspondências pessoais atualmente. O que chega - muitas vezes com atraso - são contas a pagar. Então eu fiquei a divagar sobre o tempo que ele desprendeu para fazer a correspondência e, tomara, que dentro do pacote venha ao menos um bilhete escrito a próprio punho. 

Como sou vintage, vivi um tempo e que escrevíamos e enviávamos cartas. Para quem tem menos de 25 anos isso parece uma coisa muito antiga, mas não é. E, embora não seja adepta ao saudosismo vazio dos que resistem ao mundo tecnológico que, convenhamos, facilitou muito a nossa vida em termos de agilidade e tempo, a internet nos aprisiona num mundo de urgências, de res-postas rápidas e curtas, da falta da caligrafia, da ausência da tinta e dos borrões ocasionados por eventuais erros ortográficos que cometíamos na intimidade da caneta e do papel.

Quem escreve uma carta não envia somente uma mensagem, oferece um rastro de consideração a quem recebe. É um tempo de dedicação, do desenho da letra ao empenho do recado. Hoje em dia, parar para escrever uma carta para alguém, como tantas outras atividades fadadas à extinção, é sem dúvida um ato de amor.

Quando eu era adolescente e já estudava aqui em Natal, nas férias ia para casa no interior. Numa dessas, um amigo me manda um pacote: era o livro emprestado "Retrato do Artista Quando Jovem", de James Joyce. Na cartinha emoldura-da por alguns desenhos psicodélicos (desenhar em cartas é amor redobrado) uma frase se destacava: "Cara amiga, entre galinhas patos e porcos aí no seu interior, leia e cresça!". Foi outro choque: “Vou te dizer o que farei e o que não farei. Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se isso o meu lar, a minha pátria, ou a minha igreja; e vou tentar exprimir-me por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo tão completo quanto possa, empregando para a minha defesa apenas as armas que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza”. (Trecho do livro). Cartas, livros, amigos. Não fossem eles, como se daria nosso crescimento?

Publicado originalmente no Novo Jornal

terça-feira, 8 de setembro de 2015

mais mar

arte de Khaled Yeslam



- menina, sai dessa água. você vai desmanchar de tanto banho. os dedos já estão engelhados.

minha mãe falava isso todas as vezes que eu ía para o mar. eu queria mais mar. eu queria que as ondas me embalassem até eu fazer xixi de tanta emoção. eu queria beber um pouco daquela água salgadíssima. queria ficar com os cabelos duros de sal. queria que o vento e o sol me secassem para eu mergulhar de novo.

quando eu vi a imagem do pequeno sírio, Aylan Kurdi, na praia de Bodrum, na Turquia, a primeira sensação que tive foi a mesma que sentia na infância. lembrei das recomendações de mamãe e pensei que o menino só queria mais mar. talvez mecanismos de fuga para não encarar logo de cara tamanha violência de uma imagem de ver uma pequena criança com a cara enfiada na areia, mortinho, durinho, estendido no chão. quem é que está preparado para ver uma coisa dessas?

estamos mais preparados para ver as guerras afogadas no petróleo da síria, afeganistão, líbano. estamos acostumados a ver cidades inteiras em escombros; refugiados em horda pela Europa, pedindo arrego. e eu penso: se ainda temos capacidade para nos chocar com essa violência do pequeno Aylan, por que não nos inquietamos com a causa dessa morte? que se anunciou bem antes do afogamento no pequeno bote. essa merda de guerra. essa vontade grande de pequenos homens de dominar o mundo? 

eu quero mais mar. eu quero engelhar meus dedos na paz. eu quero que meus olhos fiquem salgados, não de lágrimas. e você? o que quer?

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sobre espaço, poeira e mudan



(imagem ilustrativa tirada da internet)


Todo mundo que já viveu uma mudança sabe que é uma experiência memorável. É preciso descartar coisas, de velhos papéis a mesinhas com cupim; desapegar-se a cantos de parede, tampos de mesa que se quebram, panos de prato do enxoval de mil nove-centos e vots da sua avó que já não cumprem sua função a não ser a de espanar as memórias. A morte de um espaço que antes ocupava a vida de uma ou mais pessoas. Uma casa nua é um espaço de ecos. Incrível como os móveis abafam a solidão das paredes.

Estou em processo de mudança. Com uma obra no meio para ficar ainda mais emocionante esse novo ciclo que se anuncia. Semana passada um cano quebrou. Dei uma pausa de cinco segundos até continuar o texto, só de pensar na tensão que senti quando vi que duas cerâmicas da parede do banheiro teriam de ser quebradas para ser feito o conserto, por conta de um furo desatento. Isso é só para você, leitor, ter uma ideia dos imprevistos cabíveis dentro de uma obra. Se é que já não passou por coisa pior. 

Tem horas que me perco em tantas caixas. E, nem todas as caixas do mundo seriam capazes de armazenar a quantidade de emoções que eu guardo pela aquisição do primeiro imóvel há sete anos. Agora, um novo ciclo, um outro lugar, com novas configurações que vêm junto com um companheiro, nossos quatro gatos e a minha mãe. Sem contar com a indispensável generosidade das minhas tias, que me ajudam a sonhar e realizar. É um recomeço que inclui livros que não são meus, tamanhos diferentes de janelas que, por sua vez, exigem outros tipos de cortinas e a matemática sobre onde vão caber objetos de duas casas numa só e nem tão grande assim.

Meu sonho ainda é morar num lugar que tenha mais espaços que móveis. Tremo de medo de cubículos inventados pelos arquitetos de construtoras que diminuem escalas propositalmente para dar "funcionalidade" aos ambientes. Experimente deitar numa cama dos estandes decorados de venda desses novos condomínios. Terá a infeliz surpresa de que as escalas estão adulteradas, para dar a ideia de que o seu guarda-roupa de seis por-tas vai caber no quarto.

Uma casa é o espaço que divide o sujeito que mora e o sujeito que vive nas ruas, no trabalho, com os amigos. São duas pessoas numa só, com necessidades diferentes. Em casa só entra a poeira dos sapatos de quem a gente quer. Em casa somos reis. Livres. Em casa o rei pode ficar nu, comer farofa de ovo, despir-se da pose e dos saltos altos, sentir cheiro de chulé no fim do dia. Em casa, os sofás, as poltronas, as camas, os travesseiros nos abraçam, mesmo que esteja tudo empoeirado.

Publicado hoje no Novo Jornal