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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sobre espaço, poeira e mudan



(imagem ilustrativa tirada da internet)


Todo mundo que já viveu uma mudança sabe que é uma experiência memorável. É preciso descartar coisas, de velhos papéis a mesinhas com cupim; desapegar-se a cantos de parede, tampos de mesa que se quebram, panos de prato do enxoval de mil nove-centos e vots da sua avó que já não cumprem sua função a não ser a de espanar as memórias. A morte de um espaço que antes ocupava a vida de uma ou mais pessoas. Uma casa nua é um espaço de ecos. Incrível como os móveis abafam a solidão das paredes.

Estou em processo de mudança. Com uma obra no meio para ficar ainda mais emocionante esse novo ciclo que se anuncia. Semana passada um cano quebrou. Dei uma pausa de cinco segundos até continuar o texto, só de pensar na tensão que senti quando vi que duas cerâmicas da parede do banheiro teriam de ser quebradas para ser feito o conserto, por conta de um furo desatento. Isso é só para você, leitor, ter uma ideia dos imprevistos cabíveis dentro de uma obra. Se é que já não passou por coisa pior. 

Tem horas que me perco em tantas caixas. E, nem todas as caixas do mundo seriam capazes de armazenar a quantidade de emoções que eu guardo pela aquisição do primeiro imóvel há sete anos. Agora, um novo ciclo, um outro lugar, com novas configurações que vêm junto com um companheiro, nossos quatro gatos e a minha mãe. Sem contar com a indispensável generosidade das minhas tias, que me ajudam a sonhar e realizar. É um recomeço que inclui livros que não são meus, tamanhos diferentes de janelas que, por sua vez, exigem outros tipos de cortinas e a matemática sobre onde vão caber objetos de duas casas numa só e nem tão grande assim.

Meu sonho ainda é morar num lugar que tenha mais espaços que móveis. Tremo de medo de cubículos inventados pelos arquitetos de construtoras que diminuem escalas propositalmente para dar "funcionalidade" aos ambientes. Experimente deitar numa cama dos estandes decorados de venda desses novos condomínios. Terá a infeliz surpresa de que as escalas estão adulteradas, para dar a ideia de que o seu guarda-roupa de seis por-tas vai caber no quarto.

Uma casa é o espaço que divide o sujeito que mora e o sujeito que vive nas ruas, no trabalho, com os amigos. São duas pessoas numa só, com necessidades diferentes. Em casa só entra a poeira dos sapatos de quem a gente quer. Em casa somos reis. Livres. Em casa o rei pode ficar nu, comer farofa de ovo, despir-se da pose e dos saltos altos, sentir cheiro de chulé no fim do dia. Em casa, os sofás, as poltronas, as camas, os travesseiros nos abraçam, mesmo que esteja tudo empoeirado.

Publicado hoje no Novo Jornal

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